Emma Navarro não é das atletas mais extrovertidas ou atuantes em redes sociais. A jovem de 25 anos, que foi top 10 até julho do ano passado, é razoavelmente discreta e, a não ser por bons resultados em quadra, passa a maior parte de seu tempo fora dos holofotes. Talvez por isso seu post de ontem, no Instagram (veja abaixo), tenha sido em texto e não em vídeo. Mas quem teve a paciência de ler recebeu uma mensagem poderosa sobre saúde e como normalizamos condições insalubres de vida em nome de certos objetivos.
Não traduzirei o post inteiro, mas Emma conta que foi diagnosticada com RED-S (Deficiência Relativa de Energia no Esporte) e que, como também tem tireoidite de Hashimoto, o combo causou todo tipo de problemas relacionados à sua ingestão de energia. Em termos simples, a americana vinha ingerindo menos energia do que precisava como atleta. E isto vinha acontecendo desde 2023.
A tenista conta que nessa temporada de 2023, quando saltou de fora do top 150 para dentro do top 40, vinha treinando duro e estava em forma, ganhando jogos, subindo no ranking e perdendo peso. Ao mesmo tempo, sentia que havia algo errado emocionalmente. Emma fala em irritação, frustração, perfeccionismo, preocupação e raiva. E fome. Muita fome. No entanto, a jovem acreditava estar fazendo o necessário como atleta de alto rendimento. Emagrecer era uma maneira de otimizar desempenho.
Emma, no entanto, ficava doente com mais frequência e começou a ter tonturas e dores de cabeça com mais frequência. Seu post também menciona alguma dificuldade pra lembrar de certas coisas. Por outro lado, os resultados dentro de quadra seguiam vindo, e a entrada top 10, em 2024, parecia ser um indício de que a jovem vinha fazendo as coisas certas. Ou, pelo menos, as coisas necessárias para ter sucesso no exigente circuito mundial.
Até que um dia, durante o Australian Open de 2025, Emma começou a chorar na academia depois de um treino. Os resultados foram deixando de vir. Em setembro, durante a Billie Jean King Cup, mais lágrimas. Até que em novembro a tenista decidiu buscar a ajuda de nutricionistas e especialistas. Foi quando chegaram à conclusão clínica de que a americana vinha ingerindo menos energia do que precisava há três anos (!). Seu corpo gritava por ajuda, mas Emma ignorava.
Depois disto, a americana mudou sua dieta, aumentou a ingestão de energia, tratou o hipotireoidismo e foi melhorando aos poucos. Passou a comer em quantidades maiores, de acordo com o que seu corpo precisava. Passou a dormir melhor, as tonturas pararam, e as dores de cabeça ficaram menos frequentes. As emoções estabilizaram.
Emma termina o post escrevendo que "sim, ganhei peso este ano. Mas também ganhei minha vida de volta. Tenho energia suficiente para todos os dias, para competir e viver uma vida fora do tênis." E aprendeu que não existe um número de peso na balança que seja mais valioso do que sua saúde ou seu bem-estar.
Um relato corajoso, bonito e emocionante. Parabéns e obrigado, Emma.
- É muito importante que Emma passe a mensagem de que estar com alguns quilos a mais é consequência de algo que está fazendo bem pra ela. Especificamente para ela. Cada pessoa tem seu corpo, seu jeito de viver, sua saúde. Não cabe a nós julgar se uma pessoa está saudável ou não por causa de 5-10 quilos de diferença (ou qualquer que seja o número). E ninguém sabe, na verdade, como o outro lida no dia a dia com uma condição como problema na tireóide ou obesidade.
- O texto de Emma nos ensina mais do que o peso que ela perdeu e ganhou. É também sobre como nos dias de hoje normalizamos rotinas em que nos submetemos a condições que não são saudáveis em nome de ganhos profissionais ou metas que, em alguns casos, nem foram estabelecidas por nós mesmos, mas traçadas por outros para nós. Outros que não fazem ideia de quem somos.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
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