A embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti, que teve seu visto revogado pelo governo Donald Trump em agosto, afirmou hoje que a relação entre os dois países atravessa "um período incomum".
"Brasil e Estados Unidos, como vocês sabem, desfrutam de mais de dois séculos de relações diplomáticas e de uma rica história de cooperação. Estamos, no entanto, atravessando um período incomum, que está colocando à prova essa longa tradição", afirmou Viotti, em discurso durante o almoço de celebração da independência do Brasil na sede da OEA (Organização dos Estados Americanos), em Washington.
"Nos últimos meses, houve uma série de medidas contra o Brasil e, ao longo de todo esse período, nossa postura tem sido consistentemente priorizar o diálogo, as negociações e a busca por soluções", seguiu Viotti, sem citar diretamente o tarifaço de 37,5% anunciado em julho ou a revogação do seu próprio visto, no mês passado.
O governo Trump justifica as medidas citando supostas práticas desleais de comércio do Brasil, a demora do governo Lula em oferecer o aceite ao indicado dos EUA para liderar a embaixada em Brasília e a negativa de visto a oficiais do Departamento de Estado que pretendiam checar a integridade eleitoral do sistema brasileiro.
O evento na OEA acontece a menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais, que ocorrem sob intensa atenção do governo americano. Viotti disse que a economia brasileira já provou "sua resiliência" e que as instituições do país são "robustas".
"As eleições de outubro confirmarão mais uma vez a capacidade da democracia brasileira de gerir as diferenças políticas dentro de uma estrutura democrática", disse no evento, que aconteceu sem a presença de nenhum representante de nível alto da administração Trump. O almoço, no qual foi servido picanha, linguiça e caipirinha de cachaça, teve o patrocínio de gigantes da economia brasileira, como a Embraer e a JBS, ambas isentas das taxas impostas por Trump.
Trump e Lula conversaram por telefone no mês passado, e existe a expectativa de um encontro entre os dois líderes às margens da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York, no fim de setembro. Os gabinetes dos dois governos seguem em diálogo em busca de um acordo comercial, embora a impressão de parte a parte seja de que nada será definido antes de as urnas dizerem quem ocupará o Planalto a partir do ano que vem.
"Embora possam surgir divergências entre nós de tempos em tempos, continuamos convencidos da importância de manter uma relação construtiva, baseada no diálogo e no compromisso compartilhado de promover nossos interesses comuns", afirmou Viotti, pedindo que os dois lados voltem a "concentrar esforços em uma agenda pragmática e positiva".
Tendo impulsionado a vitória de expoentes da direita na América Latina, o governo Trump é composto por uma ala que defende o apoio explícito de Washington a Flávio Bolsonaro (PL). Nesse grupo, estão muitos dos atuais quadros do departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, e que impulsionou medidas como a designação das facções criminosas brasileiras CV e PCC como grupos terroristas estrangeiros. Do outro lado, há quem defenda cautela no posicionamento de Washington sobre a disputa eleitoral, para manter as pontes com o país em caso de reeleição de Lula (PT).
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