Os últimos anos nos acostumaram a esperar de jogadores de futebol posicionamentos mais próximos da extrema-direita, com raras exceções como Paulinho, agora no Palmeiras. Os últimos dias mostraram que o cenário no futebol feminino parece ser diferente.
Na primeira entrevista depois de se sagrar campeã brasileira pelo São Paulo, como melhor atleta da partida, a goleira Carlinha terminou cravando: "Nunca mais Bolsonaro no poder, porra". No Fim de Papo aqui do UOL, perguntei a ela o que motivara sua fala. Ela contou que perdeu a avó na pandemia e que "entre o Lula e qualquer bolsonarista, sempre vai ser o outro lado".
Na festa do título tricolor, as campeãs cantaram músicas a favor de Lula, xingaram Flávio Bolsonaro e Trump, e exaltaram a soberania nacional: "Ele não vai tomar nossas terras não, caralho. O Brasil é nosso".
Meio-campista da seleção brasileira, Ary Borges foi mais uma a se posicionar (ela já declarara apoio a Lula em 2018 e 2022). Postou em suas redes: "Aprendi que se posicionar não significa entrar em uma batalha uns contra os outros. Se posicionar é, acima de tudo, se recusar a permanecer em silêncio diante daquilo que atravessa a nossa história, atinge a nossa vida e interfere diretamente no nosso futuro. Eu nasci em uma realidade muito parecida com a de milhões de brasileiros. Nasci no SUS. Usufruí de farmácias populares. Venho de uma região que, por muitos anos, foi esquecida, onde ter energia elétrica dentro de casa já foi motivo de comemoração. Eu fui a filha da empregada escondida no quartinho. Perdi pessoas que amava durante a pandemia. Sou uma mulher negra. Sou casada com uma mulher. E quando olho para a MINHA história, para tudo o que vivi, para quem eu sou e para as pessoas que amo, é humanamente impossível apoiar qualquer pessoa que carregue o nome da família Bolsonaro. Meu posicionamento não nasce do ódio. Nasce da minha história." A craque conclui: "Por isso, votem com consciência. Conheçam a nossa história. Não esqueçam o que já vivemos. Viva a democracia! E APERTEM 13!!!"
Mais do que apoio político, o que estamos testemunhando é consciência de classe. Pandemia, soberania, terras raras, saúde pública, programas sociais, está tudo ali. Vindo de mulheres. Assim como Lula saberia que encontraria no público feminino a maior receptividade à decisão de proibir as bets. Quem cuida, quem se preocupa com o todo, com as famílias, quem olha para fora de si e sabe da importância não de não caminhar só: mulheres. Os homens da bola, do alto do seu privilégio recém-adquirido, rapidamente esquecem das origens.
Claramente nada disso foi suficiente para garantir vantagem ao atual presidente. Ainda há pessoas votando não só contra os interesses da maioria, mas contra os próprios interesses. Talvez a disparidade possa ser traduzida em uma informação. Esse pleito consagrou a deputada e o deputado mais votados da história do Brasil. A mulher é Erika Hilton (PSOL-SP). O homem, Nikolas Ferreira (PL-MG).
O presidente eleito em 25 de outubro dirá muito sobre o que os brasileiros desejam uns aos outros. Jogadoras grandonas do futebol feminino já deram a letra do que importa para elas.
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