O artigo do economista André Lara Resende com uma proposta para reduzir a taxar de juros no Brasil expôs o racha que há no entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre os rumos da política econômica do quarto mandato.
O episódio também ampliou o ruído fiscal sobre o novo governo Lula, em um momento em que investidores cobram sinais mais claros sobre o compromisso do presidente com o equilíbrio das contas públicas e com a composição de sua equipe econômica.
Partiu da deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-ministra das Relações Institucionais e ex-presidente nacional do PT, o principal aceno de apoio ao economista, que é um dos formuladores do Plano Real. Derrotada nas eleições ao Senado pelo Paraná, Gleisi é considerada figura certa como ministra no governo Lula 4.
O texto de Lara Resende foi publicado no fim de setembro, mas ganhou visibilidade neste último fim de semana após o colunista Lauro Jardim, do Globo, afirmar que haveria nesta semana uma reunião entre Lara Resende e Lula. O encontro é negado pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan. Procurados pelo UOL, Lara Resende e a assessoria de Lula não retornaram.
O artigo do economista
Lara Resende afirma que o principal motivo para o alto endividamento brasileiro está nos juros elevados, e não no gasto primário. Ele defende uma mudança no regime fiscal e monetário brasileiro, com a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), responsável por estabelecer metas conjuntas para as duas políticas.
A proposta prevê que a taxa básica de juros fique em uma faixa entre a meta de inflação e o crescimento nominal potencial da economia.
Na prática, Lara Resende defende uma redução da Selic, atualmente em 13,75% ao ano, para cerca de 7,5% em um prazo de 12 meses.
O economista argumenta que a queda dos juros reduziria significativamente o custo da dívida pública e ajudaria a reequilibrar as contas do país. Ele também diz que o país poderia usar as reservas cambiais para evitar uma depreciação rápida do real.
Reação do governo: em entrevista à Folha de S.Paulo, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que não há nenhuma proposta de tabelamento dos juros na mesa de Lula. O presidente do PT, Edinho Silva, em nota encaminhada à imprensa, criticou as especulações sobre mudanças na condução da política econômica e afirmou que apenas Durigan fala em nome do governo nesse assunto.
Futuro ministro
A ausência de uma definição sobre quem será o ministro da Fazenda de Lula 4 aumenta o ruído fiscal. O nome do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), desponta como favorito, mas não houve até o momento convite feito, segundo apurou o UOL.
Um membro da atual equipe econômica do governo afirmou ao UOL que episódios como esse de Lara Resende só deixarão de causar ruído quando Lula indicar o seu ministro da Fazenda para o novo mandato. O presidente, contudo, não demonstra ter pressa na escolha.
A fonte lembra que Lula autorizou, na segunda-feira (26) após o segundo turno, os ministros Dario Durigan e Bruno Moretti (Planejamento e Orçamento) a elaborarem um cardápio de medidas para controlar o crescimento das despesas. Por isso, a fonte diz não acreditar que haverá "cavalo de pau" na condução econômica de Lula 4.
Contudo, enquanto não vier um sinal claro do presidente da República sobre quem será seu ministro da Fazenda, o ruído fiscal continuará.
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