"Minha profissão tem mais a ver com 'CSI' [série policial sobre perícia forense] do que com os filmes do Indiana Jones", diz Astolfo Araújo, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo.
Ele usa a obra fictícia para mostrar como o trabalho real é diferente daquele retratado no cinema. Dirigida por Steven Spielberg, a franquia acompanha um arqueólogo que percorre o mundo em busca de artefatos históricos e relíquias de ouro, enquanto enfrenta criminosos e armadilhas.
Para descrever sua rotina, porém, ele prefere outra comparação: a série americana "CSI", centrada no trabalho de peritos que analisam vestígios para reconstruir acontecimentos.
Guardadas as devidas proporções, o entusiasmo diante de uma descoberta é semelhante ao retratado nos filmes estrelados por Harrison Ford, embora no Brasil os arqueólogos não encontrem artefatos de ouro ou relíquias místicas como as mostradas no cinema.
O trabalho é investigar como viviam as sociedades do passado com base nas evidências materiais que elas deixaram para trás, como objetos, construções, ferramentas e até marcas no solo.
"Arqueologia é de humanas ou de exatas? Vejo como um trabalho multidisciplinar porque combina conhecimentos de diferentes áreas para interpretar vestígios do passado", diz. Além de história e antropologia, pode recorrer à geologia, biologia, química, geografia e estatística.
O trabalho combina atividades de campo e de laboratório. Segundo ele, a proporção mais comum é de cerca de um mês no laboratório para cada semana em campo.
Sobre o mercado de trabalho, Astolfo diz que a maioria dos profissionais atua em empresas de consultoria ambiental. Elas são contratadas para avaliar os impactos de obras, como rodovias, usinas e loteamentos, antes ou durante o licenciamento.
Nesse processo, o trabalho é verificar se há sítios ou vestígios na área e propõe medidas para protegê-los, monitorá-los ou resgatá-los antes do início da construção.
A remuneração média de um arqueólogo no estado de São Paulo é de R$ 3.500 segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Os salários, porém, podem ser maiores em regiões onde há menor oferta de profissionais e maior demanda por esse tipo de serviço.
Há dois caminhos mais comuns para trabalhar nessa área: cursar a graduação ou fazer uma pós-graduação após outra formação. No estado de São Paulo, porém, como não há curso público de graduação em arqueologia, a segunda opção é mais frequente.
O único bacharelado presencial é oferecido pela Universidade Metropolitana de Santos. O curso dura oito semestres e foi reconhecido pelo Ministério da Educação em 2021 com nota máxima.
Para o professor, os cursos mais indicados são geografia, geologia e gestão ambiental, porque oferecem conhecimentos úteis para analisar o território, o solo, as paisagens e os impactos de obras sobre áreas com possível interesse arqueológico.
História e antropologia podem servir como ponto de partida, mas não oferecem, por si só, toda a formação técnica exigida para atuar como arqueólogo. Quem segue esse caminho precisa se especializar em arqueologia na pós-graduação.
Segundo Astolfo, isso ocorre porque o trabalho inclui técnicas específicas de escavação, registro de sítios, análise de materiais, conservação e trabalho de laboratório que geralmente não são aprofundadas nesses cursos.
Outro equívoco comum é achar que arqueólogos procuram ossos de dinossauros. Esse trabalho pertence à paleontologia, que estuda fósseis e formas de vida do passado. A arqueologia investiga sociedades humanas a partir de vestígios como ferramentas, cerâmicas, construções e restos de alimentação.
A profissão exige paciência, porque a identificação e a análise de vestígios são minuciosas e podem levar semanas ou meses até que os pesquisadores consigam interpretar o que foi encontrado.
Que trampo é esse?
Série de reportagens do Folhateen sobre profissões
Para fotógrafo de guerra, profissão exige tomada de riscos por conta própria
O que mais fascina Astolfo na arqueologia é a possibilidade de revelar aspectos desconhecidos da história. Como grande parte da trajetória humana ocorreu antes do surgimento dos registros escritos, são os vestígios materiais que ajudam a reconstruir esse passado.
Esta reportagem é o segundo episódio da série "Que trampo é esse?", do Folhateen, que mostra em vídeos e textos a rotina de profissionais de áreas concorridas e de ocupações menos convencionais.
A proposta é apresentar aos jovens diferentes caminhos no mercado de trabalho, com histórias de quem atua na área, informações de serviço e um panorama sobre cada profissão.
Nos próximos episódios, a série vai acompanhar outros profissionais para explicar o caminho das pedras de cada trabalho: como começar, quais habilidades são necessárias, que erros marcaram a trajetória, o que fariam diferente se tivessem que recomeçar e o que ainda faz seus olhos brilharem na profissão.
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