O euro enfrenta uma onda de pessimismo nos mercados internacionais, pressionado pela crise política e fiscal na França, pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e pelo encarecimento da energia. Desde agosto, a moeda europeia perdeu cerca de 3,5% de seu valor frente ao dólar, enquanto as apostas de grandes investidores em uma desvalorização adicional cresceram 57% em apenas uma semana.
A pressão também aparece no Brasil, onde o euro acumula queda de 12,6% em 2026, movimento que reflete tanto a fraqueza da moeda europeia quanto a valorização do real. Em meio às incertezas, análises do Goldman Sachs e da Capital Economics indicam que os problemas econômicos e políticos da Europa podem continuar dificultando uma recuperação da moeda.
O que você precisa saber
Investidores ampliaram as apostas contra o euro. Dados da CFTC, órgão americano que supervisiona os mercados de derivativos, mostram que o saldo de contratos futuros apostando na queda da moeda chegou a 99.332 em 6 de outubro, aumento de 57% em uma semana. Os grandes investidores especulativos tinham 342.352 contratos vendidos e 243.020 comprados, indicando uma expectativa predominante de desvalorização nesse grupo.
Euro ficou mais barato para os brasileiros. A moeda passou de R$ 6,4364 no fim de 2025 para R$ 5,6246 nesta quarta-feira (14), segundo a taxa de referência do Banco Central Europeu (BCE). Com isso, comprar 1.000 euros custaria R$ 812 a menos do que no encerramento do ano passado, antes de impostos e tarifas. Frente ao dólar, o euro acumula queda menor, de 4,7%, diferença explicada também pelo fortalecimento do real.
Crise na França alimenta o pessimismo. O governo enfrenta manifestações de estudantes, que se arrastam pelo último mês, e dificuldades para aprovar um orçamento que reduza o déficit público de 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 para 5% em 2027. Com o Parlamento fragmentado e a eleição presidencial se aproximando, investidores temem que o país não consiga controlar suas contas e que a desconfiança se espalhe para outras economias europeias.
O risco vai além das fronteiras francesas. Stuart Jenkins, analista de câmbio do Goldman Sachs, explica que os efeitos sobre o euro se intensificam quando os problemas de um país começam a afetar a percepção dos investidores sobre outros governos. Esse movimento pode elevar os juros exigidos para financiar as dívidas públicas, aumentando a pressão sobre a economia da região.
Guerras e energia cara agravam o cenário. Como a Europa depende mais de petróleo e gás importados do que os Estados Unidos, a alta dos preços internacionais pesa sobre os custos das empresas e o consumo das famílias. Kamakshya Trivedi e sua equipe, do Goldman Sachs, identificam essa vulnerabilidade como um dos fatores que enfraquecem o euro e favorecem o dólar.
Conflitos também reduzem a oferta de combustíveis. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), ataques de drones ucranianos a refinarias russas, somados às interrupções no Oriente Médio, contribuíram para uma queda de mais de 60% nas exportações líquidas combinadas de diesel e gasóleo das duas regiões em setembro, equivalente a aproximadamente 1,3 milhão de barris por dia.
Perspectivas para os juros reforçam a pressão. O Goldman avalia que condições de crédito mais difíceis podem desacelerar a economia europeia e reduzir a necessidade de novas altas de juros pelo BCE. Com a possibilidade de retornos relativamente maiores nos Estados Unidos, investidores encontram mais motivos para manter recursos em dólar.
O euro pode continuar caindo?
Analistas divergem sobre os próximos movimentos. A Capital Economics projeta o euro próximo de US$ 1,12 no fim de 2026, com risco de novas quedas. O Goldman Sachs considera possível uma recuperação nas próximas semanas, embora reconheça que os problemas estruturais da Europa continuem pesando sobre a moeda.
É difícil defender uma perspectiva otimista para o euro no curto prazo Capital Economics
O Goldman Sachs identifica "algum espaço para estabilização e uma recuperação tática do euro, de forma ampla, nas próximas semanas".
O desempenho também depende da moeda de comparação. Para horizontes mais longos, o Goldman prevê fraqueza do euro frente ao dólar australiano e à coroa norueguesa, moedas de países exportadores de energia. Em contrapartida, vê perspectivas mais favoráveis frente ao franco suíço e à libra esterlina.
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