Não é só o Boletim Focus que está sinalizando corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros (taxa Selic) na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) desta quarta-feira (5). Também as curvas de juros futuros apontam 80% de probabilidade de que essa redução se confirme.
No Focus, relatório no qual o Banco Central reúne e organiza as projeções para indicadores econômicos enviados por mais de uma centena de economistas, a maioria do mercado financeiro, a mediana do boletim mais recente, divulgado nesta segunda-feira (3), para a Selic indica uma taxa de 13,75% no fim do ano.
Como hoje a taxa básica está em 14,25%, essa nova projeção indica que o mercado espera agora dois cortes de 0,25 ponto — o segundo em setembro ou novembro — ainda em 2026.
Sinal da curva de juros
Pela trajetória da curva de juros futuros do momento, que mostra com mais clareza o que move o mercado financeiro, a redução da Selic para 13,75% no fim do ano ainda não está garantida. As pontas mais longas da curva apontam 60% de probabilidade de uma segunda redução na taxa básica no segundo semestre, ligeira predominância para mais uma redução neste ano.
Mesmo com a Selic no fim do ano em 14% ou 13,75%, a taxa básica de juros real continuaria nas alturas e fortemente restritiva. Dos atuais 10% ao ano, recuaria ligeiramente para 9,7%, no primeiro caso, e 9,5% no segundo, permanecendo entre as mais altas do mundo.
Ainda assim, a diferença entre a taxa de juros neutra, estimada pelo próprio Banco Central, e a taxa real, mesmo com dois cortes acumulados de 0,5 ponto na Selic, manteria a política monetária (política de juros) fortemente contracionista. Taxa neutra é aquela que nem estimula nem desestimula a inflação e, na estimativa do BC, não passa hoje de 4,5%.
Política contracionista
É justamente essa ampla distância entre a taxa de juros neutra e a taxa real que tem movido a posição do Copom, formado pelo presidente e pelos diretores do BC, a sinalizar cortes na taxa básica — "calibração", no novo vocábulo do "coponês", usado nos comunicados da autoridade monetária.
A diferença entre os juros neutros e a taxa real mostra que o BC tem atuado ativamente na retirada de dinheiro do mercado, desestimulando com isso a demanda que pressiona a inflação. Projeções do próprio BC sinalizam que, mais na frente, os freios impostos à atividade pela política de juros podem até mesmo levar a economia a uma indesejada recessão.
O efeito contracionista da política monetária sobre a atividade econômica é naturalmente defasado no tempo. Mas, no atual momento da economia, essa defasagem fica ainda maior, já que o governo vem operando na direção contrária, estimulando a economia com aumento de gastos em programas de benefícios e ampliação de subsídios ao crédito.
Freio na atividade
É esse cenário de um pequeno movimento de cortes de juros básicos, sinalizados pelo Copom — mesmo com a inflação rodando, no acumulado em 12 meses, em torno de 5% no fim de 2026, ainda acima de 4,5%, teto do intervalo de tolerância do sistema de metas de inflação —, que tem sido crescentemente aceito pelo mercado.
Vale observar, nesse sentido, que as variações nas projeções da inflação e da Selic nos últimos Focus não se refletem nas previsões para o crescimento da economia em 2026. Este continua o mesmo há cinco semanas, no entorno de 2%.
Esta estimativa coincide com a mais recente projeção do próprio BC para a expansão da atividade em 2026, mas ainda se mantém abaixo da previsão do Ministério da Fazenda, de crescimento de 2,3%, e da estimativa atualizada do FMI (Fundo Monetário Internacional), que avançou para 2,4%.
Vale também notar que, enquanto as projeções para a expansão da economia em 2026 têm avançado, as previsões para 2027 estão recuando. No Boletim Focus, por exemplo, o crescimento no ano que vem vem caindo de 1,9%, há algumas semanas, para 1,6%, no relatório mais recente.
A moral da história, vendida pelo próprio BC, é a de que a política restritiva de juros, depois de um longo período com juros nas alturas de 15% ao ano, começa a mostrar o efeito de seus freios no crescimento econômico, com risco de aprofundar a freada depois de 2027 além do necessário.
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