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Invest Exame (Negócios e Economia) há 93 d • 29/07/2026 12:03

Preferimos jogar seguro diante da incerteza macro, diz CFO do Santander após balanço

Preferimos jogar seguro diante da incerteza macro, diz CFO do Santander após balanço

Balanço do Santander Brasil: desempenho dá sequência à trajetória de queda vista no início do ano, quando o banco havia reportado lucro de R$ 3,788 bilhões no primeiro trimestre (Divulgação/Site Exame)

Publicado em 29 de julho de 2026 às 12h03.

O Santander Brasil (SANB11) está sacrificando receita de forma deliberada para tornar sua carteira de crédito mais conservadora. A estratégia, que explica boa parte da queda do lucro e da rentabilidade no 2° trimestre deste ano, foi defendida pelo CFO da instituição, Carlos Muñiz Gonzalez-Blanch, durante conversa com analistas após a divulgação do balanço nesta quarta-feira, 29.

Segundo o diretor financeiro, o banco prefere abrir mão de operações mais lucrativas no curto prazo para reduzir a exposição aos segmentos de maior risco diante das incertezas macroeconômicas. "Gostaria de ter as receitas bombando, mas, com as dúvidas que temos sobre o entorno macro, prefiro jogar um pouco mais seguro, mesmo que isso esteja custando no curto prazo", afirmou.

O banco reportou lucro líquido gerencial recorrente de R$ 3,014 bilhões no segundo trimestre, queda de 20,4% em relação aos três meses anteriores e de 17,6% na comparação anual. A rentabilidade medida pelo retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) caiu para 12,5%, distante da meta de 20% perseguida pela instituição.

O desempenho dá sequência à trajetória de queda vista no início do ano, quando o banco havia reportado lucro de R$ 3,788 bilhões no primeiro trimestre, pressionado pelo que a instituição chamou de cenário macroeconômico desafiador.

Gonzalez-Blanch reforçou, contudo, que a estratégia do banco passa por reduzir a concessão de crédito em segmentos de maior risco e maior retorno, priorizando operações garantidas, clientes de renda mais elevada e modalidades consideradas mais seguras, como crédito imobiliário, consignado e financiamentos com garantias.

"Estamos deixando de lado os produtos mais rentáveis. Estamos diminuindo os rotativos, todos os produtos com margens muito altas e focando em operações com garantias", disse.

A mudança de perfil ajuda a explicar a compressão da margem financeira do banco. No trimestre, a margem financeira bruta caiu 3%, para R$ 15,34 bilhões, enquanto o spread médio recuou para 10,03% ao ano. A carteira passou a concentrar clientes considerados menos arriscados, mas que naturalmente pagam taxas menores.

Camila Stolf Toledo, diretora de Relações com Investidores do Santander, explicou que esse efeito de composição continuará pressionando as receitas por algum tempo. Segundo a executiva, além do impacto da queda da Selic sobre o custo de captação e do aumento das despesas com correspondentes bancários, a principal pressão vem justamente da mudança no perfil da carteira.

"O mix é a parte que mais tem pressionado. Hoje, mais de 40% da carteira de pequenas e médias empresas já possui garantia. Na pessoa física, tivemos crescimento de 8% no segmento Select, enquanto a baixa renda apresentou queda de 8%. Num primeiro momento isso pressiona a receita, mas esperamos colher esses benefícios ao longo do tempo", afirmou.

A estratégia de trocar volume por qualidade também aparece na composição da carteira de crédito. Enquanto operações como cartão de crédito e crédito imobiliário cresceram, modalidades voltadas ao público de menor renda perderam espaço. A exposição a clientes com renda inferior a R$ 4 mil recuou cerca de 30% em doze meses, segundo os executivos.

Se, por um lado, essa mudança reduz o risco da carteira, por outro ela ainda não foi suficiente para aliviar as despesas com provisões para perdas.

A provisão para devedores duvidosos (PDD) somou R$ 7,654 bilhões no trimestre, alta de 20,6% em relação ao trimestre anterior. Parte desse aumento decorreu de fatores considerados extraordinários pelo banco.

Toledo explicou que aproximadamente R$ 700 milhões do aumento das provisões vieram de dois eventos específicos, o de reforços em casos pontuais envolvendo grandes empresas e a implementação de uma nova política de baixa a prejuízo (write-off), principalmente em operações sem garantia.

Segundo Gonzalez-Blanch, o banco ainda precisará atualizar seus modelos de risco para refletir um cenário macroeconômico mais deteriorado, o que pode manter a pressão sobre as provisões. "O cenário macro que teremos de incorporar este ano provavelmente será pior do que o que temos hoje nos modelos", afirmou.

O índice de inadimplência acima de 90 dias permaneceu em 3,3%, mas a pressão continuou concentrada na pessoa física, especialmente entre clientes de menor renda. Carlos observou que, fora desse segmento, a qualidade da carteira já apresenta estabilidade ou melhora. "O restante das carteiras já está estável ou inclusive melhorando", afirmou.

Questionado sobre os efeitos do novo programa Desenrola, chamado de Desenrola 2.0, o CFO afirmou que a iniciativa teve impacto limitado sobre os resultados do Santander. Gonzalez-Blanch afirmou o banco já adotava antes do programa uma política agressiva de renegociação de dívidas, com descontos relevantes para clientes considerados aptos a retomar os pagamentos, o que reduziu o potencial de ganho adicional com a iniciativa do governo.

A diretora de Relações com Investidores também acrescentou que a adesão dos clientes permaneceu baixa, embora tenha sido ligeiramente superior à observada na primeira edição do Desenrola. "O programa não trouxe um aumento significativo no volume de recuperações", afirmou Toledo.

Questionado pelos analistas de grandes bancos sobre quando a rentabilidade poderá voltar a patamares mais próximos dos registrados anteriormente, o CFO demonstrou confiança de que a recuperação ocorrerá ao longo de 2027, à medida que a nova carteira passe a representar uma parcela maior dos ativos do banco.

"Acredito que no ano que vem vamos voltar para patamares bastante mais razoáveis. O grupo vai nos cobrar para que cheguemos lá", afirmou.

O executivo destacou que a melhora dependerá principalmente da maturação das novas safras de crédito, da normalização das provisões e do crescimento de receitas menos dependentes da atividade de crédito, como seguros, consórcios e serviços financeiros.

Apesar da expectativa de recuperação, Carlos evitou fazer projeções mais otimistas para o cenário macroeconômico. Segundo ele, a proximidade das eleições torna difícil estimar quais premissas econômicas deverão ser utilizadas nos modelos internos do banco.

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