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Folha de S.Paulo há 92 d • 30/07/2026 18:00

Espetáculo musical revisita os cem anos de um clássico do teatro negro no Brasil

Antes mesmo de subir ao palco, "Tudo Preto" já enfrentava a desconfiança dos críticos. Em uma cena teatral em que artistas negros eram relegados à posição marginal, muitos duvidavam de sua competência técnica.

A estreia da Companhia Negra de Revistas, em 31 de julho de 1926, no Rio de Janeiro, provou o contrário. Inspirado na "Revue Nègre", a revista negra, de Josephine Baker, o espetáculo reunia um elenco negro e marcou a criação da primeira companhia de teatro negro do Brasil.

Cem anos depois, os diretores Tainah Longras e Mauricio Lima conduzem uma releitura do texto original. "Tudo Preto: uma re_vista", que estreia no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro nesta sexta-feira, conserva cenas inteiras da dramaturgia de 1926, mas as modifica com novos recursos de dança e música.

Com texto de De Chocolat e direção musical de Pixinguinha, a revista musical propunha uma vibrante celebração das tradições afrobrasileiras diante de uma plateia branca. No entanto, para atrair esse público, recorria a caricaturas do negro, comuns na produção cultural da época.

"Tudo Preto" foi um sucesso. Atraiu a atenção de nomes como Tarsila do Amaral, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. Porém, boa parte desse entusiasmo foi delimitado por uma visão que associava as culturas negras a um suposto primitivismo —ideia que ajudou a estruturar o modernismo brasileiro.

O espetáculo, no entanto, oferecia outra visão sobre o lugar da população negra no processo de modernização da cultura nacional. Ao colocar em cena um negro urbano e cosmopolita, a peça ampliava o sentido de modernidade e reivindicava a participação ativa dos negros na construção de uma identidade nacional. Esses esforços, porém, acabaram ficando em segundo plano na historiografia do teatro brasileiro.

A nova montagem valoriza as contribuições da original de forma crítica: "Tivemos o cuidado de não reproduzir nada. É sempre um diálogo", afirma Longras.

A adaptação prossegue uma pesquisa anterior dos diretores. No espetáculo "Vinte!", que rendeu à dupla o Prêmio Shell de Melhor Dramaturgia em 2026, os movimentos estéticos negros na década de 1920 são investigados como expressão de um projeto de país que não se consolidou.

Para eles, o que está em disputa na nova adaptação de "Tudo Preto" são as tensões atreladas à ideia de um Brasil moderno e profundamente desigual. Longras questiona "como a gente inclui as artes negras num projeto de modernidade que desejava branquear a cultura do país?"

Enquanto a montagem de 1926 era marcada por extravagância visual —típico do teatro de revista— a nova aposta na sutileza das composições gestuais e sonoras. As trocas de cenários, por exemplo, não são ocultadas. O público testemunha a engrenagem que move a cena, enfatizando seu caráter artesanal.

A ironia é outro elemento crucial de "Tudo Preto: uma re_vista". Por meio de jogos vocais e musicais, a encenação ora se aproxima do texto original, ora o questiona. Esse recurso de dupla ironia não só atribui novos sentidos às ambiguidades da obra de De Chocolat, como oferece uma chave de leitura para as contradições da própria sociedade brasileira.

"Como a gente honra uma obra sem se tornar acrítico, e como a gente critica uma obra sem cair no juízo de valor?", diz a diretora. A resposta vem por meio de rasuras na dramaturgia original. A cena em que um rei escolhe a favorita de seu harém, por exemplo, é atravessada por um comentário que problematiza a sexualização da mulher negra. Em outra, o fascínio da elite carioca dos anos 1920 pela moda parisiense divide espaço com cenas de um ônibus lotado no Rio de Janeiro de hoje.

A sobreposição de referências musicais é outro recurso para reinterpretar "Tudo Preto". Para contornar a ausência de registros fonográficos ou partituras da maior parte das composições originais, a nova encenação contou com trilha assinada pelo premiado compositor Muato, que reuniu sonoridades de décadas distintas. Para reverenciar Pixinguinha, recorreu a uma variedade de metais. O caráter contemporâneo vem das batidas de afrobeat e de samples do hip-hop.

O artista procurou dar forma à concepção não linear de história que embasa a releitura. "Procuramos nos basear em uma concepção mais corpórea da matéria historiográfica", afirma Longras, referindo-se à importância do trabalho da historiadora Beatriz Nascimento para a encenação.

Para a pensadora sergipana, o corpo e o território são centrais para repensar a história do negro no Brasil. Como forma de corporificar a presença de Nascimento no espetáculo, o trecho de uma de suas entrevistas é transformado em uma fuga —estilo de composição polifônica que tem origem na música barroca.

Ao sobrepor tempos, vozes e referências musicais, o espetáculo faz do movimento o princípio que reorganiza os ecos e as ressonâncias da Companhia Negra de Revistas. Como sugere uma personage, da nova encenação, é importante reaprender a ouvi-las.

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