A Bolsa volta a cair nesta quinta-feira (29), com investidores cautelosos diante da indefinição sobre os rumos da política econômica do governo Lula 4 e atentos à divulgação de dados econômicos dos Estados Unidos.
Na agenda do dia, o destaque é o PCE (índice de preços das despesas de consumo pessoal, na sigla em inglês), divulgado pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos. O indicador é acompanhado pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano) na avaliação da inflação e pode influenciar as expectativas para os juros do país.
Por volta das 11h50, o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, caía 0,83%, aos 169.575 pontos. No mesmo horário, o dólar subia 0,87%, a R$ 5,392.
Para Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, o pregão continua sendo marcado pela cautela. "Essa aversão ao risco é natural quando não há uma política econômica brasileira fundamentada. O mercado prefere trabalhar com aquilo que conhece, mesmo que a notícia seja ruim. A incerteza, por si só, gera aversão ao risco, e é isso que continuamos vendo".
No mercado doméstico, as atenções permanecem voltadas ao cenário político, a possíveis sinalizações sobre a política econômica do governo Lula e aos nomes que ocuparão os cargos da equipe econômica.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse na terça-feira (27) que reafirmou ao presidente Lula a necessidade de dar sinais ao mercado. Segundo ele, o governo já tem medidas prontas para apresentar, incluindo iniciativas para buscar o centro da meta fiscal.
A informação foi parcialmente desmentida pelo ministro da SRI (Secretaria de Relações Institucionais), José Guimarães (PT). Também na terça, Guimarães afirmou à imprensa que um pacote de ajuste fiscal não é prioridade até o fim do ano e não está sendo discutido pelo governo.
Entre os nomes cotados para a pasta econômica de Lula, o mais indicado é o do governador do Piauí, Rafael Fonteles. Fonteles teria indicado que aceitaria renunciar ao mandato para assumir o Ministério. Na véspera, em conversa com a Folha, o governador eleito disse que Lula fará governo ousado para melhorar a vida do povo, mas terá responsabilidade fiscal.
"Ele vai navegar nesses dois campos, conciliar essas duas agendas, mas jamais vai abrir mão dos ganhos sociais a cada ano", afirma em entrevista concedida à Folha nesta quarta-feira (28).
Em meio às indefinições, os juros futuros apresentam movimentos distintos. A taxa do contrato de DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 rondava a estabilidade, em 14,400%, enquanto a do contrato para janeiro de 2031 avançava 9 pontos-base, para 15,21%.
A reeleição de Lula aumentou o receio de investidores de que o governo não adote medidas suficientes para equilibrar as contas públicas. A expectativa de continuidade de uma política fiscal expansionista tende a elevar o prêmio de risco exigido pelo mercado para financiar o governo, pressionando os juros futuros.
Taxas mais altas, por sua vez, encarecem o crédito para empresas e consumidores e podem reduzir as perspectivas de lucro das companhias, afetando o desempenho da Bolsa.
Também permanece no radar o temor de cobrança de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre os chamados títulos incentivados, isentos de IR (Imposto de Renda). A medida poderia incluir LCIs (Letras de Crédito Imobiliário), LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio), CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) e debêntures incentivadas. A informação foi publicada pelo jornal O Globo na quarta-feira (28).
Para Gustavo Danilo, especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, a discussão sobre uma eventual cobrança de IOF sobre esses instrumentos acrescenta incertezas.
Segundo ele, a possível mudança aumenta as preocupações com a previsibilidade das regras, especialmente por envolver investimentos que financiam setores importantes da economia. "Até existir um desenho mais claro, acaba sendo mais um elemento de incerteza", afirma.
Nesta quinta-feira, o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, negou que a tributação de títulos de investimento isentos esteja no radar. Em entrevista coletiva, Leal disse que o governo já avalia há algum tempo formas de tributar esses títulos para reduzir distorções no mercado e promover isonomia entre os instrumentos. Ressaltou, porém, que ainda é necessário estudar a melhor forma de fazê-lo e que não há nenhuma medida em discussão neste momento.
O exterior também pesa. Nesta manhã, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos informou que o PCE avançou 3,6% nos 12 meses até setembro, em linha com a expectativa dos analistas. O órgão também divulgou que o PIB (Produto Interno Bruto) do país cresceu 3,4% no terceiro trimestre, acima da projeção de 3,2% dos economistas consultados pela Bloomberg.
O Fed utiliza o PCE (índice de preços das despesas de consumo pessoal, na sigla em inglês) como referência para sua meta de inflação de 2%.
Na véspera, a instituição manteve a taxa de juros entre 3,75% e 4%, mas reiterou o compromisso com a estabilidade de preços. "O acúmulo de mais informações ajudará o Comitê a determinar a orientação de política monetária adequada para assegurar o retorno da inflação, em tempo hábil, à meta de 2% do Comitê", afirmou o Comitê Federal de Mercado Aberto, responsável pela definição dos juros. "O Comitê garantirá a estabilidade de preços."
Para Leonel Oliveira Matos, analista de inteligência de mercados da StoneX, os números mostram um quadro inflacionário mais desafiador, persistente e disseminado nos Estados Unidos, o que pode levar o Fed a elevar os juros nos próximos meses. "A principal surpresa veio do PIB norte-americano, que cresceu acima do esperado [...] O crescimento mais forte da atividade econômica nos Estados Unidos representa um fator de risco inflacionário."
Segundo ele, embora os dados reforcem a perspectiva de novas altas de juros pelo Fed, movimento que tende a fortalecer o dólar, essa reação não se concretizou. Por volta das 11h50, o índice DXY, que mede o desempenho da moeda americana ante seis divisas fortes, recuava 0,11%.
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Para Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, o pregão desta quinta-feira deve ser marcado pela combinação entre os indicadores americanos, a evolução do dólar e as preocupações fiscais brasileiras.
"Dados de inflação e atividade mais favoráveis podem abrir espaço para uma recuperação da Bolsa, enquanto o aumento da aversão global ao risco pode prolongar a pressão vendedora", afirma.
No exterior, os índices S&P 500, Nasdaq e Dow Jones recuavam, com quedas de 0,05%, 1,20% e 0,26%, respectivamente.
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