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Folha de S.Paulo há 91 d • 30/07/2026 18:00

Compostos presentes em plásticos e cosméticos alteram produção de hormônios

Disruptores endócrinos são compostos capazes de alterar a produção, o transporte, o metabolismo ou a ação dos hormônios. Eles são encontrados em diversos produtos presentes no nosso cotidiano, como recipientes plásticos, revestimentos internos de latas, embalagens de alimentos, alguns cosméticos e tecidos sintéticos, entre outros.

Do ponto de vista biológico, funcionam como verdadeiros "hackers" do sistema hormonal. Penetram no corpo por ingestão, inalação ou absorção pela pele. Alguns apresentam estrutura semelhante à dos hormônios naturais e ativam respostas inadequadas ou exageradas. Outros agem como uma chave defeituosa: ocupam os receptores celulares, mas bloqueiam ou reduzem a ação dos hormônios produzidos pelo organismo.

Entre os órgãos mais vulneráveis à ação dos disruptores endócrinos está a glândula tireoide. Ela produz hormônios que regulam o metabolismo, o gasto energético, a temperatura corporal, o desenvolvimento neurológico e diversas funções cardiovasculares. Como seu bom funcionamento depende de um delicado equilíbrio hormonal, pequenas alterações podem repercutir em diferentes órgãos e fases da vida.

Uma vez no organismo, os disruptores endócrinos podem dificultar a captação de iodo, indispensável para a produção dos hormônios T3 e T4; alterar a atividade de enzimas envolvidas na sua síntese; modificar o transporte desses hormônios pelo sangue, seu metabolismo e sua eliminação ou interferir em sua ligação aos receptores celulares. Por isso, a tireoide se tornou um dos principais focos das pesquisas sobre os impactos dessas substâncias.

Mas os efeitos dessa interferência nem sempre são imediatamente perceptíveis, pois o funcionamento da tireoide também é influenciado por fatores genéticos, idade, disponibilidade de iodo, doenças autoimunes e outras exposições ambientais. Ainda assim, um número crescente de estudos, revisões e meta-análises aponta associação entre a exposição prolongada a alguns disruptores endócrinos e alterações nas concentrações de TSH, T3 e T4, além de maior suscetibilidade a disfunções tireoidianas.

Os estudos também indicam que a intensidade dos efeitos varia conforme a substância, a dose, o tempo de exposição e as características das populações estudadas. As evidências são mais consistentes para compostos como bisfenóis, ftalatos, substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas (PFAS) e percloratos.

O efeito das exposições combinadas

Publicada em 2025, uma revisão recente destaca que estabelecer relações causais entre os disruptores endócrinos e doenças específicas ainda é um desafio, principalmente porque a exposição ocorre de forma contínua e simultânea a misturas de diversos compostos.

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Por isso, compreender como essas exposições combinadas interagem no organismo e influenciam o risco de doenças passou a ser uma das principais prioridades da pesquisa em endocrinologia ambiental. Considerar o conjunto das exposições aproxima os estudos das condições reais em que vivemos e permite entender melhor como pequenas interferências hormonais, repetidas continuamente durante anos, podem produzir efeitos clinicamente relevantes.

Os possíveis efeitos dessas substâncias não se limitam à tireoide. Há evidências de alterações da fertilidade masculina e de maior risco de obesidade, síndrome metabólica e diabetes tipo 2. Além disso, a ciência investiga a relação desses compostos com alguns tumores hormônio-dependentes, como mama, próstata e tireoide. Novamente, trata-se de um conjunto de evidências em evolução, em um cenário onde diferentes fatores ambientais e comportamentais também influenciam o desenvolvimento dessas doenças.

Esse cenário ajuda a explicar por que instituições internacionais vêm defendendo uma abordagem baseada no princípio da precaução. Não significa afirmar que qualquer contato com essas substâncias levará, inevitavelmente, ao desenvolvimento de doenças, mas reconhecer que reduzir exposições desnecessárias pode representar um benefício para a saúde coletiva, especialmente diante da ampla disseminação desses compostos no ambiente.

Eliminar completamente a exposição continua longe de ser uma possibilidade. No entanto, algumas escolhas podem contribuir para reduzi-la. Sempre que possível, vale priorizar alimentos frescos em vez de ultraprocessados, evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos, preferir vidro ou aço inoxidável para armazenar alimentos e bebidas, reduzir o uso de produtos com fragrâncias sintéticas, substituir recipientes plásticos por vidros e observar a composição de cosméticos e produtos de higiene de uso frequente.

Mesmo assim, essas medidas têm alcance limitado. A redução da exposição depende de regulamentação, monitoramento ambiental, revisão permanente dos limites de segurança e incentivo ao desenvolvimento de materiais mais seguros. Trata-se de um desafio que envolve governos, indústria, comunidade científica e consumidores.

A lista cresce

Nas últimas décadas, organismos internacionais como a OMS (Organização Mundial da Saúde), o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) passaram a acompanhar os estudos sobre os efeitos dos disruptores endócrinos e a desenvolver estratégias.

Até o momento, mais de 800 substâncias já foram classificadas como potenciais disruptores endócrinos. Entre as mais conhecidas estão os bisfenóis, utilizados na fabricação de plásticos rígidos e no revestimento interno de latas; os ftalatos, empregados para conferir flexibilidade ao PVC e encontrados em embalagens, fragrâncias e alguns cosméticos; os PFAS, usados em alguns materiais antiaderentes e resistentes à água e à gordura; além de dioxinas, percloratos e outros poluentes persistentes. Os microplásticos também passaram a integrar essa lista após serem identificados na água potável, em alimentos e até no organismo humano.

A invisibilidade desses compostos talvez seja o maior desafio. Eles fazem parte da rotina de praticamente toda a população e, na maioria das vezes, não produzem efeitos imediatos ou facilmente perceptíveis. Investigar como interferem no organismo é um passo importante para orientar políticas públicas, aperfeiçoar a regulação e garantir escolhas mais informadas.

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