A eleição pode acabar no primeiro turno se parte do eleitorado não souber o número do candidato na urna e não conseguir transformar intenção em voto. José Roberto de Toledo e Thais Bilenky analisam o assunto no A Hora Extra, edição especial do podcast para assinantes do UOL.
O tema é um dos destaques do episódio desta semana. O podcast de notícias do UOL, com os jornalistas Thais Bilenky e José Roberto de Toledo, está disponível nas principais plataformas. Ouça aqui.
Toledo diz que o Datafolha inclui, mais perto da votação, uma pergunta que funciona como teste prático: qual número o eleitor pretende digitar para confirmar o voto para presidente. O resultado, segundo ele, varia muito entre os candidatos.
O Brasil é um dos poucos países do mundo em que o eleitor precisa decorar um número para conseguir votar no seu candidato. Ele não digita o nome do candidato, ele tem que saber o número. Se ele não souber o número, ele não consegue transformar a intenção em voto. Por conta disso, o Datafolha faz a pergunta, e 73% respondem correto, 23% confessam "não sei" e uma parcela chuta o número errado.José Roberto de Toledo
Toledo afirma que o contraste aparece quando a pesquisa cruza as respostas com a intenção de voto. Entre eleitores de Lula, 87% acertam o número. Já entre eleitores de Flávio Bolsonaro, o acerto cai para 79%.
"Ao multiplicar essa diferença de oito pontos, é possível garantir um primeiro lugar do Lula no primeiro turno", comenta Toledo, ao dizer que as campanhas ainda têm dias para martelar os números e tentar reduzir o erro.
O maior risco, na avaliação dele, está no pelotão de baixo. Toledo cita que, entre eleitores de Augusto Cury, só 34% saberiam o número, enquanto 61% dizem não saber e 5% erram. No caso de Ronaldo Caiado, ele aponta 18% de conhecimento do número, com 64% dizendo não saber e 18% errando.
Dois terços dos eleitores do Cury podem mandar o voto deles para o além e, com isso, diminuir votos válidos e favorecer quem estiver bem posicionado. O voto total continua igual, mas o válido, que é o voto no candidato, vai diminuir. É muito preocupante para o Caiado; só 18% é muito pouco.José Roberto de Toledo
Para mostrar o efeito possível, Toledo diz ter aplicado a taxa de acerto sobre as intenções de voto. Nesse exercício, Lula teria 34,8% dos votos válidos, enquanto a soma dos adversários ficaria abaixo disso, o que abriria caminho para vitória no primeiro turno.
Se a eleição fosse hoje, o grau de conhecimento dos candidatos fosse esse e as intenções de voto fossem essas, Lula ganharia no primeiro turno. É improvável, porque tem mais nove dias de campanha. Eu espero que as equipes martelem os números até não poder mais na cabeça do eleitor.José Roberto de Toledo
Toledo ressalta que o cenário tem limitações: quem erra pode perceber a foto na tela e corrigir antes de confirmar, ou pode acabar votando por engano em outro número válido. Ainda assim, ele diz que o dado expõe um nível de incerteza maior do que costuma entrar nas análises.
O jornalista também lembra um caso antigo para ilustrar o problema. Na eleição para o governo de São Paulo em 1998, afirma, Francisco Rossi tinha intenção de voto alta, mas não conseguiu converter parte desse apoio em voto por causa de erro na hora de digitar o número.
Por incrível que pareça, quem corre mais risco disso acontecer é o Ronaldo Caiado.José Roberto de Toledo
Na leitura de Toledo, o dado joga responsabilidade extra sobre as campanhas na reta final, sobretudo as de candidatos que ainda não fixaram o número no eleitorado. "O erro pode levar à desidratação dos nomes menores", diz ele, aumentando a chance de a disputa se encerrar já no primeiro turno.
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