A lista de credores da Casas Bahia após o pedido de recuperação judicial indica uma relação de títulos de renda fixa, impactando investidores que compraram papéis emitidos pela companha, que já passou por uma reestruturação em 2024 e 2025.
O que aconteceu
Pedido de recuperação judicial da Casas Bahia alcança títulos de renda fixa. A solicitação relata uma dívida de R$ 17,3 bilhões com credores de diversos segmentos. Entre eles, aparecem CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), Notas Comerciais e debêntures emitidos pela varejista para reestruturar suas operações.
Pagamento de juros dos títulos fica suspenso com processo de recuperação. Caso a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo aceite o pedido da Casas Bahia, a atualização dos valores dos títulos de renda fixa fica interrompida. "O pagamento desses instrumentos fica condicionado ao plano de recuperação que vai ser apresentado ao juiz da recuperação, demonstrando qual será a proposta de pagamento, a ordem e o cronograma dos valores", diz Vanderlei Garcia Jr., advogado especialista em direito bancário.
Parcela da dívida está concentrada no agente fiduciário Oliveira Trust DTVM. A lista de credores traz a instituição como a responsável pela emissão de duas debêntures e uma nota comercial da Casas Bahia. O agente, também responsável por um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) da varejista, acumula um passivo de ao menos R$ 345,9 milhões com a empresa e carrega o compromisso de defender o interesse dos investidores.
A Oliveira Trust, listada como credora, atua como agente fiduciário: representa os debenturistas e não é a beneficiária econômica do crédito. Nicole Berto, executiva do Instituto Empresa
Títulos para financiar as companhias ganharam atratividade nos últimos anos. Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que as emissões de debêntures incentivadas alcançaram R$ 43,6 bilhões no primeiro semestre, volume inferior apenas ao registrado no ano passado (R$ 44,41 bilhões) para o período. No mercado secundário, o total de debêntures cresceu 20,6%, para R$ 494,6 bilhões.
Papéis da Casas Bahia desvalorizaram desde as novas emissões ao mercado. Alguns dos títulos relacionados à Casas Bahia acumulam perda superior a 50% desde a emissão. Com a adversidade, parte das debêntures iniciadas em 2024 com vencimento para 2027 foram convertidas em ações.
O investidor precisa entender que renda fixa de empresa não é renda garantida, é empréstimo. E quando o devedor entra em recuperação judicial a dívida é renegociada em prazo e em taxa. Só que existe uma diferença enorme dentro dessa lista e é ela que define quem perde mais. André Matos, CEO da MA7 Capital
Renegociação de 2024
Casas Bahia já impôs perdas a investidores de renda fixa em recuperação extrajudicial. Em abril de 2024, o grupo ingressou com uma recuperação extrajudicial para reperfilar aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas financeiras quirografárias, relacionadas a emissões de debêntures e CCBs (Cédulas de Crédito Bancário). O plano foi homologado pela Justiça em junho daquele ano. Aquela reestruturação estabeleceu, entre outras condições, carência de 24 meses para juros, 30 meses para principal e prazo total de amortização de 78 meses.
O caso Casas Bahia mostra que uma reestruturação não significa necessariamente que o risco terminou. O investidor precisa continuar acompanhando a capacidade de geração de caixa, o endividamento e as condições da empresa para cumprir o novo cronograma assumido com seus credores. Temos aqui uma companhia que já havia renegociado parte importante de suas dívidas e, pouco mais de dois anos depois, chega a uma recuperação judicial. Nicole Berto, executiva do Instituto Empresa
Recuperação extrajudicial em 2024 teve reflexos além dos investidores que detinham diretamente debêntures da varejista. Parte das debêntures emitidas pelo Grupo Casas Bahia servia como lastro para CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) emitidos pela Opea Securitizadora. Isso fez com que investidores dos CRIs também fossem envolvidos nos desdobramentos da reestruturação.
Titulares chegaram a rejeitar, em assembleia realizada em junho de 2024, a adesão ao plano e aprovaram sua impugnação. Apesar da contestação, o plano acabou homologado pela Justiça. O caso posteriormente chegou à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), diante das discussões sobre as alterações dos títulos que serviam de lastro aos CRIs.
Obrigações originais foram substituídas por novas debêntures. No caso das séries que passaram a servir de lastro aos CRIs, foram estabelecidos vencimentos que chegam a novembro de 2030. Segundo Nicole, o episódio demonstra como uma dificuldade financeira de uma companhia pode chegar ao investidor por caminhos menos evidentes.
O investidor pode olhar para sua carteira e enxergar um CRI ou uma cota de fundo, e não necessariamente perceber de imediato que, na ponta daquela estrutura, existe risco de crédito de uma determinada empresa. Quando essa companhia entra em crise, compreender o lastro, as garantias e a posição daquele investimento dentro da estrutura passa a ser fundamental. Nicole Berto, executiva do Instituto Empresa
Como fica o investidor?
Cenário evidencia que a aplicação em renda fixa não representa isenção dos riscos. O alerta considera que os investimentos nos títulos dependem da capacidade da empresa emissora em honrar seus compromissos. "Quando você compra uma debênture, está emprestando dinheiro para uma empresa", explica Milene Dellatore, especialista em investimentos do Grupo Mide.
Os investidores precisam de atenção para minimizar os prejuízos com os títulos. Os especialistas não descartam a perda dos valores investidos. "A recuperação judicial normalmente resulta em deságio sobre o valor de face dos créditos, alongamento de prazos e, em muitos casos, conversão de dívida em participação acionária, como já ocorreu em 2024", reforça Vanderlei Garcia Jr., advogado especialista em direito bancário.
Investidores podem vender os títulos e fundos no mercado secundário. A opção surge como alternativa para quem deseja mitigar os riscos e evitar perder o valor aplicado na Casas Bahia. "A venda no mercado secundário é possível em tese, mas pode haver pouca liquidez e descontos elevados", alerta Nicole Berto, executiva do Instituto Empresa.
As movimentações, no entanto, tendem a derrubar o valor dos títulos. Caso exista uma debandada dos papéis, a tendência é de que os títulos percam valor. "O ponto é que vender pode cristalizar uma perda muito grande, mas esperar também tem custo de oportunidade, risco e incerteza", afirma Milene Dellatore.
Aportes na varejista não garantem a restituição do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Diferentemente do que acontece com os CDBs (Certificados de Depósito Bancário), letras de crédito e a poupança, os títulos atrelados ao financiamento de empresas não possuem garantias. "O FGC garante apenas instrumentos emitidos por instituições financeiras. CRI, CRA e debêntures são títulos de crédito privado emitidos por empresas não-financeiras e carregam o risco de crédito do emissor", diz Vanderlei Garcia Jr., advogado especialista em direito bancário.
Ativos de outras empresas do segmento também podem ser contaminados. O ambiente adverso para as varejistas em meio aos juros e endividamento elevados abre espaço para também inibir o interesse em financiar as empresas do setor, mesmo que não estejam em recuperação.
Quando o mercado percebe aumento de recuperações, renegociações agressivas ou perdas relevantes em determinados perfis de empresas, ele recalcula o risco e começa a cobrar mais caro para emprestar. Milene Dellatore, especialista em investimentos do Grupo Mide
Como investidor checa se tem algum desses títulos
Profissionais de mercado recomendam evitar ações impulsivas. A primeira coisa é identificar exatamente qual emissão e qual série o investidor possui, diz Milene Dellatore, especialista em investimentos do Grupo Mide. Ela aponta um passo a passo para o aplicador.
O ponto é que vender pode cristalizar uma perda muito grande, mas esperar também tem custo de oportunidade, risco e incerteza. Não existe uma resposta universal sem saber a série, a garantia, o preço de mercado e as condições do plano. Milene Dellatore, especialista em investimentos do Grupo Mide
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