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Economia UOL Economia há 1 h • 2026-10-30 23:05:23

Ataque à Binance reacende debate sobre segurança de criptomoedas

Ataque à Binance reacende debate sobre segurança de criptomoedas

O ataque de US$ 6,3 bilhões à Binance, uma das maiores corretoras de criptomoedas do mundo, não exigiu que os invasores quebrassem a criptografia do bitcoin. Segundo a empresa, os criminosos acessaram seus sistemas internos e conseguiram fazer com que a própria estrutura da corretora autorizasse transferências indevidas.

O episódio expõe uma diferença importante para quem investe em criptomoedas: a segurança da rede que registra as transações não é a mesma dos sistemas utilizados pelas empresas responsáveis por guardar e movimentar esses ativos.

O valor roubado supera em mais de quatro vezes os US$ 1,5 bilhão levados da Bybit em 2025, até então o maior ataque conhecido contra uma corretora de criptomoedas.

Apesar da dimensão da perda, o bitcoin chegou a recuar cerca de 5% nas horas seguintes à divulgação do ataque, uma reação relativamente limitada diante do montante roubado. A promessa da Binance de cobrir o prejuízo com recursos próprios e a cooperação entre empresas para bloquear parte dos ativos ajudaram a conter a preocupação dos investidores.

Como os invasores conseguiram roubar as criptomoedas?

Segundo Richard Teng, co-CEO da Binance, a investigação inicialmente identificou um laptop comprometido, mas depois encontrou outros pontos de invasão. Os responsáveis acessaram sistemas internos e conseguiram autorizar movimentações em uma carteira quente sem passar pelos controles normais de aprovação.

Carteiras quentes são estruturas utilizadas para guardar e movimentar criptomoedas que permanecem conectadas à internet. Essa conexão permite realizar transferências rapidamente, mas também aumenta a exposição a ataques.

Teng afirmou que os invasores apagaram ferramentas e rastros durante a operação, dificultando a investigação. A Binance suspendeu temporariamente os saques para verificar e reconstruir sua infraestrutura.

Para Samir Kerbage, diretor de investimentos (CIO) da Hashdex, o ponto central é que os criminosos não precisaram alterar as regras da rede utilizada para registrar as operações. Eles conseguiram comprometer os sistemas responsáveis por autorizar as transferências.

A transação foi válida, foi assinada pela Binance, só que o atacante teve acesso aos sistemas da Binance. Samir Kerbage, CIO da Hashdex

Para entender a diferença, é preciso saber como funcionam as criptomoedas. As transações são registradas em uma blockchain, espécie de livro de registros digital compartilhado entre computadores. A rede utiliza mecanismos criptográficos para verificar se uma movimentação foi autorizada.

O problema é que uma transação pode ser tecnicamente válida para a rede e, ainda assim, ter sido realizada por um criminoso que conseguiu acesso indevido aos sistemas de quem controla os ativos.

Star Xu, fundador e CEO da corretora OKX, afirmou que ainda não havia evidências conclusivas de vazamento da chave privada da carteira quente da Binance. Essa chave funciona como uma credencial criptográfica utilizada para autorizar movimentações.

Segundo Xu, o ataque pode estar relacionado a falhas nos controles de acesso e nos sistemas de gerenciamento das carteiras, sem necessariamente envolver o vazamento dessa chave.

Fabrício Tota, vice-presidente de Negócios Cripto do Mercado Bitcoin (MB), também destaca a sofisticação da invasão. Para ele, o episódio exige uma avaliação não apenas das falhas exploradas pelos criminosos, mas das medidas que poderiam evitar ataques semelhantes em outras plataformas.

O executivo considera que a principal lição é a necessidade de revisar os controles sobre os recursos mantidos conectados à internet. Segundo ele, a discussão envolve tanto as decisões de segurança de cada corretora quanto as exigências que devem ser estabelecidas pelos reguladores.

Inteligência artificial ou computação quântica tiveram participação?

A sofisticação da invasão não significa que os criminosos tenham utilizado inteligência artificial. Nas informações divulgadas pela Binance e nas declarações examinadas para esta reportagem, não há confirmação de que ferramentas de IA tenham participado do ataque.

Também não há evidências de que computadores quânticos tenham sido utilizados para quebrar a criptografia das criptomoedas.

A computação quântica é uma tecnologia que utiliza princípios da física para realizar determinados tipos de cálculo. No futuro, computadores quânticos suficientemente avançados poderão representar uma ameaça a alguns sistemas criptográficos utilizados atualmente.

Isso, porém, é diferente do que foi descrito no ataque à Binance.

Questionado sobre essa possibilidade, Kerbage descartou uma relação entre o episódio e uma eventual quebra da criptografia da blockchain. "Não tem nada a ver com isso", afirmou.

Segundo o especialista, as informações disponíveis apontam para o comprometimento dos sistemas internos da corretora, e não para uma descoberta capaz de comprometer a segurança das redes de criptomoedas.

Tota observa que a inteligência artificial também vem sendo utilizada por criminosos para identificar e explorar vulnerabilidades em sistemas digitais. O executivo, porém, não atribui especificamente à IA a invasão da Binance.

Xu também considera que o uso de inteligência artificial em ataques e a necessidade de desenvolver sistemas criptográficos resistentes à computação quântica são desafios importantes para o setor. Ele defende pesquisas conjuntas e padrões de segurança compartilhados, mas não atribui a essas tecnologias a invasão da Binance.

Por que o bitcoin não caiu tanto quanto o valor roubado sugeria?

Para Kerbage, a reação do mercado foi relativamente contida diante da dimensão do ataque.

A reação do preço foi até menor do que se esperaria considerando a magnitude desse ataque. Samir Kerbage, CIO da Hashdex

O especialista atribui o comportamento à rapidez na identificação e interrupção da invasão, ao bloqueio de parte dos recursos e à comunicação do episódio ao mercado. A promessa da Binance de assumir o prejuízo também ajudou a reduzir o receio de perdas entre os clientes.

Teng afirmou que a corretora reservou mais de US$ 6,34 bilhões de recursos próprios para repor os ativos roubados. Desse total, US$ 5 bilhões já estavam disponíveis nas mesmas criptomoedas atingidas, enquanto a empresa adquiria os valores restantes no mercado e em negociações diretas.

A Binance sustenta que a carteira atingida continha recursos da própria companhia e que os ativos dos usuários não foram afetados.

"A corretora foi transparente, notificou o mercado inteiro e já anunciou que vai cobrir os prejuízos", afirmou Kerbage.

A distinção é relevante porque um prejuízo absorvido pela empresa tem consequências diferentes de uma situação em que os clientes perdem seus investimentos ou não conseguem retirar os recursos.

Isso não significa que a confiança no setor tenha saído intacta. Para Xu, uma falha grave em qualquer corretora pode prejudicar a percepção de segurança de toda a indústria. Ele também alerta que plataformas que nunca sofreram ataques relevantes não devem se considerar imunes.

É mais seguro deixar criptomoedas na corretora ou em uma carteira própria?

O ataque reacendeu o debate sobre custódia, nome dado à responsabilidade de guardar os ativos e controlar as chaves necessárias para movimentá-los.

Quando um investidor mantém criptomoedas em uma corretora, normalmente depende dos sistemas da empresa para acessar e transferir os recursos. Isso facilita as negociações, mas também significa confiar nos controles de segurança da plataforma.

Segundo Kerbage, as corretoras funcionam como uma infraestrutura de liquidez, permitindo que clientes comprem, vendam e movimentem criptomoedas rapidamente. Essa necessidade de operar continuamente amplia os pontos que podem ser explorados por invasores.

As carteiras quentes, conectadas à internet, são utilizadas para facilitar essas movimentações. Já as carteiras frias mantêm as chaves de acesso fora de sistemas permanentemente conectados à rede, reduzindo a exposição a determinados ataques.

Para Tota, essa diferença é central na discussão sobre segurança. O executivo afirma que as corretoras precisam manter recursos disponíveis para atender aos saques, mas considera que a parcela armazenada em carteiras quentes deve ser a menor possível.

Segundo ele, a maior parte dos ativos deveria permanecer em carteiras frias, reduzindo a exposição a ataques realizados pela internet. O desafio é encontrar um equilíbrio entre a segurança dos recursos e a rapidez exigida pelos clientes.

Tota compara esse equilíbrio aos limites de transferências bancárias pelo Pix. Assim como os bancos impõem restrições a determinadas movimentações para reduzir o risco de fraudes, as corretoras podem adotar limites e verificações adicionais para saques de criptomoedas.

Na avaliação do executivo, permitir transferências elevadas a qualquer momento exige manter mais recursos disponíveis em sistemas conectados à internet. Restrições maiores podem tornar o processo menos conveniente, mas ajudam a reduzir a exposição.

O Mercado Bitcoin, segundo Tota, prefere essa segunda abordagem, com limites mais restritivos e procedimentos adicionais para movimentações excepcionais.

Segundo Teng, a maior parte dos ativos dos usuários da Binance fica em carteiras frias. Os recursos são transferidos para carteiras quentes conforme a necessidade de atender aos pedidos de saque.

Em nota enviada ao UOL, a BBrasil SPSAV, entidade responsável pelo atendimento aos usuários brasileiros, afirmou que os fundos dos clientes permanecem seguros e que observa os requisitos de segregação estabelecidos pelo Banco Central.

Outra alternativa é a autocustódia, em que o próprio investidor controla as chaves de acesso às suas criptomoedas, sem depender de uma corretora para autorizar as movimentações.

Essa modalidade reduz a exposição a falhas de terceiros, mas transfere a responsabilidade pela segurança ao usuário. Se as chaves forem perdidas ou roubadas, os ativos podem se tornar inacessíveis ou ser transferidos sem possibilidade de recuperação.

Tota ressalta que a autocustódia também envolve dificuldades. Segundo ele, guardar criptomoedas por conta própria exige cuidados com dispositivos, cópias de segurança e proteção das credenciais. A possibilidade de controlar diretamente os ativos não significa que essa seja necessariamente a alternativa mais simples para todos os investidores.

Kerbage considera prudente evitar que valores elevados permaneçam desnecessariamente em corretoras, mas ressalta que a autocustódia exige conhecimento e cuidados específicos.

"Mesmo com a autocustódia, você não está 100% seguro", afirmou.

Fundos e ETFs oferecem outra alternativa. Esses investimentos permitem acompanhar a valorização ou desvalorização de criptomoedas sem que o investidor precise administrar diretamente as chaves de acesso.

Segundo Kerbage, esses veículos podem utilizar estruturas de custódia institucional, segregação de recursos e controles adicionais de segurança. Isso reduz determinados riscos operacionais, mas não elimina a possibilidade de ataques nem protege contra oscilações dos preços.

O que pode mudar na segurança das corretoras?

Uma das principais propostas discutidas após o ataque é ampliar a cooperação entre corretoras, empresas que emitem criptomoedas e organizações responsáveis por monitorar transações.

Xu defende a criação de sistemas de alerta em tempo real para identificar movimentações suspeitas e permitir o bloqueio de recursos antes que sejam transferidos novamente ou passem por operações destinadas a dificultar seu rastreamento.

O episódio mostrou a importância dessa cooperação. Em publicação compartilhada por Xu, Jeremy Allaire, CEO da Circle, informou que a empresa congelou mais de 800 milhões de USDC associados ao ataque, em coordenação com autoridades.

O USDC é uma stablecoin, tipo de criptomoeda que busca manter seu valor próximo ao de uma moeda tradicional, neste caso o dólar. Diferentemente do bitcoin, esses ativos podem contar com mecanismos administrados por seus emissores para bloquear determinadas movimentações.

Xu também propõe verificações adicionais e períodos de espera para grandes saques destinados a endereços desconhecidos. Outra medida seria aplicar restrições diretamente na etapa de assinatura criptográfica das transações, dificultando transferências indevidas mesmo quando outros sistemas forem comprometidos.

No Brasil, Tota considera que a regulamentação das empresas de criptoativos abre espaço para discutir exigências mais específicas de segurança. Segundo ele, o Mercado Bitcoin solicitou autorização para atuar nas diferentes atividades previstas, incluindo a custódia de ativos digitais.

O executivo destaca que a discussão regulatória deve considerar quanto dos recursos das corretoras pode permanecer em carteiras quentes, quais controles precisam ser adotados e que informações devem ser prestadas aos supervisores.

Tota também defende que as regras considerem o equilíbrio entre facilidade de movimentação e proteção dos clientes. Na avaliação dele, procedimentos adicionais para saques elevados podem reduzir a conveniência, mas funcionam como barreiras contra perdas de grande escala.

A Binance anunciou uma revisão de equipamentos, infraestrutura em nuvem, gerenciamento de chaves e mecanismos de autorização de operações. A corretora também prometeu divulgar uma prova de reservas, procedimento que permite verificar a existência de determinados ativos mantidos pela plataforma, embora não substitua uma auditoria completa de segurança.

Para Kerbage, ataques a corretoras são um risco recorrente no mercado de criptomoedas. Neste caso, a dimensão do roubo chamou atenção, mas a resposta da empresa e a cooperação para bloquear recursos ajudaram a limitar seus efeitos imediatos.

O episódio deixa uma distinção importante para os investidores: a segurança de uma criptomoeda não depende apenas da tecnologia da blockchain. Também envolve os sistemas das empresas que armazenam os ativos, as pessoas autorizadas a movimentá-los e os mecanismos utilizados para impedir transferências indevidas.

Escolher entre corretora, autocustódia ou fundos significa, portanto, escolher diferentes formas de administrar esses riscos. Nenhuma delas oferece proteção absoluta.

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