O próximo presidente da República terá que apresentar um plano orçamentário rigoroso assim que a apuração das urnas acabar, sugerem em relatórios os principais bancos de investimentos com atuação no país. Eles avaliam que os juros no Brasil não caem porque a eleição presidencial está indefinida e porque as regras para controle de gastos públicos perderam a eficácia. Os relatórios recomendam ao futuro governo a realização de superávits primários a partir de 2027 para evitar a disparada do dólar, o derretimento da Bolsa de Valores e, no pior dos cenários, juros de até 20% ao ano.
O que você precisa saber
O presidente eleito em outubro herdará regras fiscais incapazes de conter o gasto público. O motivo, diz o Itaú BBA, é o aumento de subsídios federais que extrapolaram o limite de despesas previsto pelo chamado Arcabouço Fiscal. É o caso do programa Pé-de-Meia, que usou dinheiro de um fundo fora do Orçamento para pagar bolsas a estudantes de baixa renda. Entre 2019 e 2026, o Tesouro reduziu de 90% para 80% o controle do próprio orçamento, "refletindo a expansão de instrumentos que não são plenamente capturados pelas regras fiscais", escreve a equipe de análise do banco.
Com incertezas, Itaú BBA projeta déficit nas contas da União neste ano e no próximo, independentemente de quem vencer a eleição. "Mantivemos nossa projeção de resultado primário [o que sobra ou falta no caixa após a arrecadação e os gastos do governo sem incluir pagamento de juros da dívida] em -0,5% do PIB [Produto Interno Bruto] em 2026 e -0,6% em 2027, em um contexto de elevada incerteza quanto à trajetória de política econômica nos próximos anos", afirma em relatório.
Permanece a necessidade de um ajuste fiscal relevante para a estabilização da dívida pública. Itaú BBA, em relatório
Dívida brasileira não para de crescer. Com os gastos da pandemia, ela passou de 74,4% do PIB em 2019 para 86,9% em 2020, mas recuou para 71,7% em 2022, quando voltou a subir até atingir 81,9% do PIB em 2026. Esse avanço se deve à combinação de déficits fiscais sucessivos com o encarecimento dos juros básicos da economia (hoje em 14% ao ano), elevando o valor total da dívida para R$ 10,8 trilhões, segundo o Banco Central.
Equilibrar o orçamento exigirá metas tão impopulares que devem ficar para depois da eleição. Para que a dívida pública pare de crescer, a União precisará economizar anualmente 2,1% de toda a renda do país, calcula o BTG Pactual, o que não acontece desde 2004, lembra o Morgan Stanley. Para isso, o governo teria de cortar despesas fixas, como aposentadorias e pensões, o que exigiria mudanças na Constituição. "Seria desindexar ou desacelerar a expansão desses números, talvez vinculando o reajuste ao projeto de um arcabouço fiscal novo", sugere Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital.
Vitória de qualquer candidato será avaliada pelo compromisso dele com a responsabilidade fiscal, diz XP Investimentos. Se o próximo presidente não demonstrar disciplina orçamentária, a desconfiança vai elevar as taxas de juros, derrubar o valor do real e frear o crescimento da economia, projeta a instituição. "A importância é explicada, principalmente, pela deterioração observada nas contas públicas do país nos últimos anos, e pelos impactos da piora fiscal em fatores como inflação, juros e crescimento econômico", escreve a XP.
Uma "crise" estaria se formando no Brasil, diz casa de análise. "Em nossa visão, é uma crise silenciosa: as taxas de juros já estão em níveis de crise passadas (como 2014/15), e o Tesouro está tendo que ajustar os leilões de títulos (como em momentos de crise)", afirma a Eleven Financial Research sobre a venda de aproximadamente R$ 1,1 trilhão em papéis da dívida pública para bancos e fundos de investimento só este ano para conseguir dinheiro emprestado.
Se os candidatos forem claros durante a campanha, o mercado pode até se acalmar. No caso do presidente Lula (PT), que tenta se reeleger, "teria de ser um cavalo de pau em seu discurso", diz Bruno Perri, economista-chefe e sócio da Forum Investimentos. "Para outros — que gozam de mais credibilidade neste sentido — apenas sinalizar compromisso já é suficiente, desde que tenham boas chances de vencer. Isso, hoje, só se aplica ao senador Flávio [Bolsonaro, PL-RJ]."
Lula e Flávio Bolsonaro defendem caminhos opostos. Enquanto o presidente quer manter o atual Arcabouço Fiscal com aumento de tributos sobre os ricos e preservação de gastos sociais, o senador propõe substituir a regra vigente por uma meta atrelada à relação dívida/PIB, com gatilhos para travar despesas sempre que o endividamento subir.
Juros a 20% ao ano?
A falta de um plano orçamentário após a eleição pode desencadear uma disparada dos indicadores. Sem um ajuste fiscal "crível após as eleições", o contrato de juros futuros (DI) para janeiro de 2031 ficaria "entre 16,5% e 17,5%, o dólar entre R$ 6,20 e R$ 6,60 e o Ibovespa entre 120 mil e 135 mil pontos", estimam o BTG Pactual e a Empiricus. "A simples percepção de que a dívida continuará subindo já pode elevar o juro neutro, enfraquecer o câmbio, reduzir os múltiplos da Bolsa e comprometer o crescimento", escrevem os analistas. Em um cenário extremo de ruptura das regras orçamentárias e expansão de gastos pelo próximo governo, o estudo projeta juros próximos de 20% ao ano, dólar acima de R$ 7 e o Ibovespa abaixo dos 110 mil pontos. Hoje ele gira em torno dos 185 mil pontos.
As dúvidas sobre o desfecho eleitoral somadas aos gastos públicos mantêm os juros em patamar que dificulta o crescimento econômico. Essas "incertezas domésticas", diz o Itaú BBA, empurra as projeções para o dólar para R$ 5,30 ao final de 2026 e para R$ 5,50 em 2027, com taxa Selic em 13,75% e 12,50%, respectivamente. A inflação poderá aumentar se o Congresso aprovar a escala 6x1, diz o banco, gerando um "impacto de segunda ordem via custos" operacionais no comércio e em serviços.
Impacto na Bolsa
Durante o processo eleitoral, o brasileiro deve concentrar seus investimentos em empresas sólidas. "Tentar transformar o resultado eleitoral em uma decisão imediata e generalizada de compra ou venda [de ações] pode ser menos eficiente do que analisar quais empresas possuem capacidade de atravessar diferentes ambientes políticos e econômicos", escreve o Santander Asset, ao lembrar que o índice que mede o repasse de dividendos aos acionistas superou o Ibovespa e a renda fixa em todas as disputas presidenciais desde 2010. Para atravessar a volatilidade das urnas, a XP recomenda foco em negócios com balanços sólidos e dívida baixa, enquanto a Eleven lembra que "a Selic em níveis altos e subindo justifica a alocação em títulos pós-fixados".
Saneamento, energia, bancos e exportadoras, que tem mais fluxo de pagamento de dividendos trimestrais/semestrais, tendem a ter menos volatilidade. Além disso, são empresas que investidores estrangeiros gostam também. Gabriel Magno, da AW Capital
Um ajuste fiscal parcial após as eleições pode levar a Bolsa a atingir 215 mil pontos com Selic a 11%. Esse cenário manteria o dólar ao redor de R$ 5,25, mostrando que a "Bolsa em alta não exige necessariamente dólar em forte queda", avalia Fábio Murad, consultor da Wiser Asset. Essa hipótese seria mais plausível porque "não pressupõe nem crise fiscal nem uma transformação radical das contas públicas".
Mas se o próximo presidente apresentar um plano orçamentário ambicioso, o Ibovespa pode atingir 250 mil pontos. "O elemento decisivo seria a apresentação de um programa considerado capaz de estabilizar a dívida nos anos seguintes", diz Murad. Para ele, a vitória de um nome pró-mercado "não significa automaticamente uma alta de 30% a 40% da Bolsa" no dia seguinte à eleição porque o mercado já antecipou parte dessa melhora.
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