A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou os mercados a entrarem no modo pânico, com quedas fortes na Bolsa, alta do dólar e juros futuros. Após o impacto inicial, especialistas em investimentos dizem que o cenário demanda pensar em uma estratégia mais defensiva, que consiga atravessar diferentes ciclos econômicos e políticos, e buscar internacionalizar os investimentos.
Entre as opções sugeridas pelos analistas estão ações de empresas com receitas ligadas ao dólar, investimentos em renda fixa e a diversificação internacional como alternativa para reduzir a dependência do mercado brasileiro e proteger parte da carteira em caso de desvalorização do real.
Como olhar para a Bolsa
O mercado vinha apostando, desde agosto, na vitória do então candidato Flávio Bolsonaro (PL), por isso, os ativos brasileiros subiram, o dólar caiu abaixo de R$ 5 e o Ibovespa chegou a renovar recordes no período pré-eleitoral. Com a reeleição de Lula, essa aposta foi desmontada de uma vez e o mercado teve que refazer posições.
No curto prazo, o cenário para investimentos, segundo Marcos Piellusch, professor da FIA Business School, passa por rebalancear a carteira de ativos. "Para quem já investe, a estratégia neste momento é voltar às proporções que haviam sido definidas para cada classe de ativo", diz Piellusch.
No caso da renda variável, como a Bolsa caiu muito, passou a pesar menos na carteira "e rebalancear pode significar comprar um pouco, não vender", ressalta o professor da FIA.
Para José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos, a queda da Bolsa não é necessariamente uma oportunidade de compra. "Se os juros forem ficar altos nos próximos anos, a Bolsa, nesse patamar, tem pouco potencial de subir. Por isso, pensar numa carteira mais defensiva", afirma Faria Júnior.
Em sua visão, vale olhar para empresas que tenham balanços mais sólido e menos sensíveis ao ciclo econômico, como energia elétrica e saneamento. Fora isso, estudar a possibilidade de internacionalizar os investimentos com ativos de outros países ou em outras moedas.
Entendemos que dólar em torno de R$ 5,30 não é um impeditivo, não é um dólar caro para fazer a diversificação internacional. José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos
O economista cita estudos que mostram que aproximadamente 20% do custo de uma família de classe média depende do dólar. "Muitas despesas corriqueiras da nossa vida são em dólar. Então ter 20% ou 30% do seu dinheiro no exterior é uma atitude que a gente entende como bastante correta e protetiva no momento", afirma Faria Júnior.
Para Fernando Saad Benati, estrategista global da Avenue, o momento demanda do investidor pensar em uma estratégia que consiga atravessar diferentes ciclos econômicos para reduzir a concentração de riscos no Brasil.
"O que me chamou bastante a atenção na segunda-feira (26) foi que grande parte das empresas que conseguiram resistir melhor à correção do mercado, ou que em alguns casos chegaram até a subir, eram exportadoras ou companhias com parte de suas receitas vinculadas ao dólar" ressalta o estrategista da Avenue.
Para Benati, esse movimento mostra como a exposição ao dólar pode fazer diferença em momentos de maior instabilidade no mercado brasileiro. "Por isso, reforço a importância de diversificar os investimentos não apenas dentro do Brasil, mas globalmente. É fazer com que nossos investimentos não dependam de um partido A ou B, nem exclusivamente da situação econômica de um único país ", diz Benati.
Identificando uma boa oportunidade
Na visão do Piellusch, é preciso olhar para empresas com dívida baixa, geração de caixa consistente, liderança de mercado e capacidade de repassar preços, porque essas são as que tendem a atravessar um período de juros altos com menos dano.
As grandes empresas exportadoras, como Vale, Suzano e companhias com receita relevante em dólar, ganham peso num cenário de câmbio mais alto. Petrobras combina dois vetores opostos: o benefício do dólar e do petróleo, de um lado, e o risco de interferência por ser estatal, de outro.
Entre os bancos, os privados de grande porte, com balanços sólidos e alta rentabilidade, costumam ser os primeiros a se recuperar quando o risco país diminui.
Na outra ponta, estão as empresas de varejo, locação e empresas muito alavancadas, que são mais afetadas pelos juros altos e o custo da dívida. "Os dois fatores pesam diretamente no lucro", destaca o professor da FIA.
Olhar no longo prazo
Para o investidor de longo prazo, o movimento que aconteceu no dia seguinte ao resultado das eleições não deve alterar seus objetivos nem seus prazos. Segundo Marcos Piellusch, é com base neles que a carteira deve ser revista.
"Vale verificar se a reserva de emergência está em aplicações líquidas e conservadoras, se a exposição a ações está dentro do que o investidor tolera e se não há concentração excessiva em poucos papéis ou setores", destaca o professor.
De acordo com Fernando Saad Benati, da Avenue, o ideal é construir uma estratégia estrutural de portfólio que consiga atravessar diferentes ciclos.
"Estamos em um momento muito favorável para a renda fixa internacional, com taxas bastante atrativas", diz o economista da Avenue. Segundo Benati, a elevação dos juros nos Estados Unidos, observada desde 2022, levou os yields, ou seja, os rendimentos dos títulos, a patamares não vistos há décadas. "E conseguir travar esse tipo de taxa na renda fixa internacional é algo muito raro. Estamos justamente diante de um desses momentos", afirma.
Risco no horizonte
Para os especialistas, o cenário daqui para frente depende essencialmente da política fiscal. O governo terá de mostrar, em pouco tempo, quem comandará a equipe econômica, qual será o compromisso com o arcabouço fiscal e como o Orçamento de 2027 será construído.
Se houver sinais críveis de controle de gastos, parte do prêmio de risco pode ceder. Se não houver, a tendência é de dólar mais pressionado, juros longos elevados e bolsa mais descontada por mais tempo. Marcos Piellusch, professor da FIA Business School
A trajetória da taxa de juros é outro ponto de atenção em razão do nível de endividamento das famílias e empresas. Vale ficar de olho na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, nos dias 3 e 4 de novembro. A dúvida colocada pelos especialistas é se o ciclo de cortes da Selic, hoje em 13,75%, terá continuidade depois da alta do dólar e dos juros futuros.
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