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Brasil UOL Notícias há 2 h • 2026-10-30 14:07:31

Trump recorre a elogios bizarros e desvia foco da inflação para mobilizar base republicana nos EUA

O traseiro da rapper Nicki Minaj ("lindo"). O traseiro do candidato ao Senado Jon Husted ("um monte de músculos"). Os dedos do candidato ao Senado Jon Husted ("salsichas"). A audiência na TV do apresentador Bill Maher ("baixa"). O fato de a Noruega não lhe conceder o Prêmio Nobel da Paz ("país de merda"). Um novo nome para o Atlântico ("oceano Trump"). E a rede de restaurantes Cheesecake Factory.

Essas foram algumas das mensagens impactantes de Donald Trump em atos de campanha.

Pesquisas mostram que os americanos que votarão nas eleições de meio de mandato da semana que vem se preocupam sobretudo com a economia —e, em especial, com o custo de vida. Mas o discurso de campanha do presidente dos Estados Unidos e de seus aliados tem sido um pouco mais variado.

Dois anos atrás, era diferente. Cansados da inflação alta, os americanos conduziram Trump à Casa Branca entusiasmados com sua promessa de reduzir os preços. Agora, ele enfrenta a mesma irritação dos eleitores com a disparada dos custos que derrubou seu antecessor, Joe Biden.

Em meio ao repertório de campanha sobre os "democratas lunáticos", sua predileção por carne e a aparência de Husted, Trump tem alardeado uma bolsa de valores em alta, promessas robustas de investimentos empresariais e um crescimento do PIB que faz da economia a "inveja do mundo".

"Estes são os números gerais: o maior número de empregos de todos os tempos, os melhores níveis de pobreza de todos os tempos, os melhores níveis de renda de todos os tempos, o maior volume de exportações", disse ele esta semana em um comício no Texas.

Mas os americanos que enfrentam a disparada da inflação desde que Trump iniciou a guerra contra o Irã não parecem convencidos. Uma pesquisa do Financial Times constatou que 56% dos entrevistados disseram estar em situação financeira pior desde que Trump voltou ao poder, em janeiro de 2025.

Estrategistas dizem que isso explica as digressões de Trump sobre temas esotéricos e os ataques pessoais com os quais ele espera empolgar sua base.

"As pessoas não estão sentindo os efeitos dos indicadores econômicos de que ele fala, então é muito mais difícil para ele fazer essa mensagem chegar aos eleitores", disse Ron Bonjean, estrategista político republicano.

"O fundamental para ele é tentar mobilizar a base republicana Maga e entusiasmá-la a ir às urnas. É por isso que, nesses comícios, ele se concentra na economia, mas também faz muitas outras coisas", acrescentou.

O presidente não é o único em campanha a sair do roteiro à medida que a votação se aproxima. No Alasca, a campanha democrata para o Senado se viu envolvida em um escândalo sobre manobras eleitorais. A tentativa do partido de conquistar uma cadeira no Senado pelo Maine foi inicialmente prejudicada por um candidato com uma tatuagem de símbolo nazista que foi acusado de agressão sexual.

Mas, mesmo enquanto republicanos que esperavam disciplina na mensagem por parte do presidente se contorcem de constrangimento, Trump redobrou a aposta no que às vezes parece uma cena de comédia.

Na terça-feira (27), no Texas, a digressão voltou aos físicos masculinos, com Trump zombando —não pela primeira vez— da aparência do candidato republicano ao Senado Ken Paxton, cujo corpo não "se qualificaria" para receber elogios presidenciais.

O porta-voz da Casa Branca Matthew Middleton disse que Trump havia implementado uma "agenda histórica de crescimento econômico", que levou a bolsa a níveis recordes, promoveu investimentos e criou empregos, além de "ajudar a amenizar os efeitos da crise inflacionária de Biden, a maior em 40 anos". O presidente havia destacado essas e outras conquistas econômicas durante a campanha, afirmou.

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Não há dúvida de que a economia dos EUA vem avançando bem. Dados oficiais divulgados esta semana mostraram que o crescimento do PIB acelerou para 3,4%, impulsionado pelo boom de investimentos em IA e pela resiliência dos gastos dos consumidores.

Mas, para muitos americanos, a alta da inflação é um indicador mais palpável da saúde da economia. Dados divulgados na quinta-feira (29) mostraram que o índice de Despesas de Consumo Pessoal, um indicador da inflação, subiu 3,6% nos 12 meses até setembro, ante 2,6% antes de Trump assumir o poder.

Esse cenário tornou as trivialidades não econômicas um terreno mais fértil para as mensagens de campanha, dizem analistas.

"Este não é o momento para argumentos racionais e entediantes. É o momento de manter tudo empolgante e divertido para levar a base às urnas", disse John Feehery, estrategista republicano e ex-assessor do Congresso.

"O que Trump faz muito bem é criar mensagens que sempre são repercutidas pela mídia."

E qualquer coisa que coloque um candidato no noticiário é positiva, argumentam os analistas.

Trump gerou manchetes ao elogiar a aparência elegante de candidatos republicanos como Tim Sheehy, de Montana, e Mike Collins, da Geórgia. Mas Husted e seu traseiro foram as verdadeiras estrelas do espetáculo.

O candidato de Ohio, que está atrás na disputa, brincou esta semana antes de uma visita de Trump: "Não se preocupem, estive na academia hoje de manhã, malhando."

Alguns dos ataques de Trump têm sido indiscriminados e cruéis. Ele tem feito digressões sobre o democrata James Talarico, retratando-o como alguém sem masculinidade suficiente para vencer uma eleição no Texas.

Ele zombou de Abdul El-Sayed, democrata que disputa uma cadeira no Senado por Michigan, por causa de sua religião, chamando-o de "Abdullah bá, bá, bá, bá, bá Mohamed" e de "membro jihadista da Irmandade Muçulmana", que precisaria "passar por um detector de metais" para entrar no Congresso.

Então veio o grande escândalo do Cheesecake Factory.

Durante um discurso recente de campanha, Barack Obama brincou que as reformas de Trump no Salão Oval pareciam obra de "Saddam Hussein abrindo um Cheesecake Factory", em referência à popular rede de restaurantes, cuja decoração beira o espalhafatoso.

Trump e outros aliados, entre eles o secretário do Tesouro, Scott Bessent, classificaram a piada de Obama como um ataque de um elitista privilegiado que zombava das preferências alimentares dos americanos.

Bessent chegou a dar uma entrevista coletiva improvisada diante de uma unidade local do Cheesecake Factory. "Tive uma ótima refeição. Sempre tenho uma ótima refeição", disse o ex-chefe de fundo de hedge.

Alguns republicanos temem que esse tipo de digressão e desvio em plena temporada eleitoral —incluindo as bravatas de Trump sobre seus projetos de construção em Washington— prejudique o tema no qual o partido deveria se concentrar: a revolta dos americanos com os preços elevados.

"A base vai dizer: diga-me outra vez o quanto você se importa comigo", afirmou Susan Del Percio, estrategista republicana.

"As notícias que saem desses comícios deveriam tranquilizar as pessoas que votaram nele —mas não é isso que acontece.

"Toda vez que ele fala de um heliponto, de um museu, de um salão de baile ou de um campo de golfe, é tempo em que não está falando das coisas com as quais as pessoas se importam."

Também houve mensagens contraditórias por parte do governo.

O vice-presidente de Trump, J. D. Vance, reconheceu que os americanos estão sendo pressionados. "Reconheço que os preços dos combustíveis estão altos demais neste momento", disse ele recentemente. Mas seu argumento é pedir mais tempo para corrigir o problema.

Mas Vance está em grande parte sozinho nesse discurso. Outros integrantes do governo Trump, como Bessent e Kevin Hassett, do Conselho Econômico Nacional da Presidência, minimizaram as preocupações com a inflação, chegando a sugerir que ela é uma invenção.

De modo geral, Trump parou de desdenhar das preocupações dos americanos com o custo de vida, como fazia no ano passado. Mas repetidamente atribuiu a culpa a Biden e disse falsamente que todos os preços caíram desde que voltou ao poder.

Embora muitos aliados do presidente vejam sua presença na campanha como uma vantagem para os candidatos locais, alguns, como o candidato ao Senado Mike Rogers, em Michigan, tentaram se distanciar de políticas impopulares, como as tarifas de Trump ou a guerra comercial com o Canadá.

Os democratas argumentam que, independentemente do que o presidente diga em campanha —sobre a Noruega, Nicki Minaj ou a inflação ter sido "derrotada"—, esse presidente historicamente impopular está lhes fazendo um favor.

"Ele fez todas essas promessas sobre reduzir preços e custos —e, em muitos casos, preços e custos seguiram na direção errada", disse Anthony Coley, estrategista democrata e ex-integrante do governo Biden. "Sua presença na campanha é um lembrete visível das promessas não cumpridas."

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