As ações do Nubank caíram 10%, a US$ 12,23, ontem na Bolsa de Nova York, em meio às notícias de uma possível compra do banco digital britânico Monzo. A operação, estimada entre US$ 10,6 bilhões e US$ 13,3 bilhões, aceleraria a expansão europeia do Nu, mas levanta dúvidas entre analistas sobre preço, financiamento e capacidade de integração.
O que aconteceu?
As conversas, noticiadas inicialmente pela Sky News, ainda são preliminares, sem prazo definido para um acordo. O valor discutido equivale a aproximadamente 16% a 20% do valor de mercado do Nubank considerado nos relatórios de analistas, e o pagamento poderia combinar dinheiro e ações.
A possível aquisição surpreendeu analistas pelo tamanho da operação e pelo momento do Nubank. "A notícia nos surpreende, especialmente considerando tudo o que o Nu já tem em andamento", afirmam os analistas do BTG Pactual, liderados por Eduardo Rosman.
O banco destaca que a possível aquisição surge enquanto o Nubank avança com iniciativas nos Estados Unidos, escala sua operação no México e lança o Nu Global. A compra também representaria uma mudança em relação à preferência histórica da companhia por construir suas operações organicamente.
O histórico de aquisições do Nubank também entrou no radar dos analistas. O BTG lembra que David Vélez já reconheceu dificuldades na integração da Easynvest e afirmou que, retrospectivamente, provavelmente teria desenvolvido a plataforma de investimentos dentro do próprio Nubank.
Para a XP, negócio demanda esforço maior na implementação da estratégia de negócios. Integrar uma instituição estrangeira desse porte enquanto a companhia escala no México e avança nos Estados Unidos aumentaria a complexidade operacional e a demanda sobre a administração.
Preço do Monzo chama atenção
O preço é uma das principais ressalvas dos analistas. Segundo a XP, a faixa discutida corresponde a aproximadamente 4,7 a 5,9 vezes a receita anual do Monzo e a 93 a 116 vezes seu lucro antes de impostos reportado no ano fiscal de 2026. "A avaliação deixa pouco espaço para que a tese dependa apenas do crescimento do Monzo como negócio independente", avaliam os analistas da corretora.
Para justificar o investimento, o Nubank teria de conseguir extrair mais valor do banco britânico, segundo a XP. Na leitura da equipe liderada por Bernardo Guttmann, seria necessário melhorar a monetização e a rentabilidade do Monzo. O banco registrou receita de £ 1,7 bilhão no último ano fiscal, alta de 39%, e lucro antes de impostos de aproximadamente £ 87 milhões.
Pagamento pode diluir acionistas
A forma de pagamento é outro ponto de atenção. A XP aponta que o Nubank tinha US$ 2,9 bilhões em caixa e títulos na holding ao fim do segundo trimestre, além de cerca de US$ 2 bilhões de capital excedente nas entidades reguladas. Esse segundo montante, porém, está sujeito a exigências locais e às necessidades de crescimento das operações.
Uma parcela relevante da aquisição poderia, por isso, ser paga com ações do próprio Nubank. A XP considera esse cenário provável caso não haja financiamento expressivo por dívida. Isso poderia provocar diluição dos atuais acionistas.
A corretora ressalta ainda que o dinheiro pago aos vendedores não entraria no caixa do Monzo para financiar sua expansão. Eventuais aportes posteriores teriam de ser considerados além dos US$ 10,6 bilhões a US$ 13,3 bilhões discutidos para a compra.
O que o Nubank ganharia
Apesar das preocupações, os analistas reconhecem o apelo estratégico da operação. O Monzo entregaria ao Nubank uma marca estabelecida, infraestrutura bancária e £ 25,7 bilhões em depósitos, além de aproximadamente 15 milhões de clientes pessoa física e uma base de clientes empresariais. "A compra do Monzo daria imediatamente ao Nu uma franquia bancária digital de escala e bem-sucedida no Reino Unido", afirma o BTG.
A aquisição também poderia servir como porta de entrada para uma expansão mais ampla pela Europa. Na avaliação do BTG, a operação criaria uma plataforma para avançar na Europa continental e ampliaria a competição com o Revolut em seu mercado de origem. O perfil digital do Monzo, sua marca e o engajamento dos clientes também aproximariam o negócio do modelo do Nubank.
O Citi destaca ainda a diversificação geográfica e o acesso a depósitos em libras. A operação reduziria a concentração do Nubank em moedas latino-americanas. O banco, cujo time é liderado por Gustavo Schroden, interpreta o reforço recente da liderança do Nu como parte da preparação para uma estrutura global.
O Citi ressalta, porém, que a integração exigiria lidar com supervisão regulatória, exigências de capital e custos de conformidade em diferentes países. Para os analistas, o sucesso dependeria da capacidade de reproduzir o baixo custo operacional por cliente do Nubank no ambiente bancário britânico.
Negócio ainda é incerto
Ainda não há certeza de que a aquisição será concluída. Segundo o BTG, o Monzo também avalia alternativas, como uma nova rodada de financiamento e uma abertura de capital.
O Nubank afirmou que não comenta rumores ou especulações.
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