O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, enviou R$ 303 milhões às Bahamas para um investimento em petróleo na Venezuela, mas deixou o dinheiro rendendo junto ao patrimônio desviado do banco, sem dar satisfação aos investidores.
Após cobrança dos empresários que pretendiam participar do negócio, o dinheiro foi devolvido pela firma responsável pela gestão patrimonial de Vorcaro no exterior, a Mosaic, para uma conta internacional.
(Atualização: após a publicação desta reportagem, o empresário Lucas Kallas falou sobre o empreendimento com Vorcaro na Venezuela. Leia aqui.)
Como mostrou o UOL, Vorcaro e o empresário Lucas Kallas, dono da Cedro Participações, viajaram a Caracas para prospectar negócios no fim de 2023, depois de o governo dos Estados Unidos suavizar as sanções contra o país.
Pouco tempo depois, surgiu um projeto para financiar uma empresa na aquisição de equipamentos para extração de petróleo, em parceria com a empresa venezuelana Saber Energia e a Atma, firma de Hong Kong do brasileiro Roberto Viana.
Empréstimos junto ao Master
Kallas tomou um empréstimo de R$ 250 milhões com o Master para financiar a operação. O empresário Pedro Mesquita, ex-XP, que atuou como intermediário do negócio, pegou R$ 10 milhões.
O dinheiro foi aplicado no fundo Winery, administrado pela Trustee, empresa de um ex-sócio do Master. Lá também foram aplicados R$ 44 milhões do Astralo 95, fundo usado para desviar recursos do Master, segundo a Polícia Federal.
O Winery investiu tudo em outro fundo da Trustee, o Bourgogne. Em abril de 2024, o Bourgogne repassou R$ 303 milhões ao Accuvest, fundo nas Bahamas.
O Accuvest é gerido pela Mosaic, firma com representantes em vários países e responsável pela estrutura patrimonial de Daniel Vorcaro e do Banco Master em offshores —empresas em paraísos fiscais.
Procurada, a Mosaic disse que não iria se manifestar. Kallas, Mesquita e a defesa de Vorcaro também não responderam ao contato do UOL.
Fundo sem informações
No final de 2024, a ausência de informações sobre os rendimentos do fundo começou a preocupar Kallas e Mesquita, que, juntos, estavam devendo R$ 260 milhões ao Banco Master.
O Master estava em crise, e uma eventual liquidação colocaria uma lupa sobre os empréstimos feitos pelo banco, incluindo estes.
O empréstimo de Kallas, porém, já não estava com o Master. Dez dias depois de assinado, em abril de 2024, o banco cedeu o crédito ao Banco Voiter, que no mesmo dia o integralizou em um fundo.
Em uma cessão, a empresa que recebe a dívida assume como responsável por cobrá-la. Em dezembro de 2024, o crédito foi repassado ao fundo Runeard, administrado pela CBSF, antiga Reag Investimentos, gestora investigada em conjunto com o Master.
Ao ser notificado de que seu empréstimo estava com a CBSF, Kallas pediu à credora que o valor fosse atualizado reduzindo sua dívida em US$ 20 milhões (R$ 102 milhões) que, segundo a Trustee, haviam entrado na conta do fundo.
As empresas ligadas ao Master disseram, então, que o empresário poderia quitar seus débitos com as cotas do próprio fundo em que investiu, cedendo a participação no Winery.
O problema é que não havia avaliação dos ativos daquele fundo, o que o deixaria suscetível a uma suspeita de ter participado de uma fraude com o empréstimo.
O empresário voltou a pedir uma restituição do dinheiro. Sem resposta do Master, Kallas enviou uma notificação diretamente à Mosaic em setembro de 2025, pedindo que os valores fossem devolvidos.
A comunicação incomodou Daniel, que tentava, na época, obter fundos para evitar a liquidação de seu banco, e sentiu que a exposição dos problemas à administradora no exterior poderia atrapalhar.
Em março deste ano, quando já estava na mira do liquidante do Master, a Mosaic informou que o dinheiro foi devolvido a uma conta internacional que pertence ao Bourgogne.
O extrato enviado pela Mosaic mostra US$ 58,1 milhões (R$ 299 milhões) na conta, em março deste ano, sem nenhuma aplicação.
Cotas no lugar do dinheiro
Kallas notificou então a Trustee e a CBSF, em junho deste ano, para informar que o dinheiro estava naquela conta. Não houve resposta.
Sem conseguir a restituição, o empresário acabou aceitando a proposta anterior: entregou as cotas do Winery ao fundo que havia comprado sua dívida, em uma dação em pagamento —quando o devedor quita o débito entregando um bem no lugar do dinheiro.
Com isso, a dívida foi extinta e a empresa de Kallas deixou de ter qualquer participação no Winery. Quem ficou com as cotas —e com o direito sobre o dinheiro parado nas Bahamas— foi o Runeard.
Em julho, Kallas pediu ao liquidante do Master uma certidão de que nada deve ao banco. Argumenta que o crédito foi cedido antes da liquidação e, por isso, não integra o acervo da instituição.
Contas de passagem
Além dos R$ 303 milhões reservados para a Venezuela, as contas da Mosaic eram usadas por Vorcaro para outras finalidades.
Um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) descreve US$ 100 milhões (R$ 517 milhões) em movimentações suspeitas beneficiando Vorcaro usando a Mosaic.
A maior das comunicações partiu do Bank of New York Mellon, de US$ 25 milhões (R$ 130 milhões) em transferências de Vorcaro à Mosaic entre janeiro de 2024 e novembro de 2025.
Outra comunicação, do Banco do Brasil Americas, descreve US$ 41 milhões (R$ 212 milhões) em operações entre julho e dezembro de 2025. Nela, o banco afirma que a Fortezza Partners, empresa constituída no Caribe e apontada como de Vorcaro, sacou US$ 12,5 milhões (R$ 65 milhões) de uma conta mantida na Mosaic nas Bahamas.
O Citibank comunicou US$ 10,9 milhões (R$ 56 milhões) movimentados entre novembro de 2024 e janeiro de 2025. A Mosaic enviou US$ 2,1 milhões (R$ 11 milhões) a uma empresa americana de eventos, que repassou o valor a fornecedores de barcos, artistas e hospedagem para Vorcaro.
Em outro relato, o mesmo banco descreve US$ 3,3 milhões (R$ 17 milhões) pagos por essa empresa a fornecedores entre fevereiro e março de 2025, por serviços prestados ao ex-banqueiro.
Registros do Bank of New York Mellon apresentados pelo liquidante do Master mostram que o banco transferiu US$ 80 milhões (R$ 413 milhões) à conta de clientes da Mosaic entre 2023 e outubro de 2025.
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