A inflação de 0,82% registrada em setembro superou as expectativas e colocou o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) novamente acima do teto da meta. O resultado acende um sinal de alerta no mercado financeiro sobre a manutenção de cortes na Selic, a taxa básica de juros da economia.
O que aconteceu
Inflação de setembro superou as projeções e foi a maior para o mês desde 2021. A alta de 0,82% do IPCA aparece 0,12 ponto percentual acima da estimativa apontada pela última edição do Boletim Focus, divulgado pelo BC (Banco Central) na última segunda-feira (5).
Variação positiva foi estimulada pelo aumento das contas de luz e dos alimentos. As tarifas de energia elétrica residencial dispararam 7,98% no mês passado com a retomada da integralidade das cobranças após os descontos concedidos em agosto. No grupo de alimentos, a alta de 0,83% interrompeu a sequência de três deflações consecutivas.
Resultado colocou a inflação novamente acima do intervalo de tolerância da meta. A aceleração de setembro faz o IPCA acumular alta de 4,58% nos últimos 12 meses, variação levemente acima da margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para a meta de 3% (entre 1,5% e 4,5%) estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional). Para o BC, há 90% de chance de o índice encerrar 2026 acima do limite.
IPCA ameaça ciclo de cortes consecutivos da taxa básica de juros da economia. A aceleração da inflação é mencionada como uma sustentação para a manutenção da taxa Selic no patamar atual após as cinco quedas consecutivas de 0,25 ponto percentual derrubarem os juros básicos de 15% para 13,75% ao ano. "O resultado reforça uma postura mais cautelosa do Copom e reduz o espaço para novos cortes na Selic", avalia Roberto Luis Troster, coordenador do Cefeb/Fipe.
Com mercado de trabalho aquecido, renda crescendo acima da produtividade e expectativas de inflação acima da meta, o repasse de custos fica mais fácil e a inflação de serviços demora mais a ceder. Isso mantém o BC cauteloso, mesmo com atividade e crédito perdendo força de forma gradual, e reduz o espaço para novos cortes da Selic nas próximas reuniões do Copom.Vitor Kayo, economista sênior na Nomad
Parte dos analistas prevê ao menos mais uma redução da taxa Selic neste ano. A mediana mais recente das expectativas do mercado financeiro indica um novo corte de 0,25 ponto percentual dos juros básicos em novembro, para 13,5% ao ano. "A desaceleração da economia e uma perspectiva de maior responsabilidade fiscal após as eleições podem favorecer a continuidade da redução dos juros", avalia Pablo Spyer, conselheiro da Ancord.
BC afirma que próximos passos da política monetária são dependentes de dados. A manifestação foi apresentada na ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), quando a autoridade monetária condicionou o futuro da taxa Selic à evolução da economia. "O Comitê seguirá incorporando novas informações e acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", diz o documento.
No contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário.Ata da 281ª Reunião do Copom
Autoridade monetária tem a Selic como instrumento para controlar a inflação. A taxa básica de juros funciona como um escudo do BC para conter os preços. Quando os juros sobem, o crédito fica mais caro, o que reduz a demanda por bens e serviços e segura o avanço dos preços. No cenário oposto, o acesso fica mais restrito e os preços tendem a subir.
O IPCA de setembro reduz o conforto que o Banco Central tinha para continuar cortando os juros, embora ainda deva acompanhar mais dados, principalmente no que tem de atividade econômica, para decidir sobre juros.Rafael Sueishi, head de renda fixa da Manchester Investimentos
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