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UOL Economia há 18 d • Dom, 11 Out 2026 05:30:00 -0300

Starlink desacelera no Brasil, mas avanço sobre telefonia "acende alerta"

Starlink desacelera no Brasil, mas avanço sobre telefonia "acende alerta"

A Starlink, empresa de internet por satélite de Elon Musk, o homem mais rico do mundo, fez do Brasil seu segundo maior mercado. Agora, mesmo perdendo velocidade na conquista de novos clientes no país, começa a despertar uma dúvida entre investidores: até onde pode avançar sobre o negócio de Vivo, TIM e Claro?

A discussão ganhou força depois que a SpaceX, dona da Starlink, anunciou, na última quinta-feira (8), uma nova compra de frequências nos Estados Unidos. O movimento reforça os planos da companhia de levar a conexão dos satélites diretamente aos celulares e, eventualmente, combiná-la com infraestrutura em terra.

Após o anúncio, as ações das grandes operadoras americanas recuaram. No pregão seguinte, Vivo e TIM também registraram queda no Brasil.

A possibilidade de entrar no mercado de telefonia móvel surge justamente quando o negócio que tornou a Starlink conhecida perde ritmo no Brasil. Depois de crescer rapidamente com a internet por satélite, a companhia passou a adicionar clientes em velocidade menor. Nas grandes cidades, enfrenta obstáculos físicos, como prédios e paredes, limitações de capacidade e uma concorrente difícil de bater: a fibra óptica.

A desaceleração, porém, está longe de tirar a Starlink das conversas do setor. "Praticamente todos os investidores hoje com quem eu converso sobre empresas de telecomunicação me perguntam sobre Starlink", afirma Leonardo Olmos, analista de telecomunicações e tecnologia do UBS para a América Latina.

A Starlink no Brasil

Em janeiro, a companhia anunciou ter superado 1 milhão de assinantes ativos no Brasil. Pelos registros da Anatel, que adota outra metodologia, eram 871 mil acessos em julho.

Os números mostram uma expansão mais lenta. Depois do pico de 54 mil novos acessos em dezembro de 2025, a média mensal caiu para 33 mil no primeiro trimestre de 2026 e se recuperou para 44 mil no segundo. Em julho, último dado disponível, foram 35 mil, cerca de 35% abaixo do pico e 20% menos que a média do trimestre anterior.

A Starlink continua ganhando clientes, mas sem repetir o ritmo do fim do ano passado. A oscilação ocorre depois de cortes de preços e de maior divulgação do serviço.

O principal obstáculo é a capacidade da rede. Analistas apontam que a companhia ainda não consegue atender a um grande número de usuários concentrados em uma mesma região sem comprometer a qualidade da conexão. Enquanto encontrou espaço para crescer em áreas menos povoadas, enfrenta mais dificuldades nas cidades, onde há maior concentração de pessoas e uma oferta consolidada de internet por fibra óptica.

A empresa, por outro lado, conta com uma vantagem que ultrapassa as fronteiras de cada mercado: seus satélites circulam sobre diferentes países, independentemente do número de clientes em cada um deles.

O mesmo satélite pode atender consumidores nos Estados Unidos e oferecer capacidade de conexão ao passar sobre o México ou o Brasil. Onde há capacidade disponível, a companhia pode cobrar menos para atrair clientes, desde que isso não provoque congestionamento.

"Ela tem uma capacidade grande e cobra um preço proporcional para ocupar essa capacidade. Se a capacidade aumentar muito, talvez baixe ainda mais os preços", afirma Olmos.

A estrutura brasileira também é enxuta, baseada em vendas digitais e distribuição terceirizada. Diferentemente das operadoras tradicionais, a Starlink não precisa reproduzir uma extensa rede de lojas, equipes comerciais e instalações terrestres para conquistar novos clientes.

"Aqui no Brasil, tem uma operação e não tem quase funcionários", diz Bernardo Guttmann, da XP Investimentos.

Segundo o analista, essa estrutura facilita a expansão comercial. "Ele consegue escalar isso fazendo uma estratégia digital", afirma.

Mais capacidade em órbita

Para continuar crescendo na internet residencial e avançar sobre a telefonia móvel, a Starlink precisa ampliar a capacidade de sua rede no espaço. A aposta está nos satélites V3, maiores e mais potentes que os utilizados atualmente.

Brasil e Estados Unidos são atendidos principalmente por satélites da geração V2, lançados pelo foguete Falcon 9. Segundo Olmos, cada V3 terá aproximadamente dez vezes mais capacidade que a geração anterior.

Colocar esses equipamentos maiores em órbita, porém, depende de outro projeto da SpaceX: o Starship. Muito maior que o Falcon 9, o foguete poderá transportar até 60 unidades e acrescentar à rede até 20 vezes mais capacidade do que um lançamento do Falcon 9, segundo estimativas da companhia.

Depois de atrasos e dificuldades em voos de teste, o Starship alcançou a órbita terrestre pela primeira vez no fim de setembro e levou ao espaço 26 satélites V3. Uma falha em um dos motores encurtou a missão, mas não impediu a entrega da nova geração.

O avanço pode permitir que a Starlink atenda mais consumidores em uma mesma região e reduza novamente os preços. O desafio agora é transformar o Starship em um veículo capaz de realizar lançamentos frequentes.

Os preços já caíram significativamente desde a chegada da Starlink ao Brasil, em 2022. Naquele momento, a mensalidade era de aproximadamente R$ 530, além dos R$ 2.670 cobrados pelo equipamento. Hoje, o plano residencial de entrada custa R$ 189 por mês, cerca de 64% menos.

Do satélite ao celular

É a possibilidade de chegar diretamente aos celulares que leva a Starlink a outro terreno. Nessa frente, os analistas enxergam um risco mais relevante para as operadoras tradicionais.

A tecnologia, chamada Direct to Cell, permite que um celular convencional se conecte diretamente a um satélite, sem precisar estar próximo de uma antena de telefonia móvel. Na prática, os satélites funcionam como uma espécie de torre de celular no espaço, levando sinal principalmente a locais onde as redes terrestres não chegam.

Nas primeiras versões, a conexão é voltada a serviços mais simples, como mensagens de texto, emergências e transmissão limitada de dados. Com uma nova geração de satélites, a Starlink pretende aumentar a capacidade do serviço e, no futuro, oferecer conexão 5G diretamente do espaço.

Isso não significa, por enquanto, substituir as redes terrestres nos grandes centros urbanos. Mas abre para a Starlink a possibilidade de chegar diretamente ao usuário de celular sem precisar construir uma rede de antenas com a mesma abrangência das operadoras tradicionais.

Para avançar nessa estratégia, a SpaceX acertou a compra de cerca de US$ 20 bilhões em licenças de espectro da EchoStar nos Estados Unidos. Essas licenças dão direito ao uso de determinadas frequências de transmissão de sinais. As aquisições reduzem a dependência da Starlink de acordos com outras operadoras para oferecer o serviço.

A compra anunciada agora em outubro acrescenta outra peça a esse desenho: 14 MHz na faixa de 800 MHz. São frequências que ajudam a ampliar a cobertura e a levar o sinal para dentro dos edifícios, justamente onde a conexão vinda do céu encontra mais obstáculos.

Para o UBS, o conjunto dessas aquisições muda a escala da discussão nos Estados Unidos. A Starlink passa a ter à disposição frequências que podem ser combinadas à cobertura dos satélites e, eventualmente, a uma rede terrestre.

O que pode estar em formação é uma operação móvel mais completa, capaz de chegar a lugares onde o satélite sozinho não basta.

"O risco talvez não seja a Starlink construir uma rede melhor que a das teles. É a Starlink conseguir chegar diretamente ao cliente", afirma Guttmann.

O caixa da dona da Starlink

A disputa, porém, não depende apenas de tecnologia. Para avançar sobre o mercado das operadoras tradicionais, a Starlink conta também com o poder financeiro de sua controladora.

A SpaceX saiu de sua oferta inicial de ações com aproximadamente US$ 86 bilhões em caixa, segundo Olmos. Esses recursos ampliam as possibilidades de expansão da Starlink e, na avaliação do analista, poderiam financiar inclusive a compra de operadoras.

Se a Starlink conseguir desenvolver uma operação móvel própria nos Estados Unidos, poderá buscar aquisições em outros mercados, inclusive na América Latina, afirma Olmos. Seria uma forma de reunir frequências, infraestrutura, licenças e clientes em uma só operação.

Para dimensionar esse poder financeiro, o analista compara o caixa da SpaceX ao valor de mercado das grandes operadoras da região.

A América Móvil, dona da Claro, vale cerca de US$ 70 bilhões, segundo as estimativas de Olmos. A Telefônica Brasil, dona da Vivo, tem valor de mercado entre US$ 18 bilhões e US$ 20 bilhões, enquanto a TIM Brasil vale aproximadamente metade do valor da dona da Vivo.

De um lado estão os recursos disponíveis à dona da Starlink; do outro, o valor atribuído pelo mercado às operadoras. A comparação dá a medida da força financeira que poderia sustentar uma expansão, embora não indique o preço de uma eventual aquisição nem signifique que haja negociação em curso.

E no Brasil?

Apesar dos avanços nos Estados Unidos, ainda há uma distância entre os planos internacionais da Starlink e a possibilidade de a companhia se transformar em uma operadora de telefonia móvel no Brasil.

Em relatório de 9 de outubro, Olmos e Gustavo Farias, do UBS, encontraram sinais de avanço da companhia na conectividade móvel brasileira, mas nenhum plano para montar uma rede própria e disputar diretamente os clientes de Vivo, TIM e Claro. Até agora, os movimentos identificados apontam para parcerias com as operadoras locais.

Isso não significa que a possibilidade esteja descartada.

A SpaceX poderia participar de futuros leilões de frequências da Anatel por meio de uma empresa brasileira, sujeita às mesmas exigências impostas aos demais concorrentes. Segundo o UBS, a faixa de 850 MHz seria o equivalente mais próximo das frequências adquiridas recentemente nos Estados Unidos.

Mas comprar uma frequência não significa ter uma rede pronta. Para reproduzir no Brasil o modelo que começa a desenhar no mercado americano, a Starlink precisaria de outras faixas e de infraestrutura terrestre, além de cumprir as exigências regulatórias.

As operadoras brasileiras, por sua vez, não estão paradas diante da evolução dos satélites.

A Vivo realiza testes de conexão direta no Brasil, com participação da Anatel. A TIM utiliza tecnologia de satélites para conectar torres em áreas remotas, enquanto a América Móvil mantém acordo para revender serviços da Starlink e avaliar seu uso na rede.

Por enquanto, portanto, os satélites também funcionam como aliados das empresas que poderiam enfrentar a Starlink no futuro.

A desaceleração na internet residencial brasileira conta apenas uma parte da história. Enquanto a Starlink encontra limites para crescer nas grandes cidades, a SpaceX investe em satélites mais potentes, compra frequências e acumula recursos para expandir sua atuação.

Ainda não há sinais de que a companhia esteja prestes a substituir as operadoras tradicionais no Brasil. Mas a possibilidade de chegar diretamente aos celulares, combinada ao poder financeiro de sua controladora, ajuda a explicar por que a Starlink passou a ocupar um espaço cada vez maior nas discussões de investidores sobre o futuro de Vivo, TIM e Claro.

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Fonte da Notícia: UOL Economia
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