Conflitos geopolíticos, protecionismo comercial, inflação mais resistente e o aumento do endividamento público mudaram o cenário econômico global e reduziram o espaço para uma volta ao período de juros baixos. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial surge como uma possível fonte de ganhos de produtividade, mas também traz incertezas sobre emprego e inflação. O Brasil, apesar de estar relativamente protegido dos conflitos externos e de ser beneficiado pela força do mercado de commodities, enfrenta uma vulnerabilidade própria: o elevado nível da dívida pública.
Esse foi o diagnóstico apresentado por quatro economistas-chefes durante a 27ª Conferência Anual Santander, em São Paulo.
O que você precisa saber
O mundo desenvolvido deixou para trás o risco de inflação baixa e agora enfrenta uma vulnerabilidade fiscal maior do que durante a pandemia. "Se a covid acontecesse de novo, os governos iriam injetar dinheiro público para sustentar a economia, mas o nível da dívida-PIB e déficit fiscal [no mundo] é muito maior [agora] do que naquela época. É um mundo mais sensível, e isso veio para ficar", afirmou Fernanda Guardado, economista-chefe do BNP Paribas e ex-diretora do Banco Central.
As incertezas aumentaram desde a pandemia. "Vivemos num mundo mais sujeito a choques de oferta, que exige mais cautela", diz Guardado ao mencionar a alta do petróleo em meio ao conflito envolvendo o Irã. "Voltamos ao problema tradicional de inflação alta e juros para contê-la. Em parte, isso é causado pela geopolítica, mas também ao endividamento soberano global alto. É um mundo mais perigoso, mais sensível a novos choques."
Como resultado, a economia global tende ao protecionismo comercial. "Hoje em dia a gente sente uma regressão: países tentando se fechar ou com maior restrição com a política internacional. Um dos pontos positivos seria a inteligência artificial. No futuro, os investidores veem isso como ganho de produtividade e crescimento potencial. A dúvida é o curto prazo: a transição no mercado de trabalho [causará] um adicional inflacionário por conta da oferta", afirmou Ana Madeira, economista-chefe do Morgan Stanley.
A avaliação é que os ganhos de produtividade proporcionados pela inteligência artificial podem ajudar o crescimento no longo prazo, mas a transição no mercado de trabalho pode gerar desequilíbrios no curto prazo.
Brasil é menos cobrado, mas dívida ainda preocupa
A piora fiscal nas economias desenvolvidas reduziu, em alguma medida, a excepcionalidade da preocupação com as contas brasileiras. "O investidor internacional nos pergunta porque estamos tão preocupados no Brasil. Não é que está ótimo, é que o fiscal virou uma questão em economias avançadas", diz Madeira.
A visão [externa] é calma sobre o Brasil, mas a gente viu um estressezinho nas últimas semanas [com quedas sucessivas na Bolsa e desvalorização do real].Ana Madeira, do Morgan Stanley
A força das commodities também funciona como uma proteção relativa para o Brasil diante de choques externos. O tamanho do mercado consumidor brasileiro e a produção de commodities como petróleo, minério de ferro e produtos agropecuários ajudam a amortecer parte dos efeitos do cenário internacional. "Somos uma economia robusta, mercado consumidor gigantesco, tem peso na economia global. Mas temos nossos desafios, e a vantagem é que são internos. Se a gente fizer o dever de casa, o prêmio de risco pode cair", afirmou Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica.
O distanciamento geográfico dos conflitos também dá ao Brasil algum tempo extra para se adaptar. O verdadeiro teste para o país será lidar com a pressão sobre as taxas de juros de longo prazo, diz Cecília Machado, economista-chefe do Banco BoCom BBM. "O Brasil está fora desses conflitos externos, mas temos de abraçar nossos desafios, como o aumento da taxa de juros longa. O ambiente traz oportunidades e desafios para todos os países fiscalmente frágeis, e o Brasil se encontra nessa caixinha", afirmou.
A desvantagem brasileira está no tamanho da dívida. Segundo Guardado, a dívida brasileira está perto de 80% do PIB, ante uma média de cerca de 60% entre seus pares emergentes. "Ainda que haja complacência, a realidade é que o Brasil é emergente e não pode ser comparado com a França, com o Reino Unido e com os Estados Unidos. O Brasil é mais suscetível à desconfiança fiscal. Se os EUA pegarem uma gripe, o Brasil pega uma pneumonia", disse.
Economistas cobram corte de gastos
As economistas foram unânimes ao defender que uma redução sustentável dos juros e da dívida pública dependerá de um ajuste nas contas do governo. "A primeira coisa que o novo presidente [da República] tem de fazer é dar uma sinalização clara e crível quanto à trajetória fiscal à frente", afirmou Victal, que pediu uma reformulação do arcabouço fiscal, criado pelo atual governo para conter gastos. "Ao longo do caminho, a dívida não parou de subir. Ele [arcabouço] não entregou o que se propunha a fazer. Tem de rever a regra."
Antes de uma eventual mudança no arcabouço, seria preciso rever também a regra de valorização do salário mínimo. Hoje, a regra combina a reposição da inflação pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) acumulado até novembro com o crescimento real do PIB de dois anos antes. Como despesas como aposentadorias e benefícios assistenciais estão vinculadas ao piso nacional, a valorização real do mínimo também afeta os gastos públicos.
Para Guardado, é preciso "mexer na regra do salário mínimo, que é extremamente impopular", disse ela ao defender o fim da atual fórmula de correção. Ela também defendeu "cortar subsídios" ao setor produtivo, "mas quero ver quem vai mexer na Zona Franca de Manaus", provocou.
O que o mercado precisa ver é uma agenda que seja confiável para tratar desses diversos pontos que tornam nosso orçamento disfuncional: reforma da Previdência, revisão [da correção] dos pisos constitucionais [de saúde e educação], revisão do BPC [benefício a famílias de baixa renda]. Aí a gente vê a regra.Fernanda Guardado, do BNP Paribas
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