O dólar comercial e as aplicações de renda fixa pós-fixada foram os investimentos com maior retorno em outubro. Títulos públicos como Tesouro Selic e CDBs pós-fixados também registraram rendimento positivo no mês. Já os piores resultados ficaram com a Bolsa de Valores (Ibovespa), que derreteu quase 10%, com o Bitcoin e com títulos públicos de longo prazo atrelados à inflação.
O que você precisa saber
Ibovespa derreteu quase 10% em outubro. Após superar os 200 mil pontos pela primeira vez na história, o índice desabou mais de 18% na última semana do mês. O Ibovespa fechou aos 167.921 mil pontos, baixa de 9,88% na comparação com o último fechamento de setembro (186.350 pontos). Ainda assim, o índice acumula alta de 4,21% no ano.
Fundos imobiliários também amargaram queda. O IFIX, índice que reúne os Fundos Imobiliários negociados na B3, recuou 2,89% neste mês, de 3.755 para 3.646 pontos. A variação limita o retrospecto do indicador no acumulado deste ano: até setembro, ele havia recuado 0,53%.
Dólar praticamente zera as perdas do ano. A moeda norte-americana avançou 5,22% ante o real em outubro e fechou o mês a R$ 5,444, acima de R$ 5,40 pela primeira vez desde dezembro de 2025 (R$ 5,489). No acumulado do ano, o saldo é de desvalorização acumulada de 0,82%, menor patamar de 2026. Em maio, a queda da divisa em relação ao real superava 10%.
Ouro desvalorizou 6,78% em outubro. No último dia útil de setembro, o valor por onça-troy (equivalente a 31,1 gramas) estava cotado em US$ 4.157,34, mas fechou outubro em US$ 3.875,55. No acumulado do ano, o recuo é de 10%, já que o ativo iniciou 2026 a US$ 4.332,08.
Já o Bitcoin despencou 8,11% em outubro. Até as 18h do dia 30 (cotação do Bitcoin nunca fecha), o ativo era cotado a US$ 76.829,56 ante 83.612,20 no começo do mês. Em relação a janeiro (US$ 87.612,70), o tombo é de 12,31%.
As quedas do ouro e do bitcoin em outubro não tiveram relação com a eleição brasileira. Os recuos se devem à perspectiva de nova alta de juros nos Estados Unidos em dezembro, após dados de inflação e do PIB (Produto Interno Bruto) americano virem mais fortes do que o esperado, o que levou investidores a trocarem tanto o metal quanto as criptomoedas pelos títulos do Tesouro americano.
Pessimismo disparou após a reeleição do presidente Lula. Até o segundo turno, o Ibovespa acumulava alta de 10,06% no mês e figurava acima dos 200 mil pontos pela primeira vez na história. No mesmo intervalo, o dólar comercial recuava 3,5% e era comercializado abaixo de R$ 5.
O movimento de retração é impulsionado principalmente pelas incertezas em torno da política fiscal e da trajetória dos gastos públicos pós-eleição. Rebecca Nossig, estrategista da Nomad
A correção do Ibovespa pode ser interrompida. A queda recente devolveu a Bolsa ao patamar próximo de agosto, quando as apostas do mercado indicavam que Lula seria reeleito, sem a vantagem assinalada por Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno.
Entendemos que o Ibovespa teve uma boa correção e agora deve apresentar certa acomodação. Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos
E a renda fixa?
Os papéis atrelados à inflação (como o IPCA+ 2032) dispararam. A taxa de juros desse papel começou outubro em 7,66% ao ano além da inflação, despencou para a mínima de 6,68% no dia 9 e acabou o mês cotada a 7,89% no dia 30. Como a queda nas taxas do mercado valoriza os títulos antigos, o preço do papel disparou no início do mês. Para quem já tinha o título na carteira e buscava lucros rápidos antes do vencimento, o dia 9 foi a oportunidade perfeita para vender a aplicação e embolsar um ganho acima do habitual.
A calmaria acabou na última semana de outubro. Quem comprou o título no dia 9, sob a taxa de 6,68%, no final do mês se deparou com um encolhimento no saldo provocado pela disparada da taxa para 7,89%. Mas se o investidor que mantiver o dinheiro guardado até o resgate, o governo pagará a inflação do período somada aos 6,68% garantidos na contratação.
Porto seguro do investidor comum, o Tesouro Selic foi o contrapeso. Com a taxa básica de juros elevada, ele gerou retorno acima de 1% no mês. A única mudança ocorreu no bônus fixo que o governo paga além da Selic (o chamado ágio), que subiu de 0,023% para 0,031% em outubro.
No Tesouro Prefixado com vencimento para 2032, a taxa de investimento passou de 14,19% no dia 1º de outubro para 15,31% no dia 30. Quem comprou no pico do otimismo (dia 9, com a taxa em 12,49%) e abriu o extrato no dia 30, levou um susto. Como o mercado passou a exigir taxas muito maiores (15,31%), o preço do papel de 12,49% despencou na marcação a mercado. Se essa pessoa vender o título agora, vai amargar um prejuízo, mas se resgatar o papel no vencimento, o governo vai pagar o que foi combinado.
Quem tinha CDB pós-fixado, que acompanha a taxa básica de juros, viu o dinheiro render cerca de 1% no mês. Já os prefixados, que fixam a taxa na compra, ficaram atraentes depois do segundo turno eleitoral: as novas taxas saltaram de cerca de 12% para perto de 15% ao ano.
O investidor que buscou a estabilidade das LCIs e LCAs em outubro passou ileso. Após o segundo turno, os juros de longo prazo saltaram de 12% para 15% ao ano na semana do dia 26. Enquanto essa disparada provocou perdas na marcação a mercado de outros títulos e fez o saldo de muita gente encolher, as letras de crédito pós-fixadas seguiram o caminho oposto. Como a rentabilidade delas acompanha a taxa básica de juros, o saldo continuou crescendo sem oscilações.
O que esperar de novembro
A recomendação é priorizar a segurança do pós-fixado e evitar apostas arriscadas. Embora o Tesouro Direto ofereça taxas elevadas e papéis na Bolsa pareçam baratos, o risco de novas desvalorizações exige que o investidor mantenha a maior parte do dinheiro protegida em aplicações atreladas ao CDI, recomenda Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimento.
A divisão da carteira entre ativos no Brasil e investimentos atrelados ao dólar ajuda a proteger o patrimônio. Como a moeda americana costuma subir quando o mercado doméstico piora, essa reserva funciona como amortecedor contra as perdas da Bolsa local.
Esse mês o dólar subiu, porém a Nasdaq [bolsa americana de tecnologia] caiu 5%, então parte do ganho por conta do câmbio foi compensada com a queda nas ações. Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimento
Tanto a aplicação no Tesouro Selic quanto em papéis atrelados à inflação garantem proteção mínima do poder de compra, recomenda Felipe Sant'Anna, da Axia Investing. Ele orienta o investidor a segurar as atuais aplicações em carteira.
Não é momento de sair comprando e nem vendendo, desfazer carteira, porque o poupador pode logo se arrepender por ter vendido no fundo. Felipe Sant'Anna, da Axia
Outra dica é proteger o patrimônio contra oscilações dividindo as novas aplicações. O investidor deve priorizar a reserva de emergência no Tesouro Selic para garantir resgate rápido e, apenas com a sobra voltada ao longo prazo, comprar papéis atrelados à inflação para preservar o poder de compra. "Também considero razoável dividir os aportes, porque uma taxa atrativa hoje não impede que apareçam taxas maiores depois", recomenda Julio Carelli, cofundador e CSO da Formadores de Mercado.
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