A Black Friday de 2026, que será no dia 27 de novembro, se aproxima com duas grandes mudanças de mercado no radar: as bets foram proibidas e a taxa das blusinhas caiu. Representantes de associações comerciais afirmam que as medidas trarão diferentes impactos positivos e negativos à data de promoções, que se consagrou nos últimos anos como uma das mais importantes para as vendas no Brasil.
Neste ano, 62% dos consumidores brasileiros planejam gastar na data, mas 75% exigem preços baixos e frete grátis para comprar, segundo um estudo feito pelo Opinion Box e pela Dito, que entrevistou 1.003 pessoas. Outro levantamento, feito pela LWSA com 1.044 consumidores, mostra que 44% planejam gastar mais de mil reais nesta edição da Black Friday, sendo os eletrônicos (50%), eletrodomésticos (44%) e roupas (41%) os produtos mais procurados.
Para o varejo, a expectativa para este ano é de piora: o IEMI (Inteligência de Mercado) estima que o setor terá uma queda de 5,8% no volume de vendas e um recuo de 2,5% no faturamento nesta Black Friday, em comparação à de 2025.
Marcelo Prado, diretor do IEMI, explica que a data continua forte na venda de bens duráveis, como móveis e eletrônicos, mas perde espaço para itens de uso pessoal, como roupas e perfumes, que vendem mais no Natal.
Medidas que mexem com os gastos do consumidor
Medidas como o fim da "taxa das blusinhas" e a proibição das bets impactam diretamente dois dos principais fatores que influenciam a decisão de comprar ou não: o preço (taxa das blusinhas) e o poder de compra (apostas).
Marcelo Prado, diretor do IEMI, afirma que o fim das bets deve ajudar as famílias de média e baixa renda a pagarem dívidas atrasadas, o que alivia o orçamento doméstico e estimula o consumo na Black Friday, ainda que de maneira lenta no curto prazo. Ele diz que o cenário ainda é incerto. O endividamento e os juros altos no país limitam o consumo das famílias na Black, mas a proibição pode suavizar a queda do faturamento para algo entre 1,5% e 2%, a depender de quanto as famílias direcionarão para as compras.
Edmundo Lima, diretor-executivo da ABVTEX, aponta que a falta de taxação sobre produtos importados desvia recursos do comércio local para plataformas estrangeiras. Para tentar salvar as vendas da Black Friday e do fim de ano, a associação tenta negociar a revisão desses impostos com o Ministério da Fazenda.
Ele vê a proibição dos jogos como positiva, mas alerta que a falta de fiscalização pode fazer as pessoas migrarem para plataformas ilegais, o que pode anular os avanços.
Lima diz que ainda é cedo para saber se a restrição às apostas levará as pessoas a aumentarem o consumo na Black Friday, já que há contas atrasadas para pagar. Ele defende que garantir igualdade de impostos com concorrentes estrangeiros é o caminho mais rápido para recuperar o setor a tempo da data comercial.
"Taxa das blusinhas"
Em maio deste ano, o presidente Lula assinou uma MP (Medida Provisória) que suspendia temporariamente o imposto federal de 20% sobre importações individuais de até US$ 50, popularmente conhecido como "taxa das blusinhas". Após aprovação do Congresso Nacional, a isenção tornou-se definitiva em 10 de setembro. Apesar do apelido, o imposto não atingia só roupas, mas todas as compras internacionais nessa faixa de preço.
A tarifa foi criada em 2024 pelo próprio governo federal para atender pedidos da indústria brasileira, que até hoje diz enfrentar concorrência desleal de plataformas estrangeiras de e-commerce, como Shein e Shopee. Produtores nacionais afirmam que, muitas vezes, empresas de fora cobram valores muito baixos e têm tributos bem menores nos países de origem, o que cria uma vantagem injusta e sufoca a atividade brasileira.
O imposto enfrentou forte desaprovação popular, e o fim dele foi comemorado por 73% dos brasileiros, segundo uma pesquisa BTG/Nexus. Ao encerrar a cobrança, o governo do Brasil disse que o desequilíbrio com concorrentes de fora já havia sido solucionado. A CNI (Confederação Nacional da Indústria), no entanto, estima que a mudança arrisca 109 mil empregos e a geração de R$ 21,8 bilhões à produção neste ano.
Com a isenção da taxa, importações de até US$ 50 quase dobraram. Segundo a ABVTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), houve alta de 118% em junho, 78,2% em julho e 74,3% em agosto de 2026 em comparação ao mesmo período do ano passado, quando ainda havia cobrança. Segundo a associação, isso acontece porque 80% do que o varejo brasileiro vende é nacional e 90% custa menos de US$ 50. Nessa faixa de preço, a imensa maioria dos produtos são roupas.
A ABVTEX destaca que, entre 2025 e 2026, as vendas no setor de moda recuaram até 3,6% e o comércio perdeu 63.417 empregos formais.
"Tigrinho" e apostas esportivas
Em 25 de setembro, o governo federal editou uma MP que proíbe temporariamente as apostas online em todo o país. As justificativas foram os problemas financeiros e a crise de saúde pública que o vício em jogos gerou ao Brasil.
As bets se tornaram o maior motor do endividamento, segundo o Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo). Em setembro, 81,7% das famílias estavam endividadas, de acordo com a CNC (Confederação Nacional do Comércio). O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima que os jogos tenham custado R$ 30,6 bilhões por ano ao SUS, com gastos associados a suicídio, depressão e tratamentos médicos.
Um estudo de Guilherme Klein, economista que integra o Made-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades), estima que as apostas retiraram até R$ 141 bilhões de outros setores da economia em 2025, encolhendo o PIB em até 1,1%. O levantamento aponta que a transferência de dinheiros das famílias para as bets foi de R$ 62,5 bilhões, que poderiam ter sido destinados ao consumo.
Nos três dias após a proibição das bets, o volume de transações com Pix caiu cerca de 10%, segundo o Banco Central.
As plataformas de jogos de azar foram permitidas no país em 2018. Desde então, elas operaram sem regras nem impostos definidos, o que levou o governo atual a promover uma regularização do setor, que se deu em 2023. Para que a recente proibição siga valendo, o Congresso Nacional precisa aprová-la até fevereiro de 2027. Caso contrário, perde efeito e as bets voltam.
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