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UOL Economia há 15 d • Ter, 13 Out 2026 11:31:06 -0300

O Nobel de Economia e a esperança como elixir

O Nobel de Economia e a esperança como elixir

O Prêmio Nobel laureou dois economistas dos Estados Unidos, Michael Woodford, da Universidade de Columbia, e Robert E. Hall, de Stanford. O chamado novo-keynesianismo mostra que expectativas importam e que a formulação das políticas macroeconômicas depende do sentimento das famílias e das empresas.

A "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda" (1936), de John Maynard Keynes, o responsável pela Macroeconomia, como a conhecemos e com a qual trabalhamos hoje, já ensinava o princípio da demanda efetiva. Segundo ele, as famílias consomem e as empresas investem se há perspectiva de aumento de renda e se acreditam na prosperidade. O oposto é verdadeiro.

Então, nos momentos de crise ou de crescimento, de pessimismo ou de esperança, as decisões de política econômica têm efeitos distintos. A contribuição dos economistas premiados está, precisamente, em formalizar modelos matemáticos que combinam a atuação dos governos e dos bancos centrais, as expectativas das famílias e das empresas e a forma como os preços se formam.

De certo modo, o modelo de metas à inflação, inclusive nos moldes adotados pelo Brasil, desde 1999, bebeu desse desenvolvimento teórico. Seu aprimoramento, ao incorporar o chamado "forward guidance" - tentativa de sinalizar aos agentes econômicos os próximos passos das decisões de política monetária - , também deriva daí.

As discussões e avanços teóricos são fascinantes, porque ensejam reflexão constante sobre o desenho ótimo de política econômica. Não existe caminho único para a prosperidade, mas, sim, possibilidades dadas pelas características de cada país, pela cultura, pelo comportamento das pessoas, pelas expectativas e pelo estágio em que cada economia se encontra.

O Brasil possui, hoje, uma boa combinação de indicadores. Crescimento médio elevado, que deverá ficar em 2,7% nos quatro anos encerrados em 2026. Trata-se da taxa mais alta desde os oito anos dos primeiros mandatos do presidente Lula. Inflação mais baixa da série em quatro anos, desemprego de pouco mais de 5% e contas externas equilibradas. Ademais, há reservas internacionais acima do nível necessário para proteger o país de choques externos mais bravos.

Nem sempre foi assim. O Brasil já foi classificado na categoria dos chamados "serial defaulters" ou caloteiros contumazes, se preferir. Faz tempo que conseguimos superar essa condição. Por outro lado, remanesce o desafio de colocar em ordem as contas do país. A dívida pública é elevada, os juros são altos e, sob essas duas características, drena-se volume impressionante de recursos que poderiam sustentar um desenvolvimento mais perene e mais intenso.

O tal otimismo de ocasião que floresceu na semana passada, após o resultado do primeiro turno das eleições, mostrou o tamanho da capa de gordura na curva de juros do país. Ora, se a precificação de juros mergulhou, sem entrar no mérito das motivações, da noite para o dia, vê-se aí uma demonstração de como as expectativas são fundamentais.

O jogo da economia é complexo. Ele é, simultaneamente, definido por decisões de política econômica, expectativas das famílias e dos empresários, ambiente externo e qualidade das instituições. A crença de que o futuro será bom é um componente central, vale dizer.

Nesse sentido, coloca-se o desafio da política econômica. A economia desacelera, desde meados de 2025, os indicadores de inflação estão pressionados por fatores atípicos (e não por pressões de demanda) e as expectativas de mercado flutuam em meio a esse quadro.

O ajuste fiscal tem o condão de melhorar as perspectivas sobre o futuro. Não se trata de promover "tesouraço" ou coisa que o valha. O Brasil não é dado a esse tipo de providência; nunca foi. Por outro lado, já provamos, entre 1999 e 2010, que somos capazes de produzir superávit nas contas a partir de regras claras e da perseguição de um objetivo, para o gasto público, condizente com a capacidade de geração de renda e riqueza.

É disso que se trata. Tenho defendido, junto com o economista Josué Pellegrini, um plano de recuperação gradual das contas públicas. O plano, sim, é gradual, mas o anúncio e a aprovação das medidas, não. Isto é, deve-se, a nosso ver, conceber um programa de ajuste completo, negociado democraticamente com o Congresso, que preserve a responsabilidade social, mas fortaleça a responsabilidade fiscal.

Se o risco de cresceremos perto de 1%, no ano que vem, já está posto, para aonde iriam as projeções de PIB se um ajuste brutal fosse providenciado em 2027? Evidentemente que não se deve ir por aí. O caminho é buscar o que já está na proposta das diretrizes orçamentárias submetida pelo Executivo ao Congresso. O cumprimento daquela trajetória de resultados primários (receitas menos despesas sem contar juros) seria suficiente para ajustar as contas públicas.

As expectativas reagiriam a uma decisão clara e rápida de consolidação fiscal. Os ganhos seriam sentidos de imediato, seja pelo otimismo do mercado seja pela criação de um ambiente propício ao investimento e ao consumo, mas com menor carga financeira no lombo de quem produz e trabalha.

As aplicações dos desenvolvimentos teóricos de Woodford e Hall vão além da sofisticação do modelo decisório do Banco Central. O elixir da economia é a esperança. Mas a crença em dias melhores depende da credibilidade das lideranças e de suas escolhas de política econômica. A clareza de diagnóstico, a humildade para corrigir rotas e a sinalização de que é possível avançar são os elementos para evitar grande encalacrada no ano que vem.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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