Matheus Montenegro, do Fluminense, foi um dos primeiros dirigentes a falar durante audiência pública para tratar de bets no STF. Para corações tricolores, foi um momento bastante triste.
A torcida teve que escutar o presidente dizer que, sem as bets, não há como sobreviver no futebol. Uma afirmação que não encontra respaldo na verdade mas apenas na sua própria incapacidade administrativa.
O Fluminense, segundo ele, vai ser impactado de forma quase fatal sem as apostas online. Preocupadíssimo com os clubes menores, Montenegro também se mostrou solidário à continuidade deles. Tentar outros patrocinadores, ele disse, é ter que se contentar com uma receita quase 50% menor do que aquela que as bets oferecem. Quem vive assim, Brasil?
É impossível se adequar [à ausência das bets], garantiu o dirigente.
Em sua manifestação ele fez terrorismo trabalhista sugerindo que, sem as bets, não tem como garantir empregos. "Teremos uma frustração muito grande de receitas".
Ora vejam só. Se os clubes terão essa enorme frustração, dane-se a miséria das famílias, minha gente. Vamos simplesmente voltar com as bets e acabar com essa frustração.
Montenegro tentou comover dizendo que, no mundo inteiro, a restrição às apostas levou em média 10 meses e que o Brasil fez isso em dez dias. Não falou nada sobre a irresponsabilidade de um gestor que, sabendo da ilegitimidade desse mercado e da sua vulnerabilidade, topou concentrar a receita inteira nas bets.
Falou também que as bets arrecadaram 11 bilhões para o governo em impostos e que o governo não disse como vai voltar a arrecadar esse dinheiro. Montenegro acha que somos burros, certamente. O que a proibição das bets economiza em gastos com saúde ultrapassa com facilidade esses 11 bilhões.
E o melhor ficou para o final. Sim, disse Montenegro, tem o drama das famílias endividadas, mas e o drama do desemprego que virá com o final das bets?
Trata-se de uma ameaça, obviamente. Primeiro: o mercado das bets quase não gera empregos. Então, naturalmente, ele não estava falando desse mercado.
O que ele estava dizendo era, na real, uma ameaça: sem as bets, o futebol vai ser obrigado a demitir em massa. Vejam só que drama. Os super gestor não tem um plano alternativo e terá que colocar o trabalhador na rua em vez de vender jogadores.
Na sequência, o representante do Botafogo achou que comoveria muita gente dizendo que o Botafogo nunca tinha tido um patrocinador tão bom como as bets e ameaçou o futebol feminino: sem bets, é ele que vai pagar a conta sugeriu o dirigente.
O Botafogo conta com um plano de recuperação judicial e as bets ajudariam o Fogão a sair dessa situação, disse ele. O que ele não disse: que a situação de calamidade administrativa foi criada pelos mesmos homens que agora choram pelo dinheiro das bets.
Ô mô deuso: coitado do Botafogo. A mãe de família que perdeu o filho endividado com as casas de apostas que se dane.
O representante do Flamengo, o primeiro a falar, celebrou a responsabilidade fiscal adotada pelo clube (viva a austeridade) e limitou seu prato a dizer que precisa do dinheiro das bets para seguir honrando seus contratos: são 1200 empregados que estarão em risco, ameaçou.
Tudo foi meticulosamente planejado pelo Mengão depois da regulação das apostas e agora, só porque tem gente morrendo e indo morar na rua, eu tenho que desonrar contratos? Como assim?
O Corinthians também usou a cartada do sofrimento que a ausência das bets gerará para o futebol feminino. Outra vez, vimos a ameaça ao futebol feminino numa tentativa tosca de sensibilizar a opinião pública já que ano que vem sediaremos uma Copa do Mundo.
Os clubes não entenderam nada porque as comissões que os dirigentes recebem dependem do fato de eles não entenderam nada. O mimimi dos dirigentes hoje no STF se limitou ao pranto pelo dinheiro perdido. Precisam das bets para sobreviver, dizem eles se esquecendo de falar que quem precisa sobreviver são os brasileiros e as brasileiras.
Usaram o futebol feminino para tentar sensibilizar a audiência alegando que sem as bets é ele que vai sofrer (é sempre ele que sofre nas primeiras crises, e sabemos que as crises no futebol são corriqueiras e causadas por esses mesmos dirigentes há anos). Trata-se de uma ameaça covarde impregnada de machismo e de misoginia. Depois ainda tentaram outro drama: disseram que sem as bets o futebol argentino vai superar o brasileiro.
A população brasileira está dizendo em alto e bom som: que os clubes vendam os jogadores, que vendam as sedes, que vendam o que tiverem que vender para colaborar com uma sociedade sem as mortes e a miséria causadas pelas casas de apostas.
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