Lucimar das Neves Ferreira, 53, um dos sobreviventes do acidente com o césio-137, morreu no sábado (25) em Aparecida de Goiânia (GO). Em uma reportagem especial publicada pelo UOL em 2017, sua mãe, Lourdes Alves Ferreira, relatou que, três décadas após o acidente, ainda enfrentava preconceito por carregar o sobrenome associado ao caso.
O que aconteceu
O estigma persistia mesmo 30 anos após o acidente. Lourdes afirmou que o sobrenome "Neves Ferreira" ainda despertava desconfiança em diferentes situações do cotidiano. "Já aconteceu de a pessoa, quando soube quem era eu, se levantar de perto de mim", disse.
Quando é Neves Ferreira, está lá [o preconceito]. Na escola, no emprego. O sobrenome a gente tenta esconder, mas logo descobrem. É uma marca que vamos carregar para o resto da vida. Lourdes Alves Ferreira, mãe de Lucimar
O preconceito também aparecia durante atendimentos médicos. Ela contou que sua ficha em clínicas era identificada de forma diferente por causa do acidente, o que frequentemente despertava a curiosidade de funcionários. Segundo ela, uma recepcionista insistiu em saber por que sua guia médica era "zerada" e passou a observá-la após descobrir que ela era vítima da contaminação.
As recepcionistas insistem para saber por que ela é zerada. Um dia, uma gritou. E fui pertinho dela e falei: 'sou obrigada a explicar o porquê?'. Quando o médico me chamou, ela fez questão de me acompanhar até o consultório. Eu disse que era uma vítima do césio. O tempo todinho que fiquei esperando, se ela não estava escrevendo, estava olhando para mim. Eu era uma pessoa estranha para ela. Lourdes
A discriminação atingiu toda a família. Lourdes afirmou que vítimas do césio enfrentaram dificuldades até para matricular os filhos em escolas de Goiânia e de Aparecida de Goiânia. Segundo ela, diversas famílias receberam recusas antes de conseguir vagas, reflexo do medo e da desinformação que persistiam décadas depois da tragédia.
A família também preservava lembranças de solidariedade. Apesar dos episódios de preconceito, Lourdes contou ao UOL que a história da filha Leide das Neves, primeira vítima fatal do acidente, também mobilizou gestos de carinho ao longo dos anos. Ela relatou o caso de uma mulher que fez uma promessa em nome da menina para conseguir engravidar. Após ter uma filha, deu a ela o nome de Leide, que, segundo Lourdes, se tornou biomédica.
Lucimar era irmão de Leide
Ele foi encontrado morto no último sábado (25). A causa da morte não foi divulgada. Lucimar tinha 14 anos quando foi contaminado pela radiação, em 1987, e fazia parte da família mais diretamente atingida pelo maior acidente radiológico com material radioativo ocorrido fora de uma usina nuclear.
O acidente marcou a história do país. Em setembro de 1987, uma cápsula de césio-137 foi retirada de um aparelho de radioterapia abandonado e acabou sendo aberta em um ferro-velho, espalhando material radioativo por Goiânia. A tragédia provocou quatro mortes diretamente relacionadas à contaminação, expôs centenas de pessoas à radiação e deixou consequências físicas e psicológicas que, como relatou Lourdes em 2017, continuavam presentes décadas depois.
Deixe seu comentário
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.