Um artigo recente do economista André Lara Resende sobre os juros no Brasil gerou controvérsia entre economistas e no mercado financeiro. No texto, ele argumenta que os juros altos, principal ferramenta usada hoje pelo BC (Banco Central) para segurar a inflação, na realidade podem elevar os preços. Diz ainda que o problema da dívida pública brasileira está nos juros, e não nos gastos do governo.
Lara Resende foi diretor do BC, negociador da dívida externa, presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e um dos formuladores do Plano Real. Há anos, ele levanta a discussão sobre a efetividade da manutenção dos juros altos para controlar a inflação no país. A proposta elaborada pelo economista inclui a redução da taxa básica de juros do país, a Selic, para 7,5% em 12 meses. A ideia gera mal-estar no mercado financeiro, com temor de interferência política no Banco Central e de fuga de capitais.
Problema está nos juros
No artigo publicado em setembro, Lara Resende diz que o problema da dívida pública brasileira está nos juros, e não nos gastos do governo. Segundo o economista, o país gasta mal, mas tem um déficit fiscal primário pequeno, entre os menores do mundo, de acordo com dados do FMI (Fundo Monetário Internacional).
O déficit primário total do Brasil em 2025 ficou em 0,48% do PIB. É um déficit primário menor que o de países como China, EUA, Rússia, Finlândia, Colômbia, Filipinas, Peru e Japão, segundo dados do FMI citados por Lara Resende.
A conta considera as despesas e receitas do governo, excluído o gasto com os juros da dívida pública. "Quando se exclui o serviço da dívida, as contas estão praticamente equilibradas. A grande despesa do estado é com os juros sobre a dívida", diz o economista.
Os juros altos impactam diretamente a dívida pública. No acumulado de 12 meses até agosto, os juros da dívida brasileira chegaram a R$ 1,18 trilhão — ou 8,9% do PIB. "O aumento da relação dívida/PIB tem um único motor: a absurda taxa de juros fixada pelo BC", diz o economista no artigo.
Juros para controlar a inflação?
O BC mantém os juros elevados para conter a inflação. Isso se baseia na teoria da Curva de Phillips, segundo a qual há uma relação inversa entre taxa de desemprego e inflação. Ou seja, quanto menor o desemprego, maior a inflação. Com base nessa premissa, o BC aumenta a taxa de juros para desaquecer a economia, o que levaria a um aumento do desemprego e, portanto, à redução da inflação. Mas, segundo Resende, a relação entre desemprego e inflação "desapareceu".
O economista levanta a teoria de que, na realidade, a alta dos juros não necessariamente reduz a inflação, e pode, na verdade, elevá-la. Ele cita o trabalho do professor John H. Cochrane, da Universidade de Stanford, segundo o qual a política monetária, se dissociada da política fiscal, pode ter efeitos contrários aos pretendidos.
Lara Resende destaca que, no curto prazo, é possível que a redução do juro eleve a inflação, antes de reduzi-la. "Esta é a razão pela qual a proposta de reduzir o juro para reduzir a inflação tem pouco apelo na prática. A redução do juro vai efetivamente trazer a inflação para baixo, mas só depois de um repique da inflação no curto prazo, e é muito provável que o banqueiro central que tentar reduzir a inflação por meio da redução do juro perca o emprego antes de ver a inflação se reduzir", escreve.
Ao avaliar o caso brasileiro, o economista atesta que, sem uma redução do juro, "não há ajuste fiscal possível que interrompa o crescimento da dívida em relação ao PIB". Diz também que, no caso brasileiro, o repique da inflação pode ser mitigado pelo perfil da dívida no país, já que mais da metade da dívida está em títulos de curto prazo de remuneração atrelada à Selic. Esse perfil, diz Resende, potencializaria o efeito deflacionário da redução do juro.
Discussão antiga
Esta não é a primeira vez que Lara Resende trata do tema. Em janeiro de 2017, quando os juros estavam em 13%, o economista levantou a discussão no artigo "Juros e conservadorismo intelectual", publicado no jornal Valor Econômico. No artigo, Resende dizia que, na prática, a taxa de juros fixada pelo BC atua "como sinalizador da inflação futura". O tema gerou grande repercussão, com a publicação de artigos na imprensa por diversos economistas.
Em fevereiro de 2017, o Valor Econômico entrevistou o professor John H. Cochrane, da Universidade de Stanford, autor da teoria que embasa a argumentação de Lara Resende. Na época, Cochrane disse que seu trabalho mostra que "os bancos centrais entendem o sistema em que operam muito menos do que pensam".
"Quando você sobe os juros, tem uma forte possibilidade de que, na verdade, você vai subir a inflação. Não posso garantir o que você vai encontrar pela frente, não vou falar para você conduzir com certeza em alguma direção. Acho que esse é um argumento para, pelo menos, os bancos centrais serem muito menos ativos, no sentido de ser menos reativos a cada nova peça de informação."
Ele foi questionado sobre o que recomendaria para baixar a inflação e os juros no Brasil. Na época, os juros estavam em 13%, e a inflação havia caído de 11% para perto de 5,5%. Havia a discussão, levantada por Lara Resende, de que um corte nos juros poderia fazer baixar a inflação.
Cochrane respondeu: "Eu desaconselharia isso veementemente. Existe um perigo. Certamente, a teoria que estamos trabalhando diz que você pode baixar a inflação no longo prazo com taxas de juros mais baixas, desde que você tenha uma política fiscal sólida como uma rocha. Quando todo mundo acredita que o governo está fazendo um bom trabalho. Entendo que o governo brasileiro não tem uma política fiscal sólida como uma rocha, não é?"
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