A psicóloga Carla di Pierro e a médica Ana Carolina Côrte, do Comitê Olímpico do Brasil (COB), afirmam que a pandemia de covid-19 acelerou a atenção à saúde mental no alto rendimento e expôs atletas a um cenário de pressão e vulnerabilidade ampliadas.
Di Pierro diferencia o estresse esperado do ambiente competitivo de quadros que exigem intervenção clínica. Ela afirma que a gravidade aparece quando sintomas se intensificam e começam a limitar a vida e o desempenho do atleta, com necessidade de avaliação especializada e reabilitação.
O estresse é comum no ambiente esportivo. O problema é quando o sofrimento se agrava e a frequência dos sintomas de mal-estar, de depressão ou de ansiedade estão muito intensos. E aí a pessoa realmente fica debilitada, ela não consegue fazer o que ela conseguia fazer antes.
Acho que é importante a gente conseguir fazer essa diferença do que é uma questão de saúde mental e do que é simplesmente o estresse comum do ambiente de alto rendimento. O profissional de saúde mental consegue avaliar. A gente tem questionários e a nossa análise clínica para entender quando o atleta está em sofrimento importante.Carla di Pierro, psicóloga do Comitê Olímpico do Brasil
Alguns casos importantes ocorreram nos últimos anos. A ginasta americana Simone Biles optou por não disputar várias finais nos Jogos de Tóquio para priorizar seu bem-estar emocional. Recentemente, a tenista brasileira Bia Haddad Maia deu uma pausa na carreira para cuidar da saúde mental após sentir seu corpo entrando em colapso na quadra.
Quem também tomou o mesmo caminho foi a campeã olímpica Duda, brasileira do vôlei de praia, que deu um tempo na parceria com Ana Patrícia para se cuidar e voltar mais forte.
Para a psicóloga Carla di Pierro, o alto rendimento mudou com a chegada de pressões que atravessam a rotina fora do treino, como cobranças digitais e ataques nas redes. Ela afirma que o cuidado precisa incluir prevenção e suporte contínuo, e não apenas resposta quando o atleta já interrompe a carreira para se tratar.
O ambiente de alto rendimento é diferente dos anos 80, dos anos 90. O atleta tem que lidar com uma rotina diária, mas também com pressões que não existiam antigamente, que chegam no celular dele, que chegam na rede dele. A gente tem um cenário diferente hoje em dia e o atleta um pouco mais vulnerável.
A importância de um time onde tenha os profissionais de saúde mental é pensar em prevenção, não só em tratar um atleta que está já na pausa, como cuidar desse atleta para ele enfrentar esse ambiente onde tem pressão, onde tem mídia, onde tem hater, e como ajudar ele a sustentar essa performance.Carla di Pierro
Ela também relaciona o debate público sobre saúde mental a uma mudança na forma como o atleta é percebido. Ela afirma que pausas assumidas por atletas ajudam a reduzir o estigma e a tratar o cuidado psicológico como parte do trabalho, assim como ocorre em lesões físicas.
A importância dos atletas que falam é mostrar que atleta também é gente, é vulnerável. A gente tem um imaginário de que atleta é um super-herói. Na verdade são pessoas, e na maior parte das vezes são jovens.
A gente pode ter pausa na saúde mental como a gente tem pausa quando a gente tem um LCA, um joelho rompido, um ligamento a menos. A gente pode voltar mais forte, voltar com mais repertório, voltar com novos projetos, voltar com perspectivas novas.Carla di Pierro
Saúde integrada e trabalho em equipe
A médica Ana Carolina Côrte concorda com Carla di Pierro e vê que o cuidado no alto rendimento depende de uma visão integrada, que inclua bem-estar físico, mental e social. As duas participaram do Esporte Cria 2026 e reforçam que, no COB, a rotina de atendimento conecta especialidades e reforça a necessidade de trabalho conjunto para sustentar desempenho e saúde.
A definição de saúde pela Organização Mundial da Saúde é o bem-estar físico, mental e social. Não adianta a gente trabalhar só a parte física do atleta. O mental tem que acontecer também, e o social, que às vezes a gente esquece, é importante.
Dentro do Comitê Olímpico do Brasil, as áreas andam juntas. A gente tem médicos psiquiatras na área. Assim como o médico do esporte e o fisioterapeuta precisam andar juntos, o psiquiatra e o psicólogo também caminham juntos. Isso é tudo dentro de uma equipe só.Ana Carolina Côrte, médica e gerente de saúde do COB
Ela também associa a formação de profissionais de bastidores a um caminho de permanência no esporte para quem não segue a carreira de atleta. Ela afirma que oportunidades surgem com preparo acadêmico e com habilidades de cuidado, como empatia, em um ambiente que exige confiança e entrega no dia a dia.
O médico procura cuidar de pessoas, então essa empatia, essa doação pela vida do outro, para que ele esteja bem, que muitas vezes você não está bem para entregar aquilo, mas você tem que fazer de tudo para dar o seu melhor por ele.Ana Carolina Côrte
Carla di Pierro explica que a estrutura de cuidado ganhou mais forma nos últimos anos, com iniciativas voltadas tanto ao atendimento quanto à preparação mental. No COB, a atuação envolve profissionais diferentes, com foco em reconhecer sinais, acolher demandas e sustentar a rotina de treinos e competições.
A gente tem uma área só para cuidar das questões de saúde mental do atleta, também da preparação mental e olhar para a performance do atleta. A gente recebe os atletas precisando desse cuidado. A gente tem know-how para cuidar desses atletas. São psicólogos clínicos também que conseguem identificar, diagnosticar e tratar.Carla di Pierro
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