Apesar do mal-estar inicial do mercado financeiro com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, parte dos bancos de investimento do país espera uma retomada das aberturas de capital na bolsa IPOs (Ofertas Iniciais de Ações) em 2027, apurou o UOL.
Passada a ressaca das eleições, o mercado financeiro começou a traçar estimativas para os próximos meses para o mercado de capitais, sobretudo em relação a potenciais empresas que devem estrear na bolsa e também sobre quais companhias abertas podem fazer novas ofertas de ações (follow-on, no jargão em inglês).
Havia uma expectativa na Faria Lima de que Flávio Bolsonaro (PL) vencesse o pleito, o que injetou otimismo no mercado financeiro, mas Lula foi reeleito com quase 4,5 milhões de votos de diferença, o que tem levado as instituições financeiras a rever suas estratégias.
Poucos dias após as eleições, Anderson Brito, presidente do banco de investimento do UBS BB, se reuniu com um grupo de dez executivos de fundos de investimentos com apetite a riscos para conversar sobre cenários para o Brasil.
É um time que conhece o Brasil. A expectativa é de que o Lula faça um ajuste (fiscal) moderado. Anderson Brito, presidente do banco de investimento do UBS BB.
Segundo ele, a visão geral dos fundos é de que os preços dos ativos no país estão baratos e que existem setores subpenetrados, ou seja, com potencial de expansão para as empresas.
Brito estima que serão lançadas de cinco a dez operações de IPOs a partir de 2027 e entre 15 e 20 transações de follow-on. Ele tem um viés mais otimista que a média do mercado e vê espaço para ofertas de empresas ligadas aos setores de infraestrutura e energia, óleo e gás, mineração e mercado financeiro.
À espera de definições sobre equipe econômica
Gabriela Evans, chefe da área de renda variável do Santander Brasil, também espera abertura do mercado, mas tem uma previsão mais moderada. Ela acredita na realização de "follow-ons" no ano que vem, em linha com os números de 2025 e 2026 (próximo a 10), mas para IPOs, contudo, é mais conservadora. Segundo ela, a janela de IPOs poderá vir apenas no segundo semestre. "É importante ver onde os níveis de valor dos ativos do mercado estarão".
A executiva diz que o mercado quer, primeiro, entender como serão os planos de ajuste fiscal do governo e quais serão os integrantes da equipe econômica, e impactos nos resultados das companhias e fluxo de capital de investidores internacionais.
Um grande banco de investimentos nacional, que falou sob reserva, também prevê operações para 2027, mas prefere esperar a sinalização do governo da nova equipe econômica para fazer projeções.
O UOL procurou outras instituições, mas elas não quiseram compartilhar suas expectativas para o tema. A visão geral é que o cenário ainda é incerto diante das indefinições sobre a agenda econômica do próximo governo Lula.
Até o momento, os nomes de Rafael Fonteles, governador petista reeleito do Piauí, e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), são apontados para o comando da Fazenda.
A expectativa é que as próximas aberturas de capital ocorram a partir de abril de 2027, após a divulgação dos resultados financeiros do quarto trimestre das empresas. Já as operações de "follow-on" podem começar a sair a partir de janeiro, segundo fontes de mercado. Nenhuma operação é esperada para este ano.
Embora evite fazer projeções, Evans não vê um movimento de fuga de capital do Brasil, reforçando o ponto de Brito de que a bolsa segue barata e investidores internacionais também fazem alocação de capital em mercados emergentes.
A executiva do Santander diz que ações de empresas mais resilientes, de setores com demanda mais estável, têm mais potencial de atrair investidores, enquanto companhias ligadas ao consumo perdem força no atual cenário.
Maré baixa para IPOs
Depois de uma seca de cinco anos, o único IPO de 2026 na B3 foi registrado em maio, com a Compass, empresa de gás do grupo Cosan, que levantou cerca de R$ 3 bilhões. Outros dois bancos, o Agibank e o PicPay, fizeram oferta na bolsa americana. Até o momento, foram dez follow-ons neste ano.
Ao todo, as 11 operações de oferta de ações no Brasil (entre IPOs e follow-ons) movimentaram R$ 34,8 bilhões neste ano, segundo a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
No ano passado, foram realizadas dez operações de follow-on, que movimentaram R$ 15,5 bilhões, de acordo com a entidade.
Quem está na fila para entrar na bolsa
A expectativa é de que empresas do setor de infraestrutura, energia e saneamento vão ao mercado buscar capital. No grupo das mais cotadas para estrear na bolsa estão Aegea e EPR. Essas companhias já tinham sido apontadas nos últimos meses para potencial IPO.
Fontes do mercado afirmam que o banco BV, Wellhub (ex-Gympass) e Quinto Andar, estariam também com interesse em entrar na bolsa.
Para follow-on, grupos de energia como Equatorial e Energisa, além da Copasa, são apostas da Faria Lima. No entanto, não há negociações em andamento para essas ofertas neste momento.
Queda do juro é ponto de atenção
O mercado ainda está depurando os resultados das eleições e aguardando os futuros nomes que devem compor o governo de Lula 4.
Para Christopher Garman, diretor-executivo das Américas do grupo Eurasia, que concedeu entrevista ao UOL na última terça-feira (27), o comportamento do mercado de capitais dependerá muito da possibilidade de criar condições para reduzir os juros. "Se isso não acontecer, o mercado tende a permanecer fechado."
A Faria Lima é a principal interessada na retomada das ofertas de ações, mas a viabilidade das operações dependerá das perspectivas macroeconômicas e fiscais do país, que ainda são uma incógnita no governo de Lula 4.
Procurado pelo UOL, o Quinto Andar afirmou que "hoje já opera com escala, solidez e rentabilidade, o que garante total autonomia sobre nossos planos estratégicos". "O IPO está no horizonte, mas nossa prioridade continua sendo oferecer a melhor experiência para nossos clientes, potencializada por tecnologia e inteligência artificial."
A Energisa informou que não tem previsão de fazer follow-on. A Aegea não vai comentar o assunto.
Em nota, a Copasa informou que não comenta especulações de mercado nem projeções de analistas sobre assuntos estratégicos, incluindo eventuais operações financeiras. "A companhia reforça seu compromisso com a transparência e ressalta que qualquer ato ou fato relevante relacionado à sua estrutura de capital ou a decisões estratégicas é divulgado ao mercado e aos acionistas por meio dos canais oficiais."
As outras empresas citadas não retornaram os pedidos de entrevista até o fechamento desta edição.
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