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UOL Economia há 2 d • Seg, 26 Out 2026 16:26:48 -0300

Mercado apostou errado e pode errar de novo se apostar em Lula radical

Mercado apostou errado e pode errar de novo se apostar em Lula radical

O fortíssimo e abrupto ajuste de posições no mercado financeiro, nesta segunda-feira (26), primeiro pregão depois da vitória do presidente Lula na corrida eleitoral de 2026, pode ser explicado por um antigo provérbio popular: "quanto maior a altura, maior o tombo".

Com base numa aposta que se mostrou equivocada, os operadores do mercado financeiro vinham impulsionando as cotações de diversos ativos para cima, como no caso da Bolsa de Valores, e para baixo, como na cotação do dólar e nas taxas de juros futuros.

Fichas demais na vitória eleitoral do candidato de oposição a Lula, o senador bolsonarista Flávio Bolsonaro, sem a devida base técnica e sem as necessárias cautelas, levaram os mercados a operar em terreno explosivo.

A reversão, contudo, também está sendo exagerada, permitindo prever um ajuste também mais rápido. A aposta de que Lula, em seu quarto e último mandato presidencial, manterá uma política econômica de estresse fiscal está na origem do derretimento dos mercados. Também nesta avaliação, os mercados podem estar errando mais uma vez.

Na noite deste domingo (25), nos discursos da vitória, Lula já deu sinais de que seu novo governo fará correções relevantes de rumo. É legítimo acreditar que essas correções serão amplas.

O espaço a seu vice, Geraldo Alckmin, político egresso do centro liberal, nas falas públicas pós-vitória, por exemplo, foi sinal simbólico mais do que eloquente do reconhecimento de Lula da necessidade de recompor, agora com mais firmeza, a frente ampla que o levou a vencer a eleição de 2022 contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de seu oponente em 2026, da qual Lula se distanciou ao longo de seu terceiro mandato.

Se gostam de apostar, os operadores do mercado deveriam agora considerar a hipótese da adoção por Lula de uma política econômica mais ativa na busca do equilíbrio fiscal — ou pelo menos da indicação clara de contenção de excessos e mitigação da trajetória explosiva da dívida pública.

Isso, por sinal, não seria novidade. Em 2002, quando se prenunciou sua vitória na eleição contra José Serra, os mercados desabaram, mas, já no primeiro ano de seu primeiro mandato, se reequilibraram, com resultados positivos e consistentes nos anos seguintes.

Já é episódio da História a publicação da "Carta aos Brasileiros" em que Lula prometia respeitar contratos e fazer um governo que, sem abandonar suas promessas de ampliação dos programas sociais, conduziria a economia sem os radicalismos que se poderiam esperar do líder sindical esquerdista.

A principal vantagem da continuidade de Lula à frente do governo é a de que, diferentemente de seu oponente, a história do político reeleito é muito bem conhecida. Enquanto com Flávio Bolsonaro o país daria um salto no desconhecido, com Lula se sabe razoavelmente bem o que virá pela frente.

Esse maior conhecimento de como Lula funciona permite prever até mesmo um novo Lula mais austero em termos fiscais. Pragmatismo é uma marca consistente de sua história como político e governante, que se apoia na sua própria autodefinição como "metamorfose ambulante".

Embora contenha um ponto de otimismo, não deixa de ser realista imaginar que Lula montará sua nova equipe econômica de olho numa maior necessidade de negociação com um Congresso hostil e dará prioridade, na economia, a medidas de contenção de excessos fiscais.

Isso não significa que Lula abrirá mão dos programas sociais que marcam seus governos, inclusive aqueles novos lançados durante a atual campanha eleitoral, tipo ampliação do "Pé de Meia", mais benefícios para MEIs e transporte gratuito nos fins de semana nas cidades. Nem que congelará o salário mínimo para aposentadorias.

Há caminhos para reduzir gastos e mesmo ampliar a arrecadação, rumo a superávits fiscais, sem recorrer a "tesouraços", como o prometido — e depois negado sem convicção — pela campanha de Flávio Bolsonaro.

Para começar, "tesouraços" são impossíveis de serem executados em curto prazo, com a quantidade de travas constitucionais que amarram despesas.

Depois, não há como escapar de recessões e/ou inflações ou, pior, de ambas em conjunto, se cortes generalizados e mal calibrados forem feitos em curto prazo.

Existe à disposição uma variedade de estudos que traçam roteiros de reformas e aplicação de limites graduais, em diversos itens dos gastos públicos, sem prejudicar beneficiários legítimos de programas sociais.

Por exemplo, em "Políticas para controlar o déficit fiscal: uma avaliação de médio prazo", de junho deste ano, os especialistas em política fiscal Manoel Pires e Bráulio Borges, do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas), mostram, entre outras medidas, como é possível rever e adequar mínimos constitucionais sem cortar recursos para Saúde e Educação, reformar e elevar o Imposto de Renda beneficiando os de renda mais baixa, promover ajustes sem reduzir o atendimento aos realmente elegíveis a programas como o BPC (Benefício de Prestação Continuada) e assim por diante.

Se a carga tributária média brasileira é alta, mais próxima à de países de economia madura do que de emergentes como o Brasil, ela, como em outros setores, é muito mal distribuída e em favor dos que poderiam contribuir mais.

A reforma tributária do consumo, um feito deste último governo Lula, depois de 40 anos de debates, tende, caso sua aplicação não sofra desvios, a mitigar um dos mais graves — e de maiores consequências negativas — defeitos do atual sistema tributário: taxar mais quem pode contribuir menos.

Se a tributação efetiva recaísse sobre quem pode contribuir mais — o que seria conseguido com reformas no IR de pessoas físicas e nos tributos sobre patrimônio — as necessidades e o esforço tributário geral, obviamente, seriam menores.

Não há falta de diagnósticos bem embasados, nem de indicação das medidas técnicas capazes de encaminhar a solução para os problemas. A dificuldade é política. Como evitar que os mais poderosos, bem representados no Congresso, capturem os Orçamentos é a questão central.

Ao remontar a base mais ampla de apoio que se formou para elegê-lo em 2022, mas que não cultivou ao longo do terceiro mandato, e com a sustentação que ganhou das ruas, que o empurraram à vitória no domingo, Lula pode reunir condições mínimas para governar com eficiência, garantir efetiva atenção ao problema fiscal e fazer o país retomar o caminho de um crescimento mais sustentável e disseminado.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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Fonte da Notícia: UOL Economia
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