A ausência de Bia Haddad no SP Open escancarou a engrenagem de isolamento e desgaste mental que adoece atletas de ponta e faz a elite do circuito pedir socorro.
Na linha de fundo de uma quadra de tênis, não há substituição, não existe passe de lado e o treinador não pode entrar para dividir a conta do placar. O erro, o colapso e o peso da derrota recaem exclusivamente sobre os ombros de quem empunha a raquete.
Em uma modalidade que sempre exigiu silêncio absoluto das arquibancadas, o circuito profissional vive um momento de ruptura: a lista de atletas de elite que pedem pausas na carreira e expõem o esgotamento mental só aumenta.
Eu já estava muito esgotada mentalmente. Passei por tantas adversidades e nunca me fragilizei. Eu nunca tentei parar, nunca tentei me dar um tempo para entender aquilo.
Fui uma das primeiras atletas a falar sobre saúde mental, mas ninguém cuida disso. A gente treina, vai à academia, joga tênis, mas ninguém cuida da mente. Sei que aqui no Brasil vocês têm um caso como o da Bia, que é uma jogadora que respeito e de quem gosto muito como pessoa. Vou visitá-la porque sei que ela está passando por um momento difícil. Em um esporte tão individual, tão emocional, tão mental, você não consegue lidar com tudo. Quando você está lá sozinha, é complicado.
Se eu tivesse que escolher entre US$ 20 milhões e um Grand Slam, eu escolheria o Grand Slam. A paz mundial ou ganhar um Grand Slam? Eu ganharia o maldito Grand Slam. (...) Muito saudável, eu sei." Liu ainda descreveu a batalha constante em sua cabeça: "Em vez de empolgação e determinação, deparo-me com uma pressão imensa e indesejada. E, quando finalmente perco, a única coisa que sinto é o coração partido.
O nível de desgaste a fez reforçar a equipe: "Fiz algumas mudanças, incluindo a contratação de mais uma terapeuta! Tenho tantos problemas que um só não dá conta."
Atletas abrem mão de muitos aspectos importantes da vida: família, amigos, vida social, de uma rotina mais equilibrada e saudável. Se você foi bem ou mal num torneio agora, o que vai acontecer assim que sair? Botar a raquete na raqueteira, pegar o transporte e ir para a próxima cidade. E depois mais uma, mais uma, mais uma. Pode começar a não fazer sentido diante de tamanha exigência não só física, mas mental.
Cillo também aponta recortes de gênero: enquanto mulheres enfrentam sobrecargas de jornada dupla ou tripla, falar sobre vulnerabilidades entre os homens ainda é tratado como um tabu.
Entre a blindagem precoce e as marcas do passado
O impacto dessa pressão faz com que novos talentos cheguem ao circuito cercados de cuidados multidisciplinares. Nauhany Silva, a Naná, de apenas 16 anos, tenta preservar a leveza em quadra: "Meu pai sempre diz: tem que estar na quadra curtindo cada momento, cada ponto. Minha equipe me ajuda bastante na questão da saúde mental."
A gente não consegue blindar 100%, essa é a verdade. Todos os atletas de alto rendimento hoje estão superexpostos. O que é exigido hoje da Naná é de uma pessoa adulta: maturidade e responsabilidade que ela normalmente não teria. Como equipe, buscamos fazer o que podemos para manter o desenvolvimento dela compatível com a sua faixa etária.
Burnout não existia, né? A gente simplesmente ou parava ou diziam: 'Ah, pirou'. Eu parei muito cedo de jogar, mas fui incisiva: não queria mais. Se você consegue lidar melhor com isso e ter suporte, leva a carreira um pouco mais longe. Respeito muito esse momento da Bia. É um momento de respeito.
Na minha época, a gente tinha muito menos visibilidade, então a pressão era menor. Você perdia e a crítica vinha na coluna do jornal. Agora é diariamente. São haters criticando tudo, que acham que o atleta não tem o direito de perder. A constância das críticas é muito pesada.
Dentro das quatro linhas, a solidão segue a mesma. A grande virada está na coragem de quem compete em dizer em voz alta que vencer não pode custar a integridade emocional.
Em uma modalidade que sempre exigiu silêncio para que a bola entrasse em jogo, a questão que permanece é se o ecossistema do tênis está disposto a abrir mão da obsessão para realmente escutar seus próprios ídolos.
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