Em seu primeiro pronunciamento após fugir para os Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL) fez acusações infundadas de fraude na eleição presidencial e mentiu ao dizer que seu grupo político "não tem a liberdade necessária" para atividade no Brasil.
Flávio deixou o país por meio de uma operação secreta com apoio do governo argentino. O senador é investigado pelo STF (Supreom Tribunal Federal) em dois inquéritos, um por lavagem de dinheiro com o advogado Willer Tomaz, e outro que envolve os repasses do filme "Dark Horse", dentro do caso Master.
Mas ele não tem atualmente nenhum mandado de prisão contra ele, apenas houve um pedido de apreensão de passaportes, que ele descumpriu, então os documentos foram cancelados.
Não houve fraude eleitoral
Na carta golpista divulgada à imprensa hoje, Flávio cita "fraude eleitoral" no resultado das eleições do último domingo. O candidato derrotado cita a decisão do STF que prorrogou o prazo de votação por duas horas. "Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível", disse.
A acusação é infundada já que o Tribunal Superior Eleitoral já divulgou que foram registrados pouco menos de 35 mil votos após as 17h no segundo turno das eleições. Ao todo, o país registrou 128 milhões de votos, dos quais mais de 64 milhões foram para Lula (PT), contra 59,8 milhões para ele.
Flávio não cita também que sua própria campanha pediu a ampliação do tempo de votação —no caso da equipe do senador, a solicitação era para determinados estados em que houve consequências adversas de eventos climáticos.
O resultado das urnas, que deu vitória ao presidente Lula para o seu quarto mandato, foi reconhecido pelo TSE e por observadores internacionais. O presidente do partido de Flávio, Valdemar Costa Neto, também reconheceu a derrota para Lula.
Hoje, Kassio reiterou em nota que as eleições "transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais".
Família tem 3 eleitos para 2027
Flávio diz também que a família de um ex-presidente, no caso de seu pai Jair Bolsonaro (PL), é "tratada como inimiga do Estado". O senador, no entanto, foi o único da família que não foi eleito neste pleito.
No Senado, dois representantes conseguiram uma cadeira: sua madrasta, Michelle, pelo Distrito Federal, e seu irmão, Carlos, por Santa Catarina. Na Câmara, o filho caçula de Bolsonaro, Jair Renan, também conseguiu uma vaga. O mandato de Flávio no Senado se encerra em 31 de janeiro.
Decisão de Zanin foi dentro da lei
"A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno", diz trecho da carta do senador sobre decisão do ministro Cristiano Zanin.
A determinação ocorreu após inércia do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, sobre o tema. Para especialistas, a decisão de Zanin abarcou o pedido de ambas as campanhas. Nunes Marques, indicado por Bolsonaro ao cargo, também referendou a decisão do colega do Supremo horas depois.
Houve demora em comunicar a decisão aos mesários, o que dificultou que a votação fosse estendida em todos os lugares. Urnas fechadas não puderam receber novos votos. Mas o STF é o órgão revisor de decisões do TSE, por ser o guardião da Constituição.
Ao citar uma "impossibilidade matemática" para virada de Lula, Flávio repete uma das desinformações espalhadas nos últimos dias. Conforme o UOL Confere mostrou, o segundo turno presidencial registrou queda no número de abstenção, o que representou cerca de 3 milhões de votos a mais. O índice de votos brancos e nulos também caiu, o que significou 1,8 milhão de votos a mais.
Existe liberdade política
No texto, Flávio diz que seu grupo não tem "liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política". Apenas o PL, seu partido, tem uma bancada na Câmara com 121 deputados federais eleitos e 28 senadores entre eleitos e ainda com mandato. Eles vão formar um dos maiores blocos no Congresso.
O senador também escolhe não citar, por exemplo, que os deputados mais votados do país, conforme registro das urnas eletrônicas, são do seu partido. Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) receberam mais de 3 milhões de votos cada um.
O PL também foi o partido que mais recebeu fundo eleitoral no país neste ano, pelo tamanho de sua bancada. Foram R$ 881,6 milhões —a legenda saiu na frente de siglas como o PT, com R$ 615,3 milhões, e União Brasil, com 526,2 milhões.
Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime.Flávio Bolsonaro, em comunicado após chegar aos EUA
Regime democrático
Flávio afirmou ter saído de "um regime de exceção" no Brasil. A declaração do senador também é falsa, já que o país não se encontra nessa modalidade —o Brasil foi redemocratizado há 41 anos e vive o chamado Estado de Direito, respeitando a Constituição de 1988.
Ele disse ainda não ter fugido do Brasil. O senador não é considerado foragido, mas deixou o país após descumprir uma decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes para entregar seus passaportes.
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