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UOL Economia há 54 d • Qui, 10 Set 2026 05:30:00 -0300

O que levou a China a ter 7 dos 10 modelos de IA mais usados no mundo

O que levou a China a ter 7 dos 10 modelos de IA mais usados no mundo

Sete dos dez modelos de inteligência artificial mais usados no mundo na semana passada eram chineses, segundo dados do OpenRouter de sábado (6). O primeiro da lista foi o Hy4, da Tencent, com 14,7 trilhões de tokens processados em sete dias. O GPT-5.6, da OpenAI, ficou em segundo, com 12,9 trilhões.

O OpenRouter funciona como uma bolsa de modelos de IA. As empresas conectam seus programas a ele, escolhem qual modelo responde a cada pedido e pagam por token, a unidade em que a máquina "corta" o texto para processá-lo (a palavra "computador" vale dois tokens, por exemplo).

Por ser neutro, ele virou o termômetro mais confiável de qual IA o mundo realmente usa.

Há um ano, os modelos americanos respondiam por três quartos desse tráfego. Em junho, segundo levantamento da CNBC com dados do próprio OpenRouter, os chineses já somavam 46% dos tokens, contra 36% dos americanos.

A explicação passa principalmente pelo preço. O DeepSeek V4 Flash cobra US$ 0,14 por milhão de tokens. O GPT-5.5 cobrava US$ 5 pelo mesmo milhão.

Kai-Fu Lee, ex-presidente do Google na China e autor de "Inteligência Artificial", um dos livros mais lidos sobre o tema, resumiu a lógica numa entrevista à Bloomberg na semana passada. A OpenAI e a Anthropic construíram uma IA no estilo "iPhone": fechado, caro e muito lucrativo. As chinesas construíram o "Android da IA": quase tão bom, aberto e vendido por um preço muito menor.

A pergunta que ele faz para explicar o que está em jogo é a mesma que fazemos para um comprador de carro: você pagaria US$ 50 mil pelo modelo do ano ou US$ 5 mil por um de seis meses atrás?

Os agentes de IA chineses nasceram dentro de 'superapps'

O preço menor explica metade da história. A outra metade eu vi de perto em uma viagem à China em agosto.

Há uma diferença na forma que o agente de IA chega ao mercado no Ocidente e no Oriente. O agente de IA é o programa que, em vez de só responder perguntas, executa tarefas: pesquisa, compara, escolhe e paga.

No Ocidente, ele chega como um aplicativo novo, que precisa conquistar cada usuário do zero. Na China, ele nasceu dentro dos superapps que 1,4 bilhão de pessoas já usam todos os dias para resolver coisas diversas, como pagar uma conta, trocar mensagens ou fazer compras online.

O Alipay, braço de pagamentos do grupo Alibaba, processou 300 milhões de transações feitas por agentes de IA em maio. Em agosto, o Alibaba informou que mais de 250 milhões de pessoas já haviam comprado por meio do assistente de IA. Em junho, a Tencent abriu o WeChat para agentes de outras empresas, e JD.com, Meituan, Didi e a KFC China entraram no primeiro lote.

A diferença está no que o agente encontra na largada dentro do superapp. Identidade do usuário verificada, cartão cadastrado, histórico de compras e o catálogo do lojista já estavam ali há uma década.

Um modelo de IA apenas suficiente, com esse contexto, resolve a tarefa na primeira tentativa. Um modelo excelente sem esse histórico recomeça do zero a cada pedido. Por isso, a China conseguiu vencer a corrida da adoção da tecnologia sem precisar do melhor modelo de IA.

O governo chinês transformou isso em política industrial. O Conselho de Estado fixou meta de mais de 70% da população usando agentes de IA até 2027, e de 90% até 2030. Em maio, três órgãos do governo criaram uma identidade digital para agentes, com registro obrigatório e três níveis de autonomia.

O que ainda não existe é regra do banco central chinês para pagamento executado por agente. Nesse vácuo, as gigantes UnionPay, JD.com e Ant Financial correm para que o desenho de cada uma vire o padrão nacional.

A conta também chegou na China

Na tela do consumidor, o agente aparece de graça. Mas no balanço das empresas que os criaram, aparece o custo da construção.

O último balanço trimestral do Alibaba deixou esse custo bem à vista. No segundo trimestre, a receita cresceu 9% e a divisão de nuvem avançou 45%. Mas o lucro líquido caiu 75%, porque os investimentos subiram 75%, e a geração de caixa ficou negativa.

Dias depois, a empresa foi ao mercado buscar capital. O Alibaba anunciou uma oferta de ações de US$ 10,2 bilhões para bancar os investimentos com infraestrutura de IA. O plano de investimento soma 380 bilhões de yuans (cerca de R$ 275 bilhões) em três anos. O mercado não gostou de ver a conta chegar, e a ação caiu 10% na bolsa de Hong Kong.

Passos atrás na corrida tecnológica

Apesar do salto no uso da IA chinesa, há defasagem tecnológica frente aos modelos americanos. Os modelos chineses mais usados são as versões "flash", leves e baratas, feitas para tarefas repetitivas.

Na ponta da capacidade, Lee coloca a distância tecnológica em cerca de seis meses, dentro de uma faixa que oscila entre três e quinze meses. A distância existe, mas vem diminuindo. Logo depois do lançamento do ChatGPT, esse gap era estimado entre três a quatro anos.

O índice da Epoch AI, a medição mais rigorosa que conheço, chega a um número parecido (cinco a sete meses) e estima de seis a doze meses para os chineses alcançarem o modelo americano mais avançado.

O interessante é que eles chegaram até aqui com 1% a 3% do poder de processamento dos rivais americanos, por causa das restrições à exportação de chips. Compensaram a falta de máquina com o que Lee chamou de "trabalho sujo de engenharia".

Na minha leitura, seis a doze meses é o intervalo em que o investidor deve trabalhar para buscar retornos com empresas chinesas de tecnologia. A China lidera em volume e em preço, e segue atrás na fronteira. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.

3 pontos de atenção para o investidor

O primeiro: o ranking do OpenRouter mede alcance, o que é diferente de lucro. Perguntado se as chinesas vão ganhar mais dinheiro, Lee respondeu que não. O dinheiro segue com as americanas, que vendem software caro para empresas. As chinesas vendem participação de mercado, e em muitos casos nem cobram, porque quem baixa um modelo aberto paga somente a hospedagem nos serviços de nuvem.

O preço do token tende a continuar caindo, porque a concorrência chinesa força os laboratórios americanos a baixar preços (vide o que aconteceu com os últimos lançamentos da OpenAI e Anthropic). Quem ganha com isso é quem consome IA em escala (bancos, varejo, software) e não necessariamente quem a vende.

O segundo: a demanda por capacidade computacional sobe ainda mais com o token mais barato, porque cada tarefa de agente gasta dezenas de chamadas onde antes havia uma pergunta. As contas da Nvidia, das empresas de energia e de datacenter seguirão crescendo dos dois lados do Pacífico.

O terceiro: o investimento em empresas da China é possível para o investidor brasileiro pela B3, por meio de BDRs (recibos de ações estrangeiras negociados aqui) de empresas como o Alibaba. Esses ativos vêm com o risco que o próprio Alibaba acabou de mostrar.

Quem investe em agente na China investe em cima de um trilho que o governo desenha, e a queda de dois dígitos na ação depois da oferta lembra que a infraestrutura pública construída com capital privado demora a devolver o dinheiro.

O Brasil, aliás, já recebe o produto pronto dessa engenharia. O TikTok Shop (da chinesa ByteDance) multiplicou por 102 vezes o volume diário transacionado no primeiro ano por aqui. A empresa brasileira que competir com isso vai competir com dez anos de construção, e não apenas com um aplicativo.

"Os mestres abrem as portas", diz um provérbio que li numa parede em Xangai. Mas as portas que a China abre são fáceis de atravessar. Cada uma delas tem uma década de obra do outro lado.

*João Piccioni é analista de investimentos (CNPI), gestor de carteiras autorizado pela CVM e fundador da Capital Pulse. Esta coluna é análise, e não recomendação de investimento.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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