A presidente do Grupo Santander, Ana Botín, diz confiar na independência do Banco Central do Brasil para executar a política monetária no governo Lula 4. "Não há nenhuma dúvida que a autoridade monetária vai continuar sendo independente, rigorosa. O Brasil é um país que tem instituições muito sólidas e que funcionam. Nesse sentido, é muito similar aos Estados Unidos, que tem um sistema com muitos 'pesos e contrapesos'", afirmou em conversa com jornalistas da América Latina em Madri, na Espanha.
Ela ressaltou que essa força das instituições traz vantagens e desvantagens para as democracias. Se por um lado restringe a margem de manobras dos governos, também dificulta a promoção de reformas quando elas se fazem necessárias. "Na Europa se passa o mesmo, pois somos 27 nações e precisamos entrar em acordo. Mas se você olhar para 10, 15 ou 20 anos atrás, hoje o Brasil está em uma posição muito melhor, tanto em relação ao resto do mundo, quanto ao seu próprio ponto de partida.
A CEO global do Santander comentou sobre o desafio que o Brasil enfrenta na questão das contas públicas e disse acreditar que este não é um problema isolado do país, mas um desafio global que demanda uma reavaliação da forma de arrecadação tributária dos Estados. "Essa é uma pauta que nenhum país abordou corretamente. Vivemos em uma economia digital, mas algumas estruturas são da era industrial. E isso tem muitíssimas consequências para impostos, onde você tributa e como tributa. Falta um contrato social que reflita que estamos em uma economia digital. E como sempre digo, os governos vêm sempre aos mesmos, incluindo o Santander, porque sabem onde estamos. Porque, não? Nossa carga tributária é de mais de 30%. E quando a OCDE sugeriu a taxa efetiva global mínima de 15% (sobre o lucro das multinacionais, para evitar evasão em paraísos fiscais), muitos países como os Estados Unidos disseram não. Creio que toda esta questão fiscal, questão de transparência, questão de concorrência, tem muitíssimo impacto no que está ocorrendo com os governos e com as demandas de gastos públicos."
Dentre os gastos que estão pressionando as contas públicas dos governos, Botín cita a Previdência pública, com o aumento da expectativa de vida e o envelhecimento populacional. "Cada país está em um momento diferente, mas é crucial que tenhamos a oportunidade de trabalhar mais anos. Não podemos manter todos os benefícios sociais se não ampliarmos o tempo de trabalho. A Espanha fez a sua reforma. Subimos para 67 anos. Mas há um país vizinho, não vou comentar qual, que a aposentadoria ainda é 60."
A vizinha França enfrenta uma grave crise fiscal, com uma dívida pública da ordem de 120% do PIB. O governo de Emmanuel Macron tenta implementar uma transição gradual para elevar a aposentadoria de 62 a 64 anos, mas o tema tem provocado uma grande crise política, com a candidata de extrema direita, Marie Le Pen, propondo retornar a idade mínima da aposentadoria para 60 anos.
*A colunista viajou a convite do Banco Santander
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