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Exame IN Exame (Negócios e Economia) há 92 d • 29/07/2026 12:04

Aegon alerta para risco subestimado antes da decisão do Fed — e ele passa pelo Brasil

Aegon alerta para risco subestimado antes da decisão do Fed — e ele passa pelo Brasil

Em entrevista exclusiva, Frank Rybinski, chefe de estratégia macro da gestora de US$ 340 bilhões, diz que o cenário exige mais cautela com crédito privado e ativos brasileiros

Publicado em 29 de julho de 2026 às 12:04.

Última atualização em 29 de julho de 2026 às 16:12.

Mesmo com o crescimento do crédito privado e a valorização do real, o maior risco para os investidores continua vindo da política monetária americana. Na avaliação de Frank Rybinski, chefe de estratégia macro da Aegon Asset Management, gestora de US$ 340 bilhões, o Federal Reserve (Fed) pode voltar a elevar os juros caso a inflação volte a pressionar a economia, cenário que teria impacto direto sobre o crédito global e os ativos brasileiros.

"Hoje, o risco de corte de juros é menor do que o de voltar a elevá-los. O mercado futuro atualmente precifica duas altas de juros até a primavera de 2027", diz Rybinski em entrevista exclusiva ao EXAME Insight. "Se o Federal Reserve cortar os juros em breve, isso provavelmente será consequência de um choque exógeno que ameace a dinâmica de crescimento da economia", prossegue.

Para Rybinski, o ideal é que os juros permaneçam em um "ponto de equilíbrio": suficientemente altos para desestimular concessões de crédito excessivamente arriscadas, mas baixos o bastante para atender às necessidades de financiamento de empresas lucrativas.

"Historicamente, isso implica uma curva de juros com inclinação positiva", explica.

A taxa básica de juros dos Estados Unidos está na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano desde dezembro de 2025, após o Federal Reserve promover um corte de 0,25 ponto percentual. Desde então, o banco central americano manteve os juros inalterados.

Crédito privado no centro da estratégia

Nos últimos dois anos, o crédito privado voltou a ganhar espaço nas carteiras de investidores institucionais e registrou forte captação, a despeito das elevadas taxas de juros. Os ativos sob gestão da indústria saltaram de US$ 158 bilhões em 2010 para quase US$ 2 trilhões em 2024, enquanto investidores institucionais elevaram sua exposição à classe de ativos.

"Os juros mais altos abriram essa porta, mas a verdadeira história é que o crédito privado amadureceu e deixou de ser um nicho alternativo para se tornar um mercado central de financiamento", diz Rybinski.

Apesar da forte expansão do crédito privado, o ciclo de juros elevados aumentou a pressão sobre empresas de médio porte altamente alavancadas. Segundo a S&P, o default rate do universo de crédito privado era de 0,5% no acumulado de 12 meses até o primeiro trimestre de 2024, abaixo dos cerca de 2% observados em outros setores.

Ainda assim, para Rybinski, a classe de ativos tem demonstrado resiliência por meio de renegociações e proteções contratuais. "O mercado não está livre de estresse, mas até agora foi capaz de absorver essas pressões sem gerar perdas expressivas", diz.

Onde está o risco

Por outro lado, o economista alerta para um fator que será decisivo caso o crescimento econômico global desacelere nos próximos anos: a resiliência genuína do crédito em cenários de estresse prolongado.

"A principal questão é saber se estamos diante de um adiamento no reconhecimento das perdas", diz.

Segundo Rybinski, a preocupação não é com o ativo, mas com determinadas safras de operações, como aquelas alavancadas, chamadas de Leveraged Buyout (LBO), com uma grande proporção de dinheiro emprestado.

"As operações realizadas em 2021 e 2022, em particular, formam uma safra mais fraca, e já vimos refinanciamentos bastante desafiadores nesse grupo", diz.

Por isso, a Aegon evita fazer negócio com empresas que dependem de refinanciamento constante.

"À medida que os vencimentos das dívidas se aproximam, o risco de refinanciamento aumenta. Qualquer empresa cujo modelo dependa da manutenção permanente de mercados de capitais abertos e favoráveis merece um escrutínio adicional", explica.

E o Brasil com isso

Para Rybinski, o real já capturou boa parte dos ganhos proporcionados pelo diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. Por isso, a tendência agora é de maior vulnerabilidade da moeda a choques externos.

Desde o início de 2025, o real passou de um dos piores desempenhos entre as moedas emergentes para uma das mais valorizadas frente ao dólar. Em julho de 2026, o dólar era negociado próximo de R$ 5,10, contra níveis superiores a R$ 6,20 no fim de 2024, o que representa uma valorização do real de aproximadamente 18% nesse período. "O real teve um desempenho muito forte nos últimos meses e dificilmente continuará se valorizando nesse ritmo, o que aumenta a probabilidade de uma correção provocada por um choque externo", alerta Rybinski.

Nesse cenário, ele sugere migrar parte dos investimentos locais para ativos denominados em dólar ou outras moedas fortes.

"O principal motivo para investir fora do Brasil seria a expectativa de um cenário de maior aversão ao risco, que provavelmente levaria a uma forte desvalorização do real frente a moedas fortes, além do risco de a política monetária brasileira perder credibilidade", diz.

Além do "risco Brasil", para Rybinski, investir em crédito global é uma forma de construir um portfólio mais equilibrado e resiliente. "Haverá períodos em que o Brasil oferecerá as melhores oportunidades e outros em que os mercados internacionais serão mais atrativos", diz.

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Jornalista com experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pela redação de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico. Contato em pedro-b.gil@exame.com

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