A relação bilateral entre Brasil e Argentina vive seu pior momento histórico em períodos democráticos. Depois de algumas semanas de tranquilidade, o presidente argentino, Javier Milei, voltou a atacar Lula e, numa entrevista ao Le Point da França, defendeu a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), nas eleições brasileiras: "Lula é um ladrão! Ele só saiu da prisão graças a um vício de forma administrativo orquestrado por um juiz cúmplice. Durante a minha campanha de 2023, ele enviou vários comunicadores e psicólogos a Buenos Aires para armar golpes sujos contra mim".
E acrescentou: "O poder brasileiro aliou-se ao Irã, à Rússia e às ditaduras castro-chavistas. Nós já expulsamos agitadores estrangeiros [segundo Milei, seu governo expulsou mais de 30 mil terroristas] este ano, disfarçados de jornalistas, fotógrafos, professores universitários ou estudantes. O Brasil apresenta 10 pontos de PIB de déficit. Tenho a grande esperança de que meu amigo Flávio Bolsonaro vença a eleição presidencial de outubro para realizar o saneamento liberal indispensável."
Desde agosto passado, o Brasil não tem embaixador em Buenos Aires e a Argentina tampouco tem um embaixador no comando de sua sede diplomática em Brasília. O resultado das eleições presidenciais no Brasil e, sobretudo, a atitude do presidente argentino, definirão o futuro do vínculo.
Se o presidente Lula for o vencedor, avaliaram fontes oficiais, a relação poderia ser retomada aos poucos, dependendo da reação do chefe de Estado argentino. Se Milei, caso Lula seja reeleito, não reconhecer o resultado e continuar chamando o presidente brasileiro de "ladrão" — como voltou a fazer hoje em declarações à imprensa francesa durante sua visita a Paris —, um eventual governo Lula 4 dificilmente normalizaria as relações bilaterais.
Se Milei não reconhecer o resultado, mas deixar de atacar Lula, o retorno de um embaixador a Buenos Aires poderia ser analisado — mas poderia até mesmo ficar para depois da posse.
É do interesse do governo brasileiro voltar a ter um alto representante diplomático no país vizinho, que no ano que vem terá eleições presidenciais e é um sócio estratégico dos Estados Unidos de Donald Trump.
Os ataques do presidente argentino a Lula deixaram de causar estupor no Palácio do Planalto. Mas são um impedimento para que o vínculo bilateral possa ser normalizado. A expectativa é de que Milei continue politizando a relação, caso Lula seja reeleito. Nesse caso, o cenário seria muito ruim para o vínculo entre dois países que já foram grandes sócios e parceiros na região.
Milei em campanha
O presidente argentino já está em campanha para tentar sua própria reeleição, em outubro de 2027. Nesse contexto, a relação com o Brasil pode sofrer ainda mais.
Milei é um líder intempestivo, absolutamente incontrolável. Diplomatas argentinos que o conhecem bem asseguram que é impossível conter o chefe de Estado quando Milei decide falar o que pensa, sem pensar nas consequências. Foi o que aconteceu na convenção nacional do Partido Liberal, no final de julho, quando o argentino foi o convidado internacional que prestigiou o lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Em seu discurso, Milei chamou Lula de "o presidiário", e desencadeou uma crise bilateral que se estende e não tem data para terminar.
A eleição brasileira não é tema de preocupação ou, inclusive, de demasiada atenção por parte da sociedade argentina. A população está mais preocupada com seus próprios problemas, e setores como o empresariado pensam mais na eleição argentina do que em qualquer outra coisa.
No Colóquio IDEA, principal fórum econômico do país, realizado anualmente no balneário de Mar del Plata, a 400 quilômetros de Buenos Aires, a eleição brasileira não é tema de agenda, constatou a coluna.
Alguns empresários comentam o assunto, fazem perguntas, mas a desinformação sobre o que acontece no Brasil é enorme. Esse desconhecimento dá mais espaço a Milei para impor seu relato.
O presidente argentino diz que seu governo já foi alvo de sete tentativas de golpe de Estado, e vincula o governo Lula a movimentos e países que, segundo Milei, querem desestabilizá-lo.
Quando o embaixador Julio Bitelli foi chamado para consultas em Brasília, gesto de enorme contundência no manual diplomático, o governo brasileiro recebeu muitos gestos de apoio. Houve repúdio aos ataques de Milei a Lula.
O tempo passou e, como muitas coisas que acontecem na Argentina de Milei, situações inéditas se normalizam. O foco para a maioria dos argentinos agora é a eleição presidencial de 2027 e saber se Milei continuará ou não no poder.
A jornalista viajou para Mar del Plata a convite do Colóquio IDEA
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
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