Oito anos após sua última passagem pelo Brasil, a cantora canadense Shania Twain se apresentou ontem no país, no interior de São Paulo. O show, porém, era apenas para convidados. A plateia reunia possíveis compradores de unidades no novo empreendimento de luxo da JHSF: um condomínio com lotes e estâncias em Porto Feliz (SP).
O evento é uma amostra da estratégia da JHSF de ampliar os negócios em torno de uma mesma clientela de alta renda — movimento que agora avança também para fora do Brasil. Um cassino no Uruguai e um palácio do século XVI na Itália estão entre os ativos escolhidos pela companhia para levar esse modelo ao exterior.
Na Bolsa de Valores, a própria JHSF também virou uma aposta. As ações da companhia acumulam valorização de mais de 52% em 2026. Segundo levantamento da Elos Ayta, essa é a quinta maior alta do ano, atrás apenas das registradas por Ultrapar (93%), Petrobras (73%), Vibra (61%) e CBA (57%).
A valorização não se explica apenas pela promessa de novos endereços exclusivos no Brasil e no exterior. Investidores passaram a enxergar a JHSF como uma empresa menos dependente da venda de imóveis e mais apoiada em receitas recorrentes. A transferência de R$ 5,2 bilhões em ativos para um fundo e o pagamento de dividendos mensais reforçaram essa mudança de percepção.
Por nota, a JHSF afirmou que a valorização reflete a transformação que "vem construindo nos últimos anos, com o crescimento da renda recorrente e o sucesso operacional de seus negócios".
De acordo com o analista do BB Investimentos Felipe Mesquita, a companhia "vem construindo a estratégia de renda recorrente há muito tempo". "Mas demorou para o mercado ver o resultado na receita e no lucro."
Além dos empreendimentos imobiliários que fizeram seu nome, a JHSF atua hoje em shopping centers, hotéis, restaurantes, clubes, locação residencial, aviação executiva e gestão de recursos. Todos esses negócios são atividades que continuam gerando receita enquanto estão em operação, por meio de aluguéis, diárias, anuidades, abastecimento de aeronaves e taxas de gestão
A lógica é diferente da incorporação imobiliária, na qual a companhia recebe uma única vez pela venda de uma casa, um apartamento ou um lote. Embora essas receitas também oscilem, elas tendem a ser mais previsíveis e tornam os resultados menos dependentes de grandes lançamentos.
No primeiro semestre deste ano, essas operações de renda recorrente responderam por metade do Ebitda ajustado (sigla em inglês para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da companhia, que totalizou R$ 753,4 milhões.
As operações da JHSF hoje são bem diferentes, mas todas estão relacionadas à tentativa de acompanhar o mesmo cliente, de altíssimo padrão, em mais momentos de sua vida e capturar uma parcela maior de seus gastos. É o "ecossistema de alta renda", como a empresa define seus negócios.
"A evolução deles foi sair de uma visão focada no produto para uma focada no cliente. Eles olharam para o cliente com a pergunta: 'o que mais eu posso fazer para dar uma experiência de consumo completa?'", diz Alberto Ajzental, coordenador do curso de Negócios Imobiliários da FGV. "Com essa pergunta, passaram a oferecer cada vez mais coisas ao mesmo cliente;"
Só neste ano, a JHSF anunciou quatro movimentos no exterior: a aquisição de uma plataforma de serviços para aviação executiva no aeroporto Opa-Locka, em Miami; a compra do Palazzo Taverna Medici del Vascello, imóvel histórico de Milão que receberá um hotel e um restaurante da marca Fasano; a aquisição do hotel e cassino Enjoy Punta del Este, no Uruguai; e uma frota de 12 iates destinada à hospedagem de clientes em frente à Ilha de Tavolara, na Itália.
Na frente de hospitalidade e gastronomia, a JHSF tem hoje 11 hotéis Fasano no Brasil e no exterior e 36 restaurantes. No varejo, controla empreendimentos como o Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, e o Catarina Fashion Outlet, em São Roque (SP). A poucos minutos do outlet fica o aeroporto São Paulo Catarina, voltado a jatos particulares.
Na cidade de Porto Feliz (SP), o Complexo Boa Vista reúne casas de campo e hotelaria em três condomínios. O empreendimento, que funciona como casa de campo de parte da elite paulista, conta com spa, horta, haras, campos de golfe e de polo, quadras de tênis, circuito de triatlo e piscina de ondas artificiais.
A companhia agora desenvolve outro condomínio de luxo em Bragança Paulista, a Fazenda Santa Helena. Na cidade de São Paulo, administra o São Paulo Surf Club, que oferece uma piscina com ondas artificiais a poucos minutos da Faria Lima.
Gestora da JHSF administra R$ 12 bilhões
No braço financeiro, a JHSF Capital, criada em 2023, passou a oferecer investimentos a famílias que já se relacionavam com outras áreas do grupo. A gestora administra hoje R$ 12 bilhões e foi peça central na operação que mudou o balanço da companhia e acelerou a reavaliação das ações.
Em dezembro de 2025, a JHSF vendeu R$ 5,2 bilhões em imóveis para um fundo administrado por sua gestora. Entraram na carteira ativos do Complexo Boa Vista, do Reserva Cidade Jardim, do São Paulo Surf Club Residences e da Fazenda Santa Helena. Com a operação, a companhia antecipou recursos que só receberia à medida que concluísse a comercialização desses empreendimentos.
Na primeira etapa, a JHSF recebeu cerca de R$ 2,6 bilhões em dinheiro e R$ 872 milhões em cotas subordinadas do fundo, que são as primeiras a absorver eventuais perdas. Uma segunda liquidação, prevista para dezembro de 2026, envolve aproximadamente R$ 1,3 bilhão em dinheiro e R$ 436 milhões nessas cotas.
O dinheiro recebido reforçou o caixa da companhia e, logo após a operação, a JHSF aprovou o pagamento de R$ 550 milhões em dividendos, distribuídos em 12 parcelas mensais ao longo de 2026. A companhia afirma, porém, que a decisão sobre os dividendos não estava diretamente vinculada à operação com o fundo e foi tomada com base em seus resultados.
"Antes, a JHSF era uma incorporadora muito difícil de entender e projetar, porque tinha poucos empreendimentos, todos muito grandes. Agora, com a receita recorrente, passa a ser mais atrativa para os investidores. O movimento dos dividendos mostra que eles querem aumentar ainda mais a liquidez das ações, atraindo inclusive pessoas físicas", afirma Laís Martins Fracasso, sócia da gestora Fundamenta, que tem papéis da empresa em um de seus fundos.
A transformação da empresa
A mudança de perfil da JHSF foi conduzida em duas etapas e por dois executivos. A primeira partiu de dentro da família fundadora. Filho de Fábio Auriemo, um dos criadores da companhia, José Auriemo Neto, conhecido como Zeco, ingressou no grupo em 1993 e abriu a divisão de shopping centers em 1998. Foi diretor-presidente da companhia entre 2006 e 2014 e hoje preside o conselho de administração.
Sob sua liderança, a empresa lançou o Cidade Jardim e a Fazenda Boa Vista e comprou o controle do grupo Fasano. Esses ativos deram origem ao portfólio atual de imóveis, varejo, hotelaria e serviços.
Em entrevista recente ao Pipeline, do jornal Valor Econômico, Zeco disse ter definido, há cerca de uma década, que o grupo deixaria de ser uma incorporadora para se tornar uma companhia multinacional de luxo.
A estratégia teve uma guinada com a chegada de um executivo de fora da família. Augusto Martins passou 23 anos no Banco Alfa, onde trabalhou com gestão de fortunas, fusões e aquisições e banco de investimento. A família Auriemo era cliente da instituição.
Em setembro de 2022, Martins foi contratado para estruturar a JHSF Capital. Sua tarefa era transformar imóveis e participações da companhia em fundos e outros produtos capazes de liberar recursos para novos projetos
O primeiro teste surgiu apenas dois meses depois. O grupo israelense Gazit, então dono de 33% do Shopping Cidade Jardim, precisava vender sua participação, e Martins estruturou fundos para viabilizar a transação em um intervalo de cerca de 60 dias, segundo contou à Forbes. Ele se tornou presidente executivo da companhia em 2024. Hoje, possui cerca de 3% das ações e é o maior acionista individual da JHSF fora da família fundadora.
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