As ações da construtora Tenda (TEND3) chegaram a desabar mais de 13% nesta quinta-feira (5) após a divulgação de um balanço do terceiro trimestre de 2026 considerado fraco pelos investidores.
A empresa reportou lucro líquido ajustado de R$ 106 milhões, 28% inferior à estimativa do mercado. Além disso, o consenso é de que o principal fator negativo do resultado foi a queda de 5,3 pontos percentuais na margem bruta ajustada do negócio de construção no local (on-site), que passou de 39,9% no segundo trimestre para 34,6% no terceiro trimestre.
Ainda assim, as casas mantiveram recomendação de compra para Tenda e enxergam potenciais de valorização de mais de 100% para a construtora.
Por volta das 11h34 (horário de Brasília), o papel TEND3 recuava 10,38%, cotado a R$ 17,70.
Descontos do Minha Casa, Minha Vida pesam no resultado
De acordo com o Bradesco BBI, o desempenho foi impactado por um mix de vendas mais concentrado na Faixa 1 do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida (MCMV). O maior volume de descontos concedidos no Rio de Janeiro e a redução estratégica da oferta de financiamento pro-soluto (sem intermediação de bancos) pós-entrega também pesaram negativamente. Para o banco, essa combinação evidencia dificuldades para sustentar a rentabilidade da companhia.
Outro ponto negativo foi o aumento dos cancelamentos, que somaram R$ 312 milhões no trimestre, em meio aos impactos da greve da Caixa Econômica Federal e às restrições de crédito. Apesar disso, a construtora manteve suas projeções para 2026, com guidance de lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebtida) ajustado entre R$ 1,1 bilhão e R$ 1,2 bilhão, além de registrar o 14º trimestre consecutivo de geração de caixa operacional positiva.
Em sua avaliação, o Bradesco BBI considera que os números reforçam os riscos para os próximos períodos. "Vemos os resultados do 3T26 como negativos para a Tenda, evidenciando riscos de baixa para as estimativas de 2027 devido à compressão de margens e desaceleração nas vendas", afirma o banco.
O BBI também considera que a decisão de reduzir o financiamento pro-soluto pós-entrega, embora positiva sob a perspectiva de risco de crédito, pode limitar o mercado potencial da construtora.
A estratégia de reduzir o pro-soluto pós-entrega, embora prudente do ponto de vista de crédito, restringe o mercado endereçável e deve manter a pressão sobre os papéis da construtora no curto prazo. Bradesco BBI em relatório.
O Bradesco BBI segue com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 49, com potencial de valorização de 148,1% em relação ao fechamento anterior.
Guidance de 2027 sob risco
A pressão sobre a rentabilidade refletiu uma combinação de fatores, segundo o Itaú BBA. Entre eles, a redução do financiamento pro-soluto pós-entrega, que passou de 10% para 7,1% do valor dos imóveis; o maior peso de unidades da Faixa 1 do Minha Casa, Minha Vida, que apresentam margens menores; descontos nos preços de imóveis vendidos no Rio de Janeiro; além da ausência de economias de custos reconhecidas no trimestre anterior e de provisões adicionais.
Resultado aumenta a preocupação com possível revisão para baixo das estimativas de lucro. Em uma análise de sensibilidade, o BBA calcula que uma redução da premissa de margem bruta on-site de 38,3% para aproximadamente 36% poderia levar a uma revisão negativa de 10% a 15% nas projeções de lucro para 2027.
Esperamos uma reação negativa do mercado na sessão de amanhã, em meio a preocupações com revisões para baixo dos lucros estimados para 2027. Itaú BBA.
Outro ponto de atenção foi a geração de caixa. Embora a Tenda tenha registrado fluxo de caixa livre (FCF) de R$ 45 milhões, acima dos R$ 25 milhões projetados pelo banco, o resultado foi beneficiado por R$ 30 milhões em recebimentos relacionados ao financiamento de fornecedores (risco sacado). Sem esse efeito, a geração de caixa livre teria sido de R$ 17 milhões. A dívida líquida encerrou o trimestre em R$ 302 milhões.
Apesar das pressões sobre as margens e do cenário mais desafiador para as vendas, o Itaú BBA manteve recomendação compra para as ações da Tenda, pelo desconto das ações. O BBA tem preço-alvo de R$ 58 para o ativo, com potencial de valorização de 193,7% em relação ao fechamento anterior.
Ainda assim, a instituição reconhece que o ambiente macroeconômico incerto, a inflação dos custos de construção e os efeitos de critérios mais restritivos para concessão de financiamento imobiliário exigem cautela. O banco também destaca que a revisão de seu modelo de avaliação ainda está pendente, diante das perspectivas de margens menores e de um ambiente mais difícil para as vendas.
Aumento do endividamento das famílias vira sinal amarelo
O Banco Safra avalia que os resultados da Tenda foram mais pressionados do que o esperado pela política mais restritiva de concessão de crédito da companhia no financiamento pro-soluto pós-entrega. Embora a estratégia já fosse conhecida pelo mercado, diante do endurecimento dos critérios de crédito da Caixa Econômica Federal (CEF), seus efeitos sobre os resultados e as margens das novas vendas foram mais intensos do que o previsto.
O impacto deve provocar revisões para baixo nas estimativas de lucro da construtora e reduzir o sentimento dos investidores em relação às ações. "A política mais restritiva de concessão de crédito da Tenda para o pro-soluto pós-entrega teve um impacto maior do que o esperado nos resultados e nas margens das novas vendas", afirma o banco.
Outro ponto de preocupação é a carteira de recebíveis da companhia nessa modalidade. Esse ativo soma aproximadamente R$ 2,3 bilhões, equivalente a 36% do total de recebíveis brutos. Na avaliação do Safra, o aumento do endividamento das famílias e a deterioração da qualidade do crédito podem exigir maiores provisões, ampliando os riscos de pressão sobre os lucros futuros.
Apesar dos desafios, o banco considera que a forte desvalorização recente das ações foi exagerada. Os papéis negociam a cerca de 3 vezes o lucro estimado para o fim de 2027, patamar considerado atrativo pela instituição.
TEND3 segue como compra para o Safra. Diante da avaliação de que a queda das ações foi excessiva e de que a companhia apresenta uma relação risco-retorno interessante nesse nível de preço, o Safra manteve recomendação compra para Tenda, com preço-alvo de R$ 46, um potencial de alta de 133% em relação ao fechamento da véspera (4).
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