Neste mês, Disney e TikTok anunciaram um programa que permitirá a criadores autorizados usar ativos de propriedade intelectual de centenas de filmes e séries de Pixar, Marvel, Star Wars, FX e outras marcas. Uma seleção desses vídeos circulará no TikTok e no Verts, a área vertical do Disney+. O piloto começará nos Estados Unidos. Na divulgação do acordo, as empresas não anunciaram novos mercados nem termos financeiros.
O anúncio apresentado como uma colaboração entre franquias e comunidades, altera a cadeia de distribuição. O conteúdo criado em uma rede social passará a integrar o produto de um serviço de streaming. A Disney autoriza os ativos, define as regras e escolhe o que entra no Disney+.
O TikTok organiza a relação com os criadores e controla boa parte da descoberta. Os criadores fornecem produção, linguagem de plataforma e contato com as comunidades.
O consultor argentino Hernan Lopez, radicado nos Estados Unidos, vê nesse movimento a formação de uma terceira linguagem audiovisual. O cinema foi moldado pela sala escura e pela atenção concentrada. A televisão entrou em casa e construiu um negócio baseado em hábito e repetição. O vertical nasce do telefone mantido em pé, do gesto de deslizar, da reprodução em tela cheia e da seleção algorítmica.
O caso Disney-TikTok mostra que o vertical já se tornou uma camada de distribuição. A tela em pé passou a conectar propriedade intelectual, recomendação, produção de fãs, streaming e comércio.
Em artigo na Variety, Lopez defende a convivência entre telas, num mundo em que o vídeo vertical ainda é tratado como uma versão empobrecida da televisão ou como material promocional destinado a levar o público a outra obra.
Os microdramas são o exemplo mais visível dessa linguagem, mas não representam todo o vertical. Eles combinam episódios curtos, serialização intensa, ganchos frequentes e formas de pagamento próximas às usadas por jogos para celular.
Lopez compara o estágio atual às novelas dos anos 1950. A novela ajudou a formar a televisão e não antecipava esporte ao vivo, reality show, animação adulta ou série de alto orçamento. A comparação abre espaço para imaginar outros gêneros verticais.
A Owl & Co., consultoria de Lopez para empresas de mídia, tecnologia, propriedade intelectual, streaming e negócios de criadores, estima que o vídeo vertical fora da China poderá gerar US$ 150 bilhões no ano, incluindo o Reels.
Para atingir a massa, Disney e TikTok criaram um programa de embaixadores. As empresas prometem recompensas, visibilidade, eventos e caminhos de desenvolvimento profissional. A Disney mantém a propriedade intelectual, escolhe os ativos, controla a curadoria e conecta os vídeos ao catálogo e aos demais negócios da franquia.
O TikTok mantém a relação inicial com os criadores, o sistema de recomendação e os dados de circulação. Os criadores entregam produção, audiência e capacidade de transformar personagens em conversa cotidiana.
O contexto financeiro da Disney mostra por que essa camada interessa. No mesmo dia do anúncio, a empresa informou que Toy Story 5 havia elevado as vendas de produtos, o engajamento do Disney+ e as visitas aos parques.
A receita trimestral cresceu 7%, para US$ 25,2 bilhões. Esses resultados mostram a capacidade da Disney de movimentar uma franquia entre cinema, streaming, produtos e parques. O acordo com o TikTok acrescenta a produção dos fãs.
O TikTok informa que os usuários publicaram em média 6,5 milhões de posts diários relacionados a cinema e televisão no ano anterior. A empresa afirma que quase metade dos participantes de uma pesquisa assistiu depois a uma obra descoberta no aplicativo.
No Brasil, o Relatório de Impacto do YouTube 2025, informa que o ecossistema criativo da plataforma contribuiu com mais de R$ 6 bilhões para o PIB brasileiro e sustentou mais de 150 mil empregos equivalentes a tempo integral.
Com estimativas da Oxford Economics, o documento afirma que canais brasileiros enviaram mais de 45 milhões de horas de conteúdo. Os números abrangem todo o YouTube, incluindo vídeos longos, Shorts, música, transmissões ao vivo, educação e outros formatos.
A contribuição mais útil do relatório está na cadeia de produção. Por trás de muitos canais há editores, cinegrafistas, designers, estúdios, agências e fornecedores. Criadores maiores reinvestem em salários, equipamentos, aluguel e serviços comprados em suas cidades.
O canal pode funcionar como uma pequena empresa de mídia. Entre as pequenas e médias empresas que usam o YouTube, 71% consideram a plataforma essencial para o crescimento. Entre as empresas com canal, 71% dizem que ele ajuda nas vendas internacionais.
E o brasileiro já se internacionalizou. O relatório do YouTube registra que mais de 15% do tempo de exibição de conteúdos produzidos por canais brasileiros vem de fora do país, sendo que 85% do consumo total é doméstico. Os números cobrem todo o YouTube, incluindo vídeos longos, Shorts, transmissões ao vivo, música, educação.
O acordo da Disney muda a posição do criador na cadeia. O creator fornecia divulgação gratuita, mas agora fornece catálogo.
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