A dívida pública brasileira não para de crescer. Nos últimos dez anos, saltou de 41,4% do PIB (Produto Interno Bruto) para os atuais 67,9%, segundo dados do Banco Central referentes à dívida líquida.
Há um ano, a proporção estava em 61,7% do PIB, o que representa um avanço de 6,2 pontos percentuais.
É natural, então, que o investidor se pergunte: o Tesouro Direto se tornou um investimento arriscado? Afinal, investir em títulos públicos nada mais é do que emprestar seu dinheiro ao governo.
Na coluna de hoje, explico por que a resposta curta a essa pergunta é "não" e descrevo o motivo de haver tanto barulho (a meu ver, alarmismo) em torno do assunto recentemente.
O risco do Tesouro aumentou?
Direto ao ponto: não, o risco de calote do Tesouro Direto não aumentou. E é fundamental esclarecer logo de início que estou me referindo ao chamado risco de crédito, ou seja, a chance de você emprestar R$ 1.000 ao governo e ele simplesmente não lhe devolver o dinheiro no vencimento com os juros previstos.
(O risco de marcação a mercado, que se refere à oscilação do preço dos títulos no meio do caminho, é outro assunto. Não é disso que estou falando hoje.)
Tratando exclusivamente do risco de calote, não há qualquer motivo de preocupação para quem aplica no Tesouro e pode aguardar até a data de vencimento. Como é o governo que emite a moeda em que a dívida está contratada (o real), em última instância, ele pode criar dinheiro para honrar os seus compromissos. Por isso, tecnicamente, o risco de crédito do Tesouro de um país, em uma dívida em moeda local, é praticamente nulo.
Não era óbvio que o risco do Tesouro era virtualmente zero?
Confesso que achei que o fato de o Tesouro praticamente não ter risco fosse um ponto pacífico entre especialistas e que nem precisaria abordar esse assunto aqui.
Mas, nas últimas semanas, tenho visto uma onda de influenciadores nas redes sociais alardeando que o governo estaria com sérias dificuldades para "rolar" a sua dívida, ou seja, tomar dinheiro emprestado para pagar os credores.
(Para quem é novo no assunto, pode parecer absurdo que um governo tome dinheiro emprestado para pagar seus credores, mas essa prática é a regra em praticamente todos os países.)
O meu sinal amarelo acendeu de vez quando vi um economista que respeito afirmando no YouTube que "deu ruim no Tesouro Direto", fortalecendo o coro dos que assustam desnecessariamente os investidores. Há apenas um detalhe: essa tese nem sequer faz sentido econômico, e explico por quê.
O governo está com dificuldade de rolar a dívida?
Quem defende a tese do "deu ruim" costuma apontar para os leilões do Tesouro Nacional (eventos em que o governo emite títulos, ou seja, toma dinheiro emprestado) que tiveram adesão abaixo da esperada, interpretando isso como um sinal claro de que os grandes investidores não confiam mais no governo.
A ideia seria a de que o mercado estaria exigindo juros cada vez mais altos porque aumentou o risco de não receber o dinheiro de volta.
Se isso fosse verdade, então por que os títulos de prazo mais longo estão com taxas de rentabilidade menores do que os de curto prazo? Em qualquer investimento, os prazos mais longos embutem um risco maior.
Mas o que ocorre com o Tesouro é o inverso. O título Tesouro IPCA com vencimento em 2032 está rendendo a inflação mais 8,26%, enquanto o papel que vence in 2050 paga a inflação mais 7,59%.
Quer dizer que um empréstimo de seis anos está mais arriscado que um de 24 anos? O governo não terá dinheiro in 2032, mas terá in 2050?
Se essa tese absurda fosse verdadeira, ao menos os títulos de longo prazo que pagam juros semestrais estariam com taxas mais altas. Afinal, eles dariam calote nos diversos pagamentos previstos para os próximos anos. Mas isso não acontece. Mesmo entre os papéis com remuneração semestral, os títulos mais longos estão com taxas menores.
O que explica as taxas cada vez mais altas?
Se não é medo de calote, por que as taxas do Tesouro Direto subiram tanto nos últimos meses?
A explicação é muito mais simples (e menos dramática): a expectativa dos investidores para a taxa básica de juros, a Selic. O mercado financeiro revisou suas projeções e passou a acreditar que o Banco Central terá de manter a Selic em níveis elevados por mais tempo para conter as pressões inflacionárias e fiscais.
Por preferirem juros altos por longo período, os investidores só vão investir no Tesouro se receberem um retorno compatível. Se uma pessoa acredita que os juros reais estarão em 8,26% daqui a seis anos, por que ela investiria em um título público que pagasse menos do que isso?
Ou seja, a alta taxa de rentabilidade oferecida pelos títulos do Tesouro Direto atualmente nada tem a ver com risco de calote.
Então a alta da dívida não é um problema?
Não é bem assim. Dizer que o risco de calote é nulo não significa que a dívida pública possa crescer indefinidamente sem causar prejuízos ao país e, portanto, à sua vida financeira.
Se o endividamento continuar subindo sem controle e o governo eventualmente precisar recorrer a expedientes equivalentes à emissão exagerada de moeda para quitar compromissos, a consequência direta tende a ser a desvalorização do real em relação às moedas fortes.
Ainda assim, não custa afirmar, esse fato isoladamente — a emissão exagerada de dinheiro — pode não ser suficiente para uma desvalorização do real, se outros fatores caminharem na direção oposta.
As maiores economias do mundo estão altamente endividadas. Se nos outros países a dívida crescer em ritmo semelhante ou superior à do Brasil, é possível até haver uma valorização do real em comparação com outras moedas.
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