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UOL Economia há 51 d • Sáb, 12 Set 2026 05:30:00 -0300

Quando foi que aprendemos a achar isso normal?

Quando foi que aprendemos a achar isso normal?

Imagine que você tivesse passado os últimos trinta anos fora do Brasil e voltasse hoje. Encontraria um país ainda no topo do ranking mundial de juros reais. Recorde recente de empresas em recuperação judicial. Recorde de feminicídios em 2025. PCC e Comando Vermelho com presença registrada em praticamente todo o país.Descobriria que milhões de aposentados e pensionistas contestaram descontos em seus benefícios e que uma investigação sobre um esquema bilionário no INSS alcançou o alto escalão da instituição e levou dezenas de pessoas a serem indiciadas pela Polícia Federal. Descobriria bilhões de reais em emendas parlamentares ainda cercadas por discussões sobre transparência e rastreabilidade.

E talvez custasse a acreditar que o escritório de advocacia da esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal, do qual também fazem parte dois de seus filhos, manteve com um banco posteriormente liquidado pelo Banco Central um contrato que, segundo revelou a imprensa, previa honorários de cerca de R$ 130 milhões.

Segundo relatório da Polícia Federal, mensagens recuperadas no celular de Daniel Vorcaro indicam que ele procurava Alexandre de Moraes para tratar das investigações e, dois dias antes de ser preso, perguntou se deveria deixar o Brasil.

Tudo isso no mesmo país. Tudo isso ao mesmo tempo.

Quem voltasse provavelmente perguntaria: O que aconteceu com o Brasil? Nós, que estivemos aqui todos os dias, talvez precisemos responder a outra pergunta: Quando foi que começamos a achar tudo isso normal?

Trinta anos são tempo suficiente para aprender.

Nesse período, vimos escândalos envolvendo governos, partidos, algumas das maiores empreiteiras do país, um dos maiores grupos de proteína animal do mundo e, agora, um banco. Houve confissões, acordos de colaboração, condenações e multas bilionárias. Depois, tribunais reconheceram ilegalidades e excessos em parte daqueles processos, e condenações foram anuladas.

Passamos anos discutindo quem era herói e quem era bandido. Mas deixamos de fazer a pergunta mais importante: O que aprendemos com tudo isso? Talvez tenhamos aprendido a achar normal. E aqui chego ao terreno que conheço melhor.Passei boa parte da minha vida liderando empresas e convivendo com conselhos de administração. Aprendi que, diante de uma decisão difícil, existe uma pergunta indispensável: É legal? Está dentro da lei? Mas essa nunca deveria ser a última pergunta de um líder. É ético? É moralmente aceitável? É adequado para quem ocupa aquela posição?

Em um conselho sério, quando existe conflito de interesses, não basta perguntar se a lei permite. Quem tem interesse direto no tema sai da sala, e quem fica decide às claras. Imagine que se conclua que não houve nenhuma ilegalidade naquele contrato. Ótimo. A questão jurídica estará respondida.Mas a questão ética estará? Legalidade é o chão, não o teto.

Reduzimos nossa régua moral àquilo que conseguimos defender como legal. O inquérito das fake news é um bom teste. Aberto em 2019 por ato da presidência do Supremo para investigar ameaças e ataques contra a Corte, foi considerado constitucional pelo próprio STF em 2020. O então ministro Marco Aurélio Mello, único voto contrário, chamou-o de "inquérito do fim do mundo". A questão jurídica foi respondida.Mas a questão ética e institucional terminou ali?

O inquérito atravessou mais de sete anos, ampliou seu alcance e envolveu decisões e medidas relativas a pessoas sem foro no Supremo. Recentemente, uma investigação relacionada a reportagens sobre um ministro chegou a conversas de um jornalista com informantes e produziu buscas contra pessoas apontadas como suas fontes, reacendendo o debate sobre o sigilo da fonte.

Quando uma exceção dura sete anos, ela ainda é exceção?

Em 9 de setembro, o presidente do STF, Edson Fachin, retirou Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito e assumiu sua condução. Agora, o plenário da mais alta Corte do país vai se reunir para analisar o relatório da Polícia Federal sobre as mensagens envolvendo Moraes e Vorcaro e a controvérsia sobre sua validade.

São esses ministros que, em inúmeros casos, dão a palavra final sobre o que é ou não constitucional e sobre os limites dos demais Poderes.Por que deveríamos esperar menos da mais alta Corte do país?

A Constituição não pode ser o verniz que dá aparência de normalidade ao exercício do poder. Ela existe para limitá-lo. Defender limites não significa querer um Supremo fraco. Uma democracia precisa de um Supremo forte, independente e respeitado. Justamente por isso, quanto maior o poder, maior precisa ser a régua ética. Isso vale muito além do Supremo.

Quem ocupa o poder não pode reivindicar responsabilidade apenas pelo que funciona. Liderança também é responder pelas escolhas que faz, pelas práticas que tolera e pelo ambiente que deixa depois de anos exercendo poder. E vale para nós.

Tenho dois filhos. Quando olho para eles e penso no país que minha geração está entregando à deles, preciso reconhecer algo que me incomoda: Minha geração falhou. Construímos muito. Mas tivemos três décadas para fazer da corrupção uma exceção, tornar conflitos de interesse socialmente intoleráveis e elevar a régua ética de quem exerce poder.

Não conseguimos. Pior: começamos a achar normal. Normalizamos o escândalo porque haverá outro na semana seguinte. Normalizamos o erro de quem está do nosso lado porque "o outro também faz". E inventamos uma desculpa confortável: "São todos iguais." Dizer que são todos iguais é uma maneira de nos absolver da responsabilidade de escolher melhor.

Continuo acreditando que podemos ser o país que passamos gerações dizendo que seríamos. Mas o futuro não chega por destino. É consequência das instituições que construímos, dos comportamentos que toleramos e dos líderes que escolhemos. Talvez a transformação comece com algo mais simples.

Olhar para tudo o que está acontecendo ao nosso redor e dizer: Não, isso não é normal. E depois agir como quem realmente acredita nisso.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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Fonte da Notícia: UOL Economia
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