O preço do petróleo Brent no contrato para dezembro ultrapassou US$ 117 por barril nesta sexta-feira (23), com alta superior a 3%, atingindo o maior patamar desde abril. A valorização reflete o temor de novos ataques no Oriente Médio e de interrupções no abastecimento, em meio à escalada das tensões envolvendo Estados Unidos, Irã e Arábia Saudita.
O avanço dos preços aumenta a preocupação com a inflação mundial, já pressionada pelos custos de energia. Para o Brasil, o risco é que o encarecimento do petróleo chegue aos combustíveis e ao transporte de mercadorias, embora esse repasse não seja automático.
O que aconteceu
Tensão na Arábia Saudita impulsionou os preços. Bruno Cordeiro, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, associa a valorização à possibilidade de novos ataques dos houthis, grupo do Iêmen aliado do Irã. A estatal Saudi Aramco orientou funcionários a deixar sua sede em Dhahran e trabalhar remotamente, enquanto os Estados Unidos determinaram a saída de pessoal não essencial do país.
Rotas de transporte de petróleo também estão ameaçadas. Segundo Cordeiro, a escalada aumenta os riscos no estreito de Bab el-Mandeb, passagem utilizada como alternativa diante das restrições ao escoamento pelo estreito de Ormuz. Interrupções nessas rotas poderiam dificultar as exportações de petróleo da região.
O mercado precifica a possibilidade de redução das exportações de petróleo do Oriente Médio em meio à escalada das tensões entre a Arábia Saudita e os houthis. Bruno Cordeiro, analista da StoneX
Possibilidade de novos ataques ao Irã também preocupa. O presidente americano, Donald Trump, afirmou nesta semana que os Estados Unidos não estavam negociando com Teerã e que algo aconteceria em breve. Cordeiro também citou informações sobre um possível plano americano e israelense de retomar ataques após as eleições legislativas dos Estados Unidos, em novembro. Não há confirmação de que a operação será realizada.
Incidentes com embarcações aumentaram a incerteza. Segundo a Reuters, autoridades identificaram um vazamento de petróleo de um navio na costa dos Emirados Árabes Unidos, sem informar a causa ou identificar a embarcação. Cordeiro também destacou relatos de ataques a navios no Golfo Pérsico, alguns atribuídos ao Irã.
Risco de falta de petróleo encarece o barril. A possibilidade de interrupção das exportações leva compradores e investidores a pagar mais pela commodity, mesmo antes de uma redução efetiva da oferta. Esse custo adicional é conhecido como prêmio geopolítico.
UBS vê mercado vulnerável a novos choques. Em relatório divulgado nesta sexta-feira, Mark Haefele, diretor global de investimentos do banco, e equipe destacaram que o abastecimento continua pressionado, aumentando a sensibilidade dos preços a novos episódios de instabilidade.
Reconhecemos que o mercado físico de petróleo continua apertado e vulnerável a novos choques de oferta. UBS, em relatório
Como a alta pode afetar o Brasil
Combustíveis podem ficar mais caros, mas repasse não é imediato. Jackson Campos, especialista em Comércio Exterior, explica que o preço internacional do petróleo é apenas um dos fatores considerados na formação dos preços da gasolina e do diesel. O câmbio, os custos de transporte e as condições de contratação também influenciam o valor final.
O preço internacional é uma parte da conta, junto com câmbio, frete e condições de contratação. Por isso, não se pode converter a cotação do barril em reajuste automático nas bombas. Jackson Campos, especialista em Comércio Exterior
Diesel mais caro pode pressionar a inflação. Segundo Campos, se a valorização persistir e chegar ao combustível adquirido pelas transportadoras, o aumento dos custos poderá ser repassado gradualmente aos preços de produtos e serviços, afetando o orçamento das famílias.
Juros elevados ampliam a preocupação internacional. Em comentário divulgado antes de o Brent superar US$ 117, a Monte Bravo alertou que a combinação de energia mais cara e taxas de juros globais elevadas aumenta os riscos para a inflação e os investimentos considerados mais arriscados.
Petróleo em US$ 115 e juros globais elevados aumentam os riscos para inflação e ativos de risco. Monte Bravo
UBS espera alívio dos preços no próximo ano. Apesar das tensões imediatas, o banco considera que a recuperação gradual da produção, a adaptação das rotas de transporte e a liberação de estoques emergenciais podem ajudar a reduzir a pressão sobre o mercado.
Nosso cenário-base é que uma recuperação gradual dos fluxos de energia e da produção permita uma moderação dos preços do petróleo no próximo ano. UBS, em relatório
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