A Argentina tem "energia abundante", "longe" de conflitos, defendeu o presidente argentino, Javier Milei, nesta quinta-feira (1º) diante de investidores europeus em Paris, onde a gigante francesa dos combustíveis TotalEnergies anunciou um investimento de 10 bilhões de dólares (R$ 52 bilhões) no país sul-americano.
Milei está na França desde quarta-feira em busca de investimentos para uma economia estabilizada, mas cuja recuperação e lucros são lentos, a ponto de gerar dúvidas sobre o resultado das eleições presidenciais do próximo ano.
Diante de dezenas de potenciais investidores, que o receberam com aplausos e uma ovação de pé, o líder ultraliberal defendeu suas políticas econômicas e os recursos naturais da Argentina em um discurso de quase uma hora com um tom claro de campanha, no qual se disse "otimista" sobre sua reeleição.
"A Europa aprendeu o quão caro é depender de fornecedores não confiáveis. É por isso que estou aqui para transmitir que a Argentina pode e poderá oferecer a vocês energia abundante de uma região pacífica, alinhada aos valores ocidentais e longe de qualquer tipo de conflito", acrescentou.
Após mostrar boa sintonia com Milei, o presidente-executivo da TotalEnergies, Patrick Pouyanné, anunciou que seu grupo - o primeiro produtor de gás na Argentina - investirá cerca de 10 bilhões de dólares no país nos próximos anos em três projetos já existentes, e incentivou os demais empresários a seguir seus passos.
A maior parte deste valor será investido na província de Neuquén, no norte da Patagônia, para aumentar a produção de gás de xisto e iniciar a extração de petróleo de xisto. Estes recursos são encontrados em rochas argilosas e sua exploração mediante a fratura hidráulica é controversa por seu impacto ambiental.
A mineradora francesa Eramet anunciou, por sua vez, que apresentará uma solicitação para ampliar seu projeto de produção de lítio em Centenario, no norte do país, uma iniciativa que poderia representar um investimento adicional de cerca de 350 milhões de dólares (R$ 1,8 bilhão).
- Minerais críticos -
Os anúncios foram feitos no âmbito da Argentina Week, evento impulsionado por Buenos Aires para captar investimentos, realizado na sede da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris.
Entre os participantes estava Michael Mendig, diretor-geral da canadense McEwen, que conhece a Argentina desde 2009. Atualmente, é encarregado do Los Azules, um projeto de cobre com participação da Stellantis.
"A Argentina é um país que geopoliticamente está muito bem posicionado, que não tem conflitos, que mostrou no passado que pode prover o mundo com recursos naturais", explicou à AFP Mendig, que notou o maior interesse dos investidores estrangeiros no país desde que Milei chegou ao poder.
Nos últimos anos, a invasão russa da Ucrânia e a guerra no Oriente Médio impactaram as importações de hidrocarbonetos destas regiões para a Europa, que também tem interesse nos minerais críticos, no contexto da corrida desenfreada por parte da China e dos Estados Unidos.
Milei destacou que seu país conta com importantes reservas de cobre, lítio e urânio, com "segurança jurídica" para as empresas mineradoras e "tudo o necessário" para ser "líder" em inteligência artificial, como a "energia, metais e minerais que os centros de dados necessitam".
Estes recursos também interessam a seu par francês, Emmanuel Macron, que o recebeu com um abraço no Palácio do Eliseu, aonde chegou acompanhado a secretária-geral da Presidência argentina, sua irmã, Karina Milei, para uma reunião bilateral seguida de um encontro com empresários franceses.
- "Milagre" -
A viagem de Milei à França ocorre a um ano das eleições presidenciais e quando seu índice de popularidade atinge o nível mais baixo desde o começo de sua Presidência, com uma desaprovação em torno de 55%-60%, segundo as pesquisas.
Desde que chegou ao poder, no final de 2023, este economista, que se define como "anarco-capitalista", conseguiu que a inflação passasse de 161% anual para 33%, equilibrar as contas públicas e reconstruir parcialmente as reservas de divisas.
Mas estes quase três anos de austeridade enfraqueceram a indústria, o emprego e o consumo. A pobreza subiu no primeiro semestre de 2026, afetando quase um em cada três argentinos, e a economia se contraiu 0,6% entre abril e junho devido a uma queda do consumo e do investimento.
O presidente argentino, que por enquanto se beneficia da ausência de lideranças claras na oposição peronista (centro esquerda), assegurou que vai manter o rumo de sua política e prometeu um "milagre" se for reeleito e contar com maioria parlamentar.
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