A expectativa de novo corte na Selic nesta quarta-feira (16) promete aprofundar a desigualdade entre o topo e a base da economia brasileira. Enquanto a União e grandes empresas sentirão alívio no primeiro dia após a decisão do Banco Central, famílias endividadas e pequenos negócios continuarão pagando juros altos.
O que você precisa saber
As grandes empresas se beneficiam da queda nos juros porque suas dívidas costumam estar vinculadas ao CDI, taxa que varia de acordo com a Selic. Assim que o BC reduz a taxa básica, a conta que essas companhias paga todo mês para quitar seus empréstimos cai automaticamente.
Com menos dinheiro para os juros, executivos podem usar essa sobra para quitar dívidas. "Com um juro de 14% e uma dívida a 100% do CDI, a empresa deveria pagar 6,77% de juro semestral. Com um juro de 10% ao ano, esse juro semestral seria de 4,88%", explica Augusto Parente, especialista em investimentos e sócio da AW Capital. "Em uma dívida de R$ 10 milhões, a queda de 4% no juro do país gera quase R$ 200 mil de impacto nas contas da empresa."
O Tesouro Nacional também economiza rápido. Isso acontece porque quase metade da dívida pública é paga com base na Selic, já que o governo emite títulos cujo retorno sobe e desce junto com a taxa básica. A cada corte, a União paga menos para quem investiu nesses papéis. Esse alívio segura o crescimento da dívida pública e alivia as contas do país.
Para cada ponto percentual de corte na Selic, o governo economiza entre R$ 40 e R$ 55 bilhões por ano, segundo o Banco Central. Um corte de 0,25 ponto (como o mercado prevê para a reunião de quarta) representa uma economia entre R$ 10 bilhões e R$ 14 bilhões em um ano.
Já para o consumidor comum, o alívio da Selic é quase imperceptível no curto prazo. As formas de crédito mais usadas por quem ganha menos são o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial, que cobram juros que passam de 300% ao ano e não estão vinculados à Selic.
O efeito completo de um corte de meio ponto na taxa só chega ao bolso da população de seis a 18 meses depois. "Os bancos não repassam reduções pequenas imediatamente porque o custo do crédito para a população depende muito mais do risco de calote e da margem de lucro do banco do que apenas da taxa básica", explica Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos.
Também sobra pouco para pequenas e médias empresas. Isso porque a Selic não é o único custo de um empréstimo: o banco soma a taxa básica ao "prêmio de risco", um valor extra que cobra para se proteger caso a empresa dê calote. Com o cenário político e fiscal do Brasil ainda instável, os investidores continuam cobrando juros altos para emprestar dinheiro a prazos longos. Quando conseguem crédito, pequenas companhias pagam caro.
Selic baixa não resolve dívida pública
Embora o corte nos juros contenha o crescimento da dívida, a Selic menor não resolve o descontrole das contas. A dívida continuará crescendo até que o governo reduza seus gastos para conseguir sobra em caixa, o chamado superávit primário. Até lá, a equipe econômica emitirá títulos públicos para pagar as despesas do dia a dia, o que encarece os juros de longo prazo, aumentando a dívida. Pesquisa do Ministério da Fazenda estimou em agosto que a dívida bruta fechará o ano em 83% do PIB (Produto Interno Bruto), a maior proporção desde abril de 2021 (82,6%), durante a pandemia.
É por isso que o mercado financeiro relaciona qualquer corte de juros à saúde das contas públicas. Se o BC baixa os juros enquanto o governo gasta sem controle, o mercado reage mal: os juros de longo prazo sobem, o dólar também, e todo alívio conquistado com o corte da Selic evapora.
Equilibrar o orçamento exigirá metas impopulares que devem ficar para depois da eleição. Para que a dívida pública pare de crescer, a União precisará economizar anualmente 2,1% de toda a renda do país, calcula em relatório o BTG Pactual. Para isso, o governo teria de cortar despesas fixas, como aposentadorias e pensões, o que exigiria mudanças na Constituição.
Se o governo federal mantiver déficits fiscais primários contínuos, a trajetória da relação Dívida/PIB continuará em rota de crescimento. Por isso é tão importante um ajuste fiscal crível, que mexa em todas as variáveis da equação da dívida pública.Augusto Parente, especialista em investimentos
Como investir?
Diante desse cenário, especialistas recomendam cautela na hora de investir. A renda fixa brasileira ainda paga bem, o que tira o apelo de arriscar na Bolsa. Nos Estados Unidos os juros continuam altos, atraindo investidores do mundo todo e deixando menos recursos para países emergentes, como o Brasil. Como o preço internacional do petróleo também pressiona a inflação, o ideal é manter a carteira de investimentos protegida.
Recomendação é manter a maior parte do dinheiro na renda fixa, com ajustes pontuais. Como a Selic, mesmo caindo, ainda está em dois dígitos, ela paga um bom retorno real. Aplicações que podem ser resgatadas a qualquer momento, como Tesouro Selic e CDBs, são a escolha certa para a reserva de emergência. Enquanto os títulos atrelados à inflação protegem o poder de compra no longo prazo e garantem retorno antes que a Selic caia mais, os títulos com taxa fixa exigem mais cuidado com os prazos por causa da incerteza sobre as contas públicas.
Bolsa pode receber dinheiro, mas a preferência deve ser por empresas consolidadas, que pagam dividendos regularmente. "A Selic alta acostuma o investidor com rentabilidade fácil e sem risco, mas a construção sólida de patrimônio exige diversificação constante de acordo com o perfil do investidor", diz Patzlaff.
Quem travou taxas altas no passado em títulos prefixados ou IPCA+ vê o preço desses papéis valorizar [com o corte na Selic]. Ações e fundos imobiliários começam a atrair olhares. Para o consumidor, cheque especial, cartão e crédito pessoal continuam caros, e o financiamento da casa ou do carro não cai significativamente com apenas uma reunião do Copom.Jeff Patzlaff, especialista em Investimentos
Para a Bolsa, juros menores são positivos porque reduzem o custo de capital. Segundo analistas nesse cenário, aumenta o valor presente dos resultados das empresas. Esse impacto vale mais para setores que são mais dependentes da economia doméstica, segundo analistas.
Entretanto, como o corte de 0,25 ponto já está bastante precificado, a reação do Ibovespa vai depender mais da sinalização para os próximos meses. Fábio Murad, Consultor da Wiser Asset
Ajuste na carteira deve seguir perfil de risco do aplicador. O investidor conservador ainda tem poucas razões para elevar significativamente a parte da aplicação em renda variável por causa dos ganhos da renda fixa ainda extremamente competitivos, aponta Gustavo Assis, CEO da Asset. Já o investidor moderado pode começar a elevar sua exposição de maneira progressiva, principalmente pensando em horizonte de médio e longo prazo, diz ele. "Por outro lado, o investidor arrojado, que suporta volatilidade e tem prazo para carregar as posições, tem mais condições de antecipar parte desse ciclo", afirma.
O investidor também não deveria esperar a Selic chegar a um dígito para começar a olhar para a renda variável. Os mercados antecipam os movimentos da economia. Quando fica evidente que existe um ciclo consistente de queda dos juros, parte da valorização das ações e de outros ativos de maior duração pode ocorrer antes que a taxa básica efetivamente chegue aos níveis mais baixos. Gustavo Assis, CEO da Asset
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