"Prazer, Edinanci.' Foi dessa forma, com um sorriso no rosto, que a judoca medalhista em Mundiais e em Jogos Pan-Americanos respondeu a um cumprimento em uma livraria na Zona Sul do Rio de Janeiro, momentos antes do lançamento do livro que conta a história dela.
Eu nunca pensei que a minha trajetória de vida pudesse se tornar um livro. Eu achei que não tinha tanto potencial para isso. Eu acho que tem histórias muito mais lindas dentro do esporte, histórias de vida também. Mas eu acho que a Helena [Rebello, autora] fez um excelente trabalho.Edinanci, ao UOL
Livro 'Edinanci Silva: mulher forte sim senhor'
A apresentação, como se não fosse a estrela do evento que estava prestes a acontecer, indica um pouco da personalidade de Edinanci. Um dos grandes nomes do judô brasileiro, ela achou que se tratava de um trote a ligação do Comitê Olímpico do Brasil (COB) com o convite para integrar o hall da fama. "De repente, tem o livro concretizado em nossa mão. Para mim, foi muito emocionante. Porque acaba se tornando um documento de vida pra mim".
Acredito que eu nem quero essa vitrine toda para mim, não é o meu objetivo. Até mesmo porque, resgatando toda a minha trajetória, indo a fundo em minhas origens, consegui adquirir essa maturidade. Não é que eu não quero reconhecer minha importância, mas eu não quero me colocar em pedestal.Edinanci
Os resultados esportivos e pódios não evitaram que Edinanci fosse alvo de um enorme preconceito da sociedade. Ela nasceu como pessoa intersexo — tinha testículos internos e apresentava quantidade anormal de hormônios masculinos. Em abril de 1996, passou por uma orquiectomia, cirurgia para retirada desses testículos.
Edinanci teve de, quase sozinha, achar soluções em meio ao massacre público e comentários preconceituosos. O livro "Edinanci Silva: Mulher Forte, Sim Senhor", da editora Malê, coincidentemente foi lançado em um momento de debate no esporte.
O COI anunciou, em março, uma nova regra para as modalidades femininas. Ela prevê que a elegibilidade na categoria feminina será definida por uma triagem para detectar o gene SRY, ligado ao cromossomo Y. O exame poderá ser feito por saliva, swab na bochecha ou amostra de sangue.
As entrevistas que eu tive com a Helena me fizeram retornar ao meu passado, resgatar minhas raízes e concluí que, realmente, construí algo de importante. Não só para que outras pessoas pudessem se espelhar no quesito de superação, de realização de sonho, mas principalmente no ponto de reflexão sobre um caso que foi muito discutido, principalmente na década de 90. De repente, essa história acaba se repetindo, de outra forma, através da atleta da África [Caster Semenya] e depois da atleta do boxe também [Argelina Imane Khelif]. Vejo que o meu caso ajudou a conscientizar um pouco a nossa sociedade.Edinanci
Recentemente, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) informou que vai passar a seguir a regra do COI, e a carreira de Tifanny Abreu, que é uma atleta trans, está em xeque.
Há ainda o caso da Tifanny, que vem enfrentando uma grande batalha. A situação dela é diferente da minha, mas o debate dentro da sociedade é praticamente o mesmo. Os ataques, as acusações são praticamente as mesmas. Então eu acredito que eu preparei um pouco lá atrás o terreno, conscientizando algumas pessoas para que tivesse, nesse momento, poder para analisar a situação, uma opinião mais humana. Claro que não vamos chegar a uma solução de imediato, foi um processo.Edinanci
Ela vê o debate ganhar novas formas, mas ressalta que todas devem ter atenção, lembrando que muitos casos ficam às sombras. Ela acredita que as páginas escritas por ela podem ajudar em novos capítulos na discussão. "Que resgatem a minha história e façam uma comparação: 'Olha aí, estamos repetindo o mesmo que aconteceu com a atleta Edinanci e com tantas outras pessoas que não temos conhecimento publicamente'. Foi um fato nacional e internacional, mas e os outros casos que acabam sucumbindo e acabam caindo em silêncio? Prefiro ser colocada como exemplo ali dentro do debate. Não podemos repetir essa injustiça".
Durante o lançamento, a ex-judoca olímpica descreveu o processo de reconstruir memórias e de lidar com episódios que, segundo ela, estavam esquecidos. Edinanci também creditou à jornalista Helena Rebello, autora da obra, a condução do trabalho com respeito ao seu tempo e aos limites emocionais impostos pelo resgate do passado.
Já foi muito difícil ter vivido. E relembrar foi um tormento. A Helena teve uma paciência enorme comigo. Tinha vezes que eu sumia durante duas semanas. Mas eu não sumia de birra. É porque quando você resgata uma dor, quando você cutuca ali a cicatriz e você está tentando relembrar, isso daí é muito sofrido.
A Helena me ajudou a relembrar um processo que eu vivenciei na minha infância que estava no limbo, que eu já tinha esquecido. Quando eu comecei a resgatar isso daí eu entrei em estado de choque. E eu agradeço todas as vezes à Helena pelo respeito e pelo carinho e cuidado que ela teve, porque ela soube me respeitar e respeitar o meu tempo.Edinanci Silva, ex-judoca olímpica
Helena Rebello disse que a construção do livro passou por camadas que, segundo ela, nem pessoas próximas ao judô conheciam. A jornalista afirmou que o projeto começou com a ideia de um documentário, mas virou livro, e citou a participação de pessoas que doaram tempo e atenção para completar episódios e reconstruir um quebra-cabeça de memórias.
Eu fui entender que a Edinanci que eu conhecia, e que eu tenho certeza que a maioria de vocês aqui, mesmo quem conheceu durante anos no judô, só conhece a pontinha do iceberg. São muitas camadas. Muitos episódios que a Edinanci viveu e não lembrava, e foi um grande quebra-cabeça.
Eu fui vendo que a força dela física era um detalhe na força emocional que ela precisava ter como ser humano. E o título ficou claro para mim quando eu tô fazendo pesquisa de acervo lá na Paraíba e acho uma matéria de 94 com a música 'Paraíba' ('mulher macho, sim senhor'). Hoje as mulheres paraibanas cantam 'mulher forte, sim senhor'.Helena Rebello, jornalista e autora da biografia
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