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UOL Economia há 22 d • Sáb, 10 Out 2026 05:30:00 -0300

Orçamento é barreira para plano de Flávio Bolsonaro em infraestrutura

Orçamento é barreira para plano de Flávio Bolsonaro em infraestrutura

O plano de governo do senador Flávio Bolsonaro (PL) promete R$ 900 bilhões em transportes em quatro anos, com privatizações, parcerias público-privadas e outras formas de financiamento. Especialistas ouvidos pelo UOL consideram a meta ambiciosa e sem precedentes no país, mas dizem que ela tem lógica. O problema, afirmam, é de onde viria o dinheiro.

"A gente não tem, na história do Brasil, histórico dessa magnitude", diz Ronei Glanzmann, presidente executivo da MoveInfra, entidade que reúne seis dos principais reúne grupos de infraestrutura do país. Seriam mais de R$ 200 bilhões por ano só em transportes. O executivo acredita que o número parece derivar da meta de investir 4,5% do PIB em infraestrutura, com cerca de um terço destinado a transportes - o plano de governo do senador não apresenta detalhes sobre a origem dos recursos para as ambições do presidenciável.

O Brasil está longe disso. Segundo a Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base), o país investiu R$ 280 bilhões em infraestrutura em 2025 e deve aplicar R$ 300 bilhões neste ano, o que corresponde a algo na faixa de 2,2% do PIB, somando todos os setores.

O plano fala em "segurança jurídica, regras tarifárias estáveis e previsíveis e respeito à lógica das decisões econômicas privadas (…) e é sobre essa base que o investimento privado assume a construção e a operação". Ocorre que o setor privado já é o protagonista dos investimentos em infraestrutura de transportes no país: Glanzmann observa que, dos R$ 280 bilhões em investimentos que ocorreram no ano passado, o setor privado respondeu por 84%.

Em muitos aspectos, o plano dá continuidade à agenda atual - e isso não é necessariamente algo negativo. O atual programa de concessões começou no governo de Michel Temer (2016-2018), prosseguiu no mandato de Jair Bolsonaro (2019-2022) e acelerou-se no governo Lula.

"Seja em um governo Lula 4 ou com Flávio 1", opina Glanzmann, a carteira de leilões "só vai andar para a frente. Infraestrutura no Brasil já é uma agenda de Estado, não é mais agenda de governo". Segundo ele, há cerca de dez leilões de rodovias previstos para 2027 e 34 estudos de concessão contratados.

Daniel Keller, sócio da consultoria Una Partners, diz que os R$ 900 bilhões "cabem" na necessidade do país, mas não no Orçamento. O orçamento federal para rodovias ficou abaixo de R$ 15 bilhões em 2025, e ele estima que a União chegue a 2027 com cerca de R$ 30 bilhões para rodovias e ferrovias, "com algum otimismo".

Sem aporte público as ferrovias não saem

As ferrovias têm bom destaque no plano de governo de Flávio Bolsonaro. O documento cita nominalmente projetos como o da Ferrogrão, o Trem do Nordeste, um estrada férrea de passageiros que ligaria capitais da região, e a ainda inacabada Transnordestina, que prevê ligar Eliseu Martins, no Cerrado do Piauí, aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE).

Também nesse ponto o calcanhar de Aquiles é a alta exigência de investimento público. Estima-se que só a construção do zero (um projeto "greenfield", no jargão do mercado) de uma ferrovia custe cerca de R$ 30 milhões por quilômetro. Seriam R$ 30 bilhões para uma estrada de mil quilômetros.

"Mesmo pensando na força do nosso agro, a gente não vê empresas com apetite ao risco nesse nível. Em um projeto "greenfield", não se tem nada. Você gasta muito dinheiro, e depois são seis, sete, oito anos anos sem receber um real. Projetos assim exigem um aporte público muito significativo", afirma Keller.

Não é que o empresário brasileiro é mais medroso, nada disso. Com projetos desse tipo, é assim que se faz em qualquer lugar do mundo Daniel Keller, sócio da consultoria Una Partners

A Ferrogrão, que prevê ligar Sinop (MT) ao porto de Miritituba, em Itaituba (PA), é o exemplo mais claro da alta exigência de recurso público, acredita o especialista. Ele estima que a obra custará cerca de R$ 35 bilhões, bem mais que os R$ 21 bilhões do cálculo da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). Por isso, o aporte público necessário ficaria entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões, e não na faixa entre R$ 5 bilhões e R$ 7 bilhões, como se discute hoje.

O plano de Flávio Bolsonaro fala explicitamente em "destravar a Ferrogrão", projeto que ficou parado até o STF (Supremo Tribunal Federal) julgar se era constitucional a mudança dos limites do Parque Nacional do Jamanxim, no Pará, que está no traçado da ferrovia. O STF aprovou a mudança, e agora a ANTT dá andamento ao processo de concessão

Assim, se, em um eventual mandato de Flávio Bolsonaro, a Ferrogrão for destravada, o fato é que os maiores entraves burocráticos já ficaram para trás. E, à parte as dificuldades com a Ferrogrão, é possível que houvesse uma opção mais simples e barata para escoar a soja de Mato Grosso, diz Keller: a ligação entre o fim da ferrovia Norte-Sul e o porto de Vila do Conde (PA), que, segundo estimativas, custaria R$ 10 bilhões.

Conta de luz: subsídios na mira

Na área de energia, o plano de Flávio Bolsonaro promete simplificar a conta de luz e reduzir encargos e subsídios. Keller considera o ponto correto. Ele menciona a CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), que reúne benefícios setoriais pagos por todos os consumidores e que chega a R$ 52 bilhões. "Tem que cair para R$ 20 bilhões, alguma coisa assim", diz.

Os subsídios - uma lista que inclui, entre muitas outras políticas, descontos nas tarifas de transmissão e distribuição para usinas eólicas e solares e incentivo ao carvão de Santa Catarina - representam pouco mais de 20% da tarifa dos consumidores residenciais de energia elétrica, de acordo com o "Subsidiômetro", da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Daniel Dotta, professor da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Unicamp, aponta como um dos principais entraves o subsídio à geração distribuída, como os painéis solares de casas e empresas, que segue na conta até a década de 2040. Segundo ele, a falta de calibragem desse incentivo, nos governos Bolsonaro e Lula, criou um excesso de energia no meio do dia que ameaça a segurança do sistema e força cortes de geração em usinas eólicas e solares.

O professor avalia que a proposta de Flávio Bolsonaro de investir em baterias e armazenamento "faz todo sentido". Ele defende, porém, mudar as regras de preço para que o próprio mercado torne isso possível.

O plano de Flávio Bolsonaro fala em "transformar em energia e emprego a nossa riqueza de petróleo e gás". Chama a atenção, no entanto, que o documento, de 75 páginas, não faça uma única menção à Petrobras. Em comentários sobre a estatal durante a campanha, o senador limitou-se a comentar - e negar - rumores de que pretenda privatizar a empresa.

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Fonte da Notícia: UOL Economia
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