O seguinte autorretrato de Graciliano Ramos foi feito a pedido do jornalista João Condé, titular durante anos da lendária coluna "Arquivos Implacáveis".
Quando esse perfil foi publicado, em 1948, a coluna estava abrigada no suplemento Letras e Artes, do jornal A Manhã, do Rio de Janeiro —depois passaria a ser publicada na revista O Cruzeiro.
Graciliano tinha então 55 anos —pois o jornal com a coluna saiu em agosto, e ele é de outubro de 1892—, mas, ao ser publicada mais tarde em livro, ficou consagrado o título "Autorretrato aos 56 anos".
Em 2014, o perfil saiu no livro "Conversas", organizado por Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Agora, ganhou um capítulo na nova biografia do autor, "Graciliano Ramos: Vida e Obra", de Wander Melo Miranda.
Esse tipo de questionário com escritores e outras personalidades era comum na imprensa em meados do século passado. Em 1951, três anos depois do autorretrato a pedido de João Condé, Graciliano participaria de jogo semelhante a pedido do colunista Tavares de Miranda, na Folha da Manhã, precursora da Folha.
Sob o título "Traços de Identidade", o questionário tem tópicos parecidos com os dos "Arquivos Implacáveis", mas traz vários outros. Exemplos: "Gosta e come pimenta como se fosse salada"; "Não tem tempo para ir ao teatro e, por isso, não tem opinião formada sobre o teatro contemporâneo"; "Não tem preferência pela noite ou pelo dia. Vive"; "Gosta de frio"; "Não entende de poesia, por isso não tem poeta preferido"; "Sobre o modernismo, disse: 'o modernismo nunca me interessou'".
Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas.
Casado duas vezes, tem sete filhos¹.
Detesta rádio, telefone e campainhas.
Tem horror às pessoas que falam alto.
Não tem preferência por nenhuma comida.
Não gosta de frutas nem de doces.
Sua leitura predileta: a Bíblia.
Escreveu "Caetés" com 34 anos de idade.
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados.
Gosta de beber aguardente.
Odeia a burguesia. Adora crianças.
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.
Gosta de palavrões escritos e falados.
Deseja a morte do capitalismo.³
Escreveu seus livros pela manhã.
Fuma cigarros Selma (três maços por dia).
É inspetor de ensino, trabalha no Correio da Manhã.
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo.4
Só tem cinco ternos de roupa, estragados.
Refaz seus romances várias vezes.
É‑lhe indiferente estar preso ou solto.
Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio.6
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas.
Espera morrer com 57 anos.7
¹ Na verdade teve oito filhos.
² Na versão publicada em 2014 em "Conversas", está: "Indiferente às Academias", no plural.
³ Na versão publicada em 2014 em "Conversas", está: "Seu maior desejo: a morte do capitalismo".
4 Na versão publicada em 2014 em "Conversas", está: "Apesar de o acharem pessimista, discorda disto".
5 Este tópico não aparece na versão publicada agora, mas consta na de 2014.
6 Os dois primeiros foram amizades feitas na prisão; o terceiro, o escritor, autor de "Menino de Engenho"; o último é o editor José Olympio Pereira Filho.
7 Errou por três anos, morreu aos 60.
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