Por uma década, Renan Fellipe, 34 anos, foi frentista em um posto de gasolina no Recife, sem perspectivas de crescimento. Foi no setor de apostas esportivas online que a carreira andou: começou no atendimento ao cliente, subiu de cargo e, no auge, chegou a receber R$ 4.000 por mês.
Ele estava trabalhando havia oito meses no atendimento de outra companhia de apostas, onde recebia R$ 2.100, quando o presidente Lula (PT) assinou, em 25 de setembro, a medida provisória que proibiu as bets.
"Antes do corte, a empresa parecia um funeral. Todos apreensivos", lembra.
A companhia demitiu cerca de 50 pessoas, segundo Fellipe, quase todo o quadro. Sem trabalho, ele e a mulher tiveram de adiar o plano de ter um filho neste ano. "Não tenho medo de trabalhar, tenho medo de ficar parado."
3.500 demissões em duas semanas
Levantamento da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) aponta que houve mais de 3.500 demissões desde a publicação da MP. O número corresponde a 23% de uma força de trabalho estimada em 15 mil pessoas, considerando também prestadores e fornecedores. Outros 4.167 trabalhadores estão em férias coletivas. A entidade projeta que as demissões cheguem a 5.600 em 90 dias.
A Amig (Associação de Mulheres da Indústria do Gaming) identificou nominalmente cerca de 730 demissões. "Por trás de cada número existe uma pessoa, uma trajetória profissional e, muitas vezes, uma família inteira", afirma Natalia Nogues, fundadora da Amig.
Das empresas do setor ouvidas pela reportagem, Betano e Superbet mantiveram, por ora, seus funcionários, por considerarem difícil repô-los em uma eventual retomada. Os cortes da Betano recaíram sobre os fornecedores, entre eles um call center que atendia a empresa em Curitiba e demitiu 500 pessoas. Na Alob Sports, agência de marketing responsável pelas ativações do Flamengo, patrocinado pela Betano, foram 34 demissões, apurou o UOL.
O sócio-fundador da Alob, Bernardo Pontes, não confirma o número, mas diz que, com o fim do patrocínio, os cortes foram inevitáveis.
Quanto pagavam as bets?
Um estudo da LCA Consultores encomendado pela ANJL e pelo IBJR estimou que o salário médio no setor, em 2025, era de R$ 7.000. De acordo com a pesquisa, 63,8% dos trabalhadores ganhavam mais de quatro salários mínimos à época.
Thaís Policarpo Vellardi, 33, também viu a carreira mudar. Fora do setor, era analista de marketing e se sentia estagnada. Em uma empresa de apostas, chegou ao cargo de coordenadora. "Os salários eram realmente muito competitivos. Havia muitas propostas e poucos especialistas que entendiam do segmento. Dava para escolher (onde trabalhar)."
Nas últimas duas semanas, ela se candidatou a mais de 50 vagas e só conseguiu uma entrevista, com redução salarial significativa. "Sinto que o mercado tradicional tem muito preconceito com quem trabalhou em bet. A gente fica marcado."
Bets ilegais
Ex-patrocinadora do Atlético Mineiro, a H2Bet confirmou que demitiu 150 profissionais. Para o CEO da empresa, Ueltom Lima Gomes, proibir o mercado regulado fortalece o ilegal. Segundo ele, após a MP, foram identificados mais de 50 sites ilegais usando a marca H2Bet.
Na Rivalo, ex-funcionários falam em 100 cortes. Daniel Eskinazi, diretor da companhia no Brasil, confirmou rescisões. "A empresa mantém colaboradores para uma eventual retomada das operações, caso o mercado volte a ser regulado", afirma.
Na Ana Gaming, dona da 7K Bet, Cassino Bet e Vera Bet, também houve desligamentos. "A interrupção abrupta compromete empregos, afeta famílias e impõe prejuízos a fornecedores e parceiros de toda a cadeia. Mesmo com reversão da medida, isso não elimina danos já provocados", afirmou a companhia em nota.
Para a Betano, a proibição não elimina a demanda por bets e desloca consumidores para operadores ilegais, que não cumprem a regulamentação brasileira nem contribuem para a arrecadação.
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