Texto de Beatriz Della Costa, fundadora e codiretora da CLARICE, coautora do livro Feminismo em Disputa.
Quando começamos a pesquisa Mulheres & Bets, quase tudo que se dizia sobre as bets vinha em número de mercado: arrecadação, patrocínio, receita dos clubes, quanto o setor movimentava. O apostador aparecia como um número médio, e a família dele não aparecia. Foi com essa inquietação que a CLARICE, estúdio de inteligência e imaginação sobre mulheres e poder, decidiu ouvir as mulheres. Em julho deste ano, depois de um ano e meio de mercado regulado, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, fizemos mais de 2 mil entrevistas em todo o país e 60 conversas em profundidade com mulheres das classes C, D e E.
O que elas contaram era outra coisa. A aposta não ficava no celular de quem jogava; entrava na casa. Quatro em cada dez brasileiras já apostaram, e a maioria não jogava para enriquecer, mas para completar a renda: a conta de luz, o material escolar, o bolo de aniversário do filho. Quando perdiam, o dinheiro faltava no mesmo lugar, dentro de casa. "Às vezes não tem um grão de comida dentro de casa porque a pessoa jogou", contou uma mulher de 24 anos, na Bahia. E quem não apostava também pagava: entre as mulheres que convivem com alguém que joga, 14% deixaram de pagar contas, uma em cada quatro relata brigas e perda de confiança, e 23% dos brasileiros conhecem ou presenciaram uma situação em que a aposta contribuiu para violência na família. Entre as que quiseram pedir ajuda para parar e não pediram, 65% dizem que foi por vergonha.
A pesquisa não mudou a opinião pública. Mas deu nome ao que muita gente já vivia em casa, e isso apareceu nos números seguintes. Em julho, 62% das mulheres apoiavam a proibição das casas de apostas, contra 50% dos homens. Em outubro, já com a medida provisória em vigor, o Datafolha mediu 78% de apoio à proibição em todo o país, 13 pontos acima de novembro de 2024. A pauta deixou os cadernos de economia e passou a ser discutida como o que é: uma questão de família, de saúde mental e de proteção de crianças e adolescentes.
O argumento econômico deve ser ouvido. Inteiro. Os clubes da Série A receberam cerca de R$ 1 bilhão em patrocínio das bets em 2025, o equivalente a 7% das suas receitas. No mesmo ano, os apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O que o futebol recebeu corresponde a menos de 3% do que as famílias deixaram lá.
A arrecadação de impostos também costuma figurar entre os benefícios das bets. Mas quanto desse dinheiro volta para enfrentar o problema que as próprias apostas criam? Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), o setor arrecadou R$ 6,8 bilhões em tributos e destinações federais entre fevereiro e setembro de 2025. A lei reserva ao Ministério da Saúde 1% da parcela destinada às políticas públicas. Até agosto, haviam chegado à Saúde cerca de R$ 33 milhões. O mesmo instituto estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano os custos de saúde associados aos jogos e às apostas. Essa conta é paga pelo SUS e pelas famílias.
É esse o outro lado da conta que não está na lista de expositores. A própria Advocacia-Geral da União reconheceu, ao pedir a ampliação da audiência, que a composição atual é predominantemente composta por entidades esportivas e operadoras, e solicitou a inclusão de organizações como o Idec, o Dieese e a CNBB. Trinta e nove entidades da sociedade civil, entre elas a CLARICE, escreveram ao ministro Luiz Fux pedindo representação equânime de todas as perspectivas afetadas pela MP. Até agora, a lista foi ampliada uma vez, para incluir o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte.
Uma audiência pública serve para instruir uma decisão. Quando ela escuta só quem perde receita com a proibição, a pergunta é simples: a serviço de que ela está? Uma escuta parcial interessa a quem prefere que essa conta permaneça invisível. Quem paga por ela já pagou antes: a mãe que paga a dívida do filho e a adolescente que, nas nossas entrevistas, apostava com o CPF de um adulto sem que nenhuma plataforma a impedisse. As histórias dessas famílias precisam ter o mesmo peso que os balanços dos clubes e as projeções das empresas.
Uma audiência responsável começa pela escuta de quem vive o problema, e começa agora, não depois da decisão. A medida provisória segue para o Congresso Nacional, onde esse debate deve ser feito por inteiro, com tempo e dados. Até lá, ela precisa ser mantida. Suspender a proibição antes de ouvir as famílias seria decidir primeiro e escutar depois.
As mulheres brasileiras já estão agindo. Nas entrevistas, elas contaram que confrontam, negociam dívida, tomam o celular de quem joga, procuram a igreja, dormem na porta do quarto dos filhos. Quando perguntadas, dizem com clareza o que querem. A terça-feira vai mostrar se as instituições estão dispostas a ouvi-las. O Brasil ganha muito quando escuta todos os lados. Perde muito quando escuta só um.
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